Marco Maciel, discreto e eficiente

Por Paulo Alonso.

Poucos políticos brasileiros tiveram a envergadura, o talento, a habilidade, a humanidade, a coragem, a pertinência e a inteligência viva e brilhante de Marco Maciel – um verdadeiro estadista. Morto aos 80 anos nesta semana, depois de uma longa enfermidade, o político foi lembrado por líderes partidários de todas as correntes. Todos eles enalteceram o trabalho de Maciel, sempre pautado na ética, paciência, polimento e argumentação lúcida, em seus 50 anos de vida pública.

Líder nato e carismático, católico fervoroso, Marco Maciel foi deputado estadual, deputado federal, governador de Pernambuco, senador da República, ministro da Casa Civil e da Educação e, durante oito anos, vice-presidente da República, no Governo Fernando Henrique Cardoso.

Ao contrário de outros vice-presidentes que falam demais e que costumam, em suas interinidades no exercício da Presidência da República, reunir caravanas para visitar seus estados, Maciel exerceu o cargo de presidente do Brasil, nas viagens de FHC, sempre com total discrição, de forma serena, sem vaidades e sabedor da sua responsabilidade. Não foi à toa que FHC, ao homenagear o amigo, disse que Maciel lhe foi leal durante os dois mandatos e que, quando viajava ao exterior, ia tranquilo, pois sabia que, mesmo na sua ausência, o país estava sendo bem governado pelo pernambucano.

A preocupação de Marco Maciel sempre foi a de servir o Brasil, para poder ajudá-lo na sua construção, sustentabilidade, desenvolvimento e bem-estar social. E foi dessa forma que ele, que também atuou como advogado e professor universitário, se comportou ao longo da sua carreira política.

No momento em que vivemos, de grande polarização política e ódio exacerbado, faz-se mister lembrar Maciel e de uma frase em especial: “Não vejo na divergência ideológica, na diversidade partidária e no pluralismo doutrinário, senão virtudes para as quais se concebeu a democracia representativa.”

Quis o destino que tivesse tido a honra de conhecer e de estar com Marco Maciel em várias ocasiões, algumas das quais, inclusive, em seu gabinete no anexo do Palácio do Planalto, quando exercia o cargo de vice-presidente do Brasil.

Nesses encontros falávamos sobre a vida política brasileira, fazíamos referência a bela Recife, ao Rio Capibaribe, ao poeta João Cabral de Melo Neto, aos livros que publicava, dentre tantos assuntos os quais trocávamos impressões. Desse convívio, registrei minhas impressões sobre a personalidade de Maciel e escrevi artigos sobre o que depreendia das nossas conversas. Ele era um sujeito tranquilo, esguio, sagaz, generoso, otimista. Era uma pessoa de bem com a vida e que sempre acreditou na grandeza do país.

Maciel costumava me enviar as suas publicações, e em uma delas, intitulada Conviver mais que vencer, ele abordou, com propriedade, que a educação não é só um conjunto de valores intelectuais adquiridos, mas também de valores culturais vividos e valores maiores herdados ou escolhidos ao longo do curso de toda a vida.

Aliás, ao assumir o Ministério da Educação, nos idos dos anos 80, Maciel manifestou seu inconformismo com a situação educacional do país vigente e se comprometeu a implantar uma política educacional baseada na valorização do ensino do primeiro grau. Durante sua gestão, defendeu o ensino profissionalizante, então obrigatório em todas as escolas do antigo segundo grau, que deixou de receber o tratamento privilegiado que tivera durante os governos militares e passou a ser ministrado apenas nas escolas técnicas.

O então ministro da Educação comprometeu-se, ainda, com a legalização da União Nacional dos Estudantes, UNE, posta na ilegalidade durante o regime de exceção. Também por sua iniciativa, em setembro de 1985, no Dia Nacional da Educação, as então quase 210 mil escolas oficiais do país interromperam suas atividades para debater os problemas do Ensino de 1º e 2º graus, hoje Ensino Fundamental e Ensino Médio, e receber dos pais, alunos e professores sugestões para, por meio do diálogo, tentar resolver seus problemas. Foi um Ministro da Educação democrático, ativo e atento.

