Menos da metade das perdas econômicas causadas por desastres naturais no mundo têm cobertura de seguro. Exatamente, 48% dos prejuízos globais registrados durante o ano de 2024 foram devidamente indenizados. O restante, que equivale a cerca de US$ 191 bilhões, ficou descoberto, causando prejuízos a pessoas físicas e jurídicas.
A chamada lacuna de proteção, que é a diferença entre o total de perdas econômicas causadas pelas catástrofes e a quantia efetivamente coberta pelos seguros, é mais profunda nos países em desenvolvimento. Na Ásia, apenas 17% das perdas estão seguradas, e na América Latina a proporção é de 19%.
Mesmo na Europa, onde o mercado é mais consolidado, quase 70% dos prejuízos ainda ocorrem sem cobertura. América do Norte e Oceania apresentam as menores lacunas de proteção do mundo, com 43% e 41% das perdas permanecendo descobertas, respectivamente.
Os dados são do estudo “Mudanças Climáticas, Riscos Extraordinários e Políticas Públicas”, da Mapfre Economics, apresentado nesta terça-feira na Casa do Seguro, espaço da CNSeg (Confederação Nacional de Seguros) na COP30 em Belém (PA).
“Os desastres estão se tornando mais intensos e frequentes e, em alguns casos, de dimensão sistêmica”, afirma, em nota, a diretora de sustentabilidade da Mapfre, Fátima Lima. “Nenhum governo ou empresa pode lidar com isso sozinho. Fechar essa brecha é um desafio de política pública”, alerta a executiva.
Em países como o Brasil, o relatório aponta que o crescimento urbano desordenado, a ocupação de áreas vulneráveis e a falta de infraestrutura de prevenção ampliam o impacto das catástrofes.
De acordo com o estudo, as perdas globais por desastres naturais chegaram a US$ 368 bilhões em 2024, número inferior ao de 2023 (US$ 397 bilhões de dólares) e similar ao de 2022 (US$ 365 bilhões). A maior parte veio de eventos de menor intensidade, mas mais recorrentes, os chamados “riscos secundários”, como granizo, vendavais e enchentes, que são fenômenos da natureza comuns no Brasil.
O relatório aponta ainda que 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperatura média 1,6°C acima dos níveis pré-industriais. O fenômeno El Niño, em intensidade recorde, provocou secas na Amazônia, redução do nível do Canal do Panamá e chuvas extremas em todo o continente americano.
Esses episódios, somados a ondas de calor, incêndios e tempestades cada vez mais violentas, elevaram o custo dos seguros e aumentaram a incerteza sobre os riscos futuros. “O impacto climático já não é só ambiental, é econômico”, afirma a diretora da Mapfre.
Para os especialistas da companhia, o avanço do aquecimento global pressiona o setor de seguros de duas formas: eleva o custo das indenizações e torna mais difícil precificar os riscos futuros.“O seguro é um amortecedor importante, mas precisa estar conectado a políticas de adaptação e prevenção para poder ter estabilidade”, explica Fátima.
Ações para reduzir riscos com desastres naturais
O relatório recomenda que governos e empresas adotem medidas conjuntas para ampliar a cobertura e reduzir vulnerabilidades. Entre as propostas estão parcerias público-privadas, uso de seguros paramétricos, que pagam indenizações automáticas com base em índices climáticos, melhoria dos dados de risco e incentivos à prevenção.
O estudo também cita o potencial de instrumentos como títulos catastróficos e bônus verdes para financiar ações de adaptação climática e fortalecer a resiliência econômica. “O seguro é uma das principais ferramentas de proteção econômica diante das mudanças climáticas, mas ele precisa fazer parte de uma estratégia integrada”, alerta Fátima.
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