Marita Vinelli, inspiração e delicadeza

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A dramaturga Miriam Halfim homenageará, na sede da Academia Carioca de Letras, a poeta Marita Vinelli, no próximo dia 17, com uma apresentação dramatizada da peça que escreveu sobre a vida e a obra da ilustre decana dessa Instituição, também conhecida como Casa de José de Anchieta. Na ocasião, Gisela de Castro e Maria Pompeu, além de outros atores, dirigidos por Sérgio Fonta, interpretarão o texto Poesia, que melhor simboliza Vinelli, uma das mais importantes intelectuais brasileiras.

Vinelli integra o Pen Clube do Brasil, as Academias Luso-Brasileira de Letras e Carioca de Letras e a Sociedade Eça de Queiroz, dentre outras entidades culturais. Entre ensaios, como Encontro marcado com Eça de Queiroz e os livros de poesia, No vale verde do meu sonho; Tu chegaste, primavera; Vou cantar até morrer; e Meus poemas azuis, além de dezenas de prefácios, posfácios, conferências e discursos de posse, a poeta, com raro talento, inteligência lúcida e brilho permanente, é um exemplo para todos, pois sua alegria de viver, juventude e eloquência são contagiantes, empolgando a todos os que com ela tem o privilégio de conviver.

A intenção de Miriam Halfim, advogada, também titular da Academia Carioca de Letras, do Pen Club do Brasil, diretora do Museu Judaico do Rio de Janeiro e ex-professora de Literatura Inglesa e Americana, da Uerj e da Faculdade da Cidade, em prestar esse tributo a Vinelli, precisa ser vivamente aplaudida. A homenageada, de 95 anos, merece o nosso reconhecimento e os nossos efusivos agradecimentos, pela trajetória e caminhada sempre atuando e incentivando a cultura do país.

 

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Poeta sensível e delicada, uma das

mais importantes intelectuais brasileiras

 

Vinelli costuma, com muito orgulho, lembrar que é filha do médico e professor Vinelli Baptista e viúva do também médico e docente Luiz Carlos de Sá Fortes Pinheiro e que ambos integraram a Academia Nacional de Medicina. Aliás, um dos seus poemas mais emocionantes foi recitado por ela, no dia em que a Academia de Medicina homenageava seu marido, em razão do seu centenário natalício:

Por que estás a cantar?…/

O que esperas? Está tão longe tua primavera! Agora é o outono! Nada mais./

Por que carregas dentro de ti tantos arrebatamentos e tantos vendavais? Por que ainda esperas amores abrasadores e a fúria dos temporais?/

Por que trazes na boca o gosto do pecado, tantos versos, tantos ais? Tantos gemidos tresloucados? Tantos desejos sensuais? Por que estás a cantar?/

Cala-te, louca! Esquece as cantigas! Emudece! Deixa o ardor para as raparigas e esquece que ainda tens no peito uma fogueira a crepitar./

Pega a sacola de beijos, tua mala de versos, teu cesto de carinhos E o teu bornal de desejos e joga tudo no mar. Deixa que as sereias nuas as venham buscar e fiquem doidas na areia, prateadas de lua, febris a dançar./

Eu sei que é tempo de descanso. Que é tempo de cadeira de balanço à beira da lareira. Que é tempo de bordar, rezar. Viver de lembranças, rodeada de crianças. E contar histórias da Gata Borralheira./

Mas eu não quero viver assim serena e mansa. Eu quero a surpresa. Eu quero a esperança./

Eu quero o arrebatamento./

Eu quero a vida! Eu quero o sol! Eu quero o vento! Eu quero o amor! Quero meu corpo cheirando a flor!/

Eu quero um mar turbulento! Eu quero ser sempre assim! A mesma doida!/

E, mesmo depois de morta, quero frêmitos e versos a cantar dentro de mim…/

 

E é essa poeta sensível e delicada chamada Marita Vinelli, a quem conheci ainda criança, “de calças curtas”, como ela sempre menciona, na casa do professor Dagmar Aderaldo Chaves, médico ortopedista renomado e integrante de quase 30 academias de letras, artes, cultura e medicina, e de Rosinha, amigos de toda a vida dos meus pais, que me saudou, com imenso carinho, quando ingressei na Academia Luso-Brasileira de Letras e que a Academia Carioca de Letras, por intermédio da confreira Miriam Halfim, promove essa sessão magna e justíssima celebração em reconhecimento à sua rica vida literária, prestando-lhe, igualmente, um tributo em razão da sua própria vida, sempre marcada por grandes realizações e obras.

Aliás, nos saraus promovidos por Dagmar, em seu apartamento da Avenida Atlântica, Vinelli costumava declamar seus versos, interpretando-os com sentimento, alma e paixão, emocionando sempre a todos. Nesses eventos estavam sempre presentes, dentre tantos intelectuais, o também acadêmico Liborni Siqueira, desembargador do Tribunal de Justiça do nosso estado, recentemente falecido, e Antônio Olinto, titular da Academia Brasileira de Letras, morto há alguns anos, e que me saudou, para minha honra, quando ingressei na Academia Carioca de Letras.

Aliás, Ricardo Cravo Albin, nosso ex-presidente, ressalta, em recente mensagem enviada aos acadêmicos, que, desde que passou a integrar a Academia Carioca, teve o prazer de testemunhar o indiscutível élan de Vinelli, “bem como seus feitos e sua intensa contribuição, além da presença constante, imponente, firme e original. Aliás, em tudo em Vinelli esgrime fascínio e surpresas, até mesmo pela espontaneidade ao recitar seus poemas, alguns fecundados por eloquente erotismo. Outros tantos pela nostalgia de um Rio que jamais voltará.”

Vinelli é emoção, cultura, delicadeza, alegria e generosidade. Viva Marita Vinelli! Parabéns Miriam Halfim!

 

 

Paulo Alonso

Jornalista, titular da Academia Carioca de Letras e chanceler da Universidade Santa Úrsula.

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