Mercado internacional sobe na goiabeira

Indicadores apontam para uma recessão na economia dos Estados Unidos

Conversa de Mercado / 19:43 - 14 de dez de 2018

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

Enquanto a futura ministra Damares Alves desabafa aos fiéis que viu Jesus subindo na goiabeira, o mundo está preocupado com outro fato: a guerra comercial entre China e EUA tem provocado a redução do desempenho das economias, o que fica evidente nos últimos dados divulgados pela China e União Europeia. O “dollar index”, que mede seu comportamento em relação a uma cesta de dez moedas, subiu 0,39% na sexta-feira e segue com valorização de 3,96% no ano. No Brasil, o dólar voltou ao patamar acima de R$ 3,90.

Tanto a Europa quanto a China estão mostrando sinais claros de desaceleração; já os EUA devem seguir o mesmo movimento no próximo ano. A economia norte-americana cresceu 4,2% no segundo trimestre e 3,5% neste terceiro trimestre, percentuais elevados e acima do PIB potencial norte-americano. Se for analisado um dos principais indicadores de crescimento dos EUA, ou seja, o spread entre os juros de dez anos e de dois anos, pode-se observar que estava elevado ao longo dos últimos anos e agora se aproxima de zero. Nas últimas cinco vezes em que este spread foi negativo, a economia norte-americana entrou em recessão logo em seguida. O spread atual prevê um incremento de 1,9% para o PIB norte-americano ao final de 2019.

A situação de que a economia norte-americana anda acima do PIB potencial é temporária. Não há indício de que existe uma chance maior do que o normal de entrar num processo recessivo. No entanto, a política fiscal adotada por Trump reduz a bala na agulha para reduzir a desaceleração futura.

Há uma certa “Dilmanização” da economia. Trump adota a mesma postura da ex-presidente Dilma: na hora que a economia está em pleno emprego, coloca mais incentivo fiscal. A consequência é um superaquecimento no momento atual. No entanto, no futuro, quando houver a desaceleração, o governo terá menos munição para atuar. A diferença é que os EUA são o porto seguro dos investidores e não devem entrar em crise fiscal, como aconteceu com o Brasil.

O dado que favorece um cenário menos pessimista é que, apesar de a economia norte-americana estar numa situação de pleno emprego, crescendo acima de seu potencial, a inflação está estável. Isso se deve à ancoragem das expectativas do mercado, graças à atuação do BC. E, neste sentido, a desaceleração pode ser amenizada pela política monetária. Até o momento, o Fed tem subido gradualmente a taxa de juros e alinhado as expectativas do mercado. Mesmo com o fim dos efeitos da expansão fiscal, na margem, a economia dos EUA ainda estará crescendo acima do seu PIB potencial nos próximos meses, e os juros norte-americanos devem subir novamente.

A grande ameaça no cenário internacional é a guerra comercial entre China e EUA, que traz consequências para todos os países. O mundo está entrando numa onda protecionista, o que impactará a economia global. Sob a alegação de que é necessário reduzir o déficit comercial dos EUA, o governo norte-americano passou a lançar mão de aumento de taxas sobre a importação de produtos chineses e também de outros mercados, como União Europeia, Canadá, México, Estados Unidos, Turquia e Brasil. Tal decisão levou a retaliações.

O momento atual é de trégua, mas a instabilidade já deixa marcas tanto na economia real quanto no mercado financeiro. A inserção do Brasil neste cenário é complicada, ainda mais quando se vê o currículo do diplomata Ernesto Henrique Fraga Araújo, escolhido para chefiar o Ministério das Relações Exteriores do Brasil no próximo governo.

Assim como Damares apregoou com veemência de realmente aos seus fiéis que realmente viu Jesus na goiabeira, Araújo tem ideias, no mínimo, estranhas. Ele confunde globalismo com globalização. “Quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertar da ideologia globalista. Globalismo é a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural. É um sistema anti-humano e anticristão”, escreveu em seu blog pessoal.

Dentro da guerra comercial, ao observar os discursos de Araújo, o Brasil vai escolher o lado do nacionalismo isolacionista. A pergunta é como ficará a importante relação sino-brasileira e quais as consequências para nossa economia.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor