Mercado de ações x reforma da previdência x FGTS

É inegável o esforço da administração da Bovespa na tentativa de recuperar a liquidez do mercado nacional de ações, seja via pequenos investidores, seja via crescimento dos fundos de pensão com a reforma da previdência, ou seja, via aplicação livre dos recursos do FGTS. Mas, é importante também colocar que este esforço precisa ser feito por aqueles que querem os recursos a custos baixos e prazos longos.
O número de empresas e consequentemente de setores, presentes na bolsa de valores, não condiz com o PIB brasileiro ou mesmo com a especialização que o nosso mercado financeiro possui. Existe um desequilíbrio do lado da oferta também. E isto pode ser visto pelo número de empresas que fechou o capital entre 1998 e 2002.
É claro que os preços não estão atraentes para as empresas lançarem ações, pois vão prejudicar os atuais acionistas, é claro que o ambiente econômico não seduz o empresariado a novos investimentos, mas também não há um deserto total em todos os setores. Há a necessidade da Bovespa ter a coragem de ir aos empresários e explicar a estes agentes o que é uma empresa aberta, pois acredito que também existam enormes dúvidas do lado dos empresários, assim como estamos vendo do lado dos investidores.
As reformas da previdência e tributária podem modificar muita coisa no país, principalmente a médio prazo, mas é importante que o empresário não venha somente atrás do dinheiro que pode surgir com as ações que estão sendo implementadas, mas sim pelas vantagens que uma empresa aberta possa oferecer, desde que se saiba que a transparência é o nome do jogo.
O que quero colocar é que tente se criar – é claro que tenho consciência de que é difícil – um equilíbrio de demanda e oferta, pois o diagnóstico de que faltam investidores é um pouco precipitado, principalmente quando notícias como as de que a Petros, fundo de pensão dos funcionários da Petrobras e terceiro maior do país, reduziu sua participação em ações de 43% para 29% em três anos, demonstrando que investidores de longuíssimo prazo, por razões internas ou não, “saem” do mercado e criam um “vazio” muito grande para perspectivas de aumentos e aberturas de capital, como o da manutenção da liquidez do mercado, quando na realidade deveriam ser os maiores e mais importantes investidores na cadeia do mercado de ações.
Voltar a colocar que os benefícios para o país de um mercado de capitais forte e especificamente do mercado de ações forte é ser repetitivo, mas há a clara necessidade de se modificar a tributação do mercado de ações para que se possa criar um arcabouço correto para que a reforma da previdência não seja mais uma válvula de escape para o endividamento público, e a utilização do FGTS no mercado de ações não seja feita de ações isoladas quando o governo precisar de “caixa” extra.
Enfim o mercado de ações é pouco representativo no PIB brasileiro, a capitalização das empresas nacionais é baixa e não reflete a própria realidade das empresas, os setores são mal representados devido a diversos fatores de concentração e falta de conhecimento dos empresários e por fim, o investidor está mal acostumado em financiar o governo e receber elevadas taxas de remuneração, em vez de ter um pouco mais de risco em troca de um pouco mais de remuneração de forma mais consistente, sem estar sujeito às agruras do fim do ano passado com as eleições.

Mauro Giorgi
Analista de investimentos.
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