Mercosul e Alca

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Aparentemente não deveria haver interesses contrariados se o Brasil aquiescesse em integrar-se à Alca em 2003, como deseja o governo norte-americano, e não em 2005 como está previsto.
Ambos, Mercosul e Alca, são tratados de integração econômica regional, e a primeira vista só haveria razões para os países do Mercosul virem a se beneficiar de uma política de livre comércio estendida em espaço hemisférico.
Mas, não somos apenas nós, brasileiros, que estamos vendo que, a adesão pura e simples ao projeto proposto pelo governo de Washington (Área de Livre Comércio das Américas, Alca), se implantado sem um ajuste de interesses com o Mercosul, que já tem mais de 10 anos de funcionamento com inegável sucesso, será prejudicial aos países deste tratado sul regional.
Esta conciliação de interesses exige tempo para se operar, por isto, a posição de diplomacia brasileira no sentido de que se mantenha o prazo de cinco anos, 2005, para ingressarmos na Alca.
Esta percepção de que a diplomacia norte-americana incorre em erro querendo antecipar a data pré-estabelecida para todos países americanos aderirem à Alca, encontramos nas pesquisas realizadas pelo Centro Internacional de Estudos Estratégicos, de Washington, presidido pelo internacionalista William Perry. O documento “Pensando Estrategicamente em 2005”, examina as implicações estratégicas para os Estados Unidos e para o Continente Americano resultantes da vigência do acordo de livre comércio hemisfério em 2005. Nem admite que estas implicações estratégicas possam vir a concretizar-se antes de cinco anos.
Por outro lado, o próprio governo Washington vem encontrando dificuldades em agilizar a sua política para o Continente, em virtude da negativa do Congresso em autorizar o Presidente da República de assumir compromissos prévios, o chamado “fast track”, o que retira a disponibilidade de certa autonomia nas negociações com seus vizinhos, como vem acontecendo no caso do chamado Plano Colômbia. Clinton não conseguiu o “fast track” apesar de todo o seu empenho e Bush já iniciou suas gestões junto ao Congresso pata obté-lo.
Segundo estudos realizados pelo Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, na conjuntura econômica em que vivemos, é imprescindível gerar superávits comerciais, sem o que a nossa economia não terá como se consolidar; para isto teremos que dispor, durante alguns anos, de certa margem de autonomia comercial, margem esta que perderíamos, na hora em que aceitarmos os compromissos tarifários resultantes de uma política de livre comércio continental. Precisaremos de tempo para ajustar a nossa economia e negociar em conjunto com nossos parceiros do Mercosul as condições favoráveis para a nossa inserção no âmbito mais amplo de uma associação hemisférica de livre comércio.

Carlos de Meira Mattos
General Reformado do Exército Conselheiro de ESG.

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