Em novembro daquele mesmo ano, extinguiu o Mobral, após 15 anos de funcionamento. Para substitui-lo, criou a Fundação Educar, encarregada de oferecer educação básica aos jovens e adultos excluídos do sistema formal de ensino. Em dezembro de 85, realizou um amplo debate sobre o ensino superior, abordando temas como currículos, autonomia universitária, piso salarial de professores e servidores, bem como incentivo à pesquisa.

Não é à toa que, mesmo tendo deixado o MEC e passado pelo Gabinete Civil da Presidência da República, Maciel tenha publicado um trabalho tão importante e tão atual para a educação. Em Conviver, mais que vencer, ele pregou que, sem o exercício da liberdade, não pode haver educação liberal. Aliás, a educação, lembrando Paulo Freire, deve ser compreendida como prática da própria liberdade.

Maciel acreditava que a educação, como ciência, é, cada vez mais, um valor que universalmente deve ser compartido. Ainda de acordo o seu pensamento, assim como não deve haver fronteiras políticas e ideológicas a separar o conhecimento científico, também não deve haver limitação para que se entenda a educação como parte essencial da cultura de cada povo, de cada região ou etnia. É sua a frase: “Como todo homem pertence a uma determinada cultura, e a soma dessas culturas faz parte do patrimônio comum da humanidade, e seus resultados podem e devem ser compartilhados e desfrutados por todos, como forma de enriquecê-las, preservá-las e disseminá-las”.

Ainda de acordo com Maciel, a educação liberal deve ser o espaço de práticas que não se esgotam na transmissão do conhecimento, nem na informação, mas que, segundo entendia, exigem um compromisso com as condições de vida que permitem a cada criança, jovem, adolescente, adulto, procurar seu aprimoramento moral, seu desenvolvimento intelectual e sua vivência cultural como forma de enriquecer o patrimônio resultante da vida em comunidade.

Maciel afirmava que a escola liberal deve buscar também a igualdade e a excelência, “pois desses objetivos dependerão a cultura cívica e a cultura política necessária ao fortalecimento e aprimoramento da democracia”. E esse deve ser o nosso maior e mais importante compromisso.

Para o poeta português Fernando Pessoa “o homem precisa ser uma antena do Mundo”, e Maciel comprovou, por meio de seus atos e ações, ter sido um homem que esteve à frente do seu tempo, uma verdadeira antena do Mundo, pelo conjunto de realizações que empreendeu.

O pensamento de Marco Maciel, membro da Academia Pernambucana de Letras, da Academia Brasileira de Ciências Morais e Políticas e da Academia Brasileira de Letras, pode ser também percebido pela leitura atenta dos livros que escreveu, dentre os quais merecem destaque Vocação e compromisso, Educação e liberalismo, Liberalismo e Justiça Social, Ideias liberais e realidade e Manual do Vereador.

A educação, para Maciel, deveria ser uma verdadeira interiorização da razão. “Nela se conjugam admiravelmente os valores da tradição e do progresso, visto que por ser capaz de receber a herança dos seus antepassados, de compreendê-la e de assimilá-la, é que o homem se capacita a melhorá-la e a desenvolvê-la.”

Maciel foi filiado a Arena, PDS, PFL e DEM e presidiu, em pleno regime militar, a Câmara dos Deputados, em um dos períodos mais dramáticos do Brasil. Jamais, todavia, deixou de erguer sua voz quando julgou ser necessária, mesmo enfrentando a ira de vários.

Marco Maciel deixa um legado de seriedade e compromisso com a causa pública e será sempre lembrado por sua postura discreta, afável, elegante e de fino trato.

Um homem do diálogo. Um exímio conciliador.

 

Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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