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Metanol: ‘Problema é falta de rastreabilidade’

Especialista diz que produto usado na adulteração não tem origem no setor legal de produção

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Dose de cachaça (foto de Marcello Casal Jr., ABr)
Dose de cachaça (foto de Marcello Casal Jr., ABr)

O recente aumento de casos de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas no Estado de São Paulo já resultou em duas mortes confirmadas e ao menos sete internações em menos de 25 dias.

A gravidade do cenário soma-se a um problema global: segundo estimativas internacionais, mais de 420 mil pessoas morrem todos os anos por intoxicações químicas, muitas delas ligadas a bebidas ilícitas.

Para Paula Eloize, especialista em Segurança de Alimentos, o número real é ainda mais alarmante.

O metanol é altamente tóxico. Entre 12h e 24h após o consumo, podem surgir dor de cabeça intensa, náusea, vômito, dor abdominal, confusão mental e visão turva repentina. Em concentrações mais altas, o resultado pode ser cegueira irreversível, falência de órgãos e morte.

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“O perigo é que a população não tem como identificar a diferença entre etanol e metanol em uma bebida. É uma roleta-russa química, em que cada gole pode custar a vida”, alerta Paula Eloize.

Entidades que acompanham o setor apontam que, somente em 2025, mais de 160 mil produtos falsificados foram apreendidos no país, além de insumos e equipamentos destinados à produção clandestina.

Investigações revelam ainda que lotes de metanol importados ilegalmente para fraudar combustíveis teriam migrado para destilarias clandestinas e falsificadores de bebidas, em operações ligadas a facções criminosas.

“Estamos falando de um produto químico altamente tóxico que circula no submundo do crime. Ele sai de esquemas de adulteração de combustíveis e acaba no copo da população. É segurança pública, não só saúde”, denuncia Paula.

A especialista explica ainda que o metanol usado em bebidas não tem origem no setor legal de produção.

“Estamos falando de sobras químicas e de combustíveis apreendidos em operações contra o crime organizado. Esse material volta clandestinamente ao mercado e acaba nas garrafas. Não é somente fraude comercial, é homicídio químico planejado”, revela.

A solução, segundo a especialista, está em adotar mecanismos robustos de rastreabilidade.

“Enquanto uma garrafa de bebida não tiver o mesmo controle de origem que um medicamento, vamos continuar vulneráveis. Não basta apreender cargas; é preciso rastrear cada lote, da fábrica ao consumidor”, defende.

Rio: dos 17 casos notificados até agora, 15 foram descartados

No Rio, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) descartou a presença de metanol nas amostras de exames laboratoriais de mais quatro pacientes que eram investigados. Dos 17 casos notificados até agora como suspeitos, 15 foram descartados.

Dos quatro casos excluídos, dois foram em São Pedro da Aldeia, um em Cabo Frio e outro em Niterói. Dos dois suspeitos que permanecem em investigação, um é de Cabo Frio, na Região dos Lagos, e o outro de São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

“A notícia é um alívio, mas continuamos atentos e vigilantes. Orientamos a população a ficar alerta. Caso apareçam sintomas suspeitos após a ingestão de bebidas alcoólicas, é fundamental procurar atendimento médico imediatamente”, orientou a secretária de Saúde, Claudia Mello.

No começo de outubro, o Estado do Rio registrou a primeira suspeita de intoxicação por metanol. Desde então, a Secretaria tem orientado a população sobre os cuidados necessários ao ingerir bebidas alcoólicas. A secretaria esclarece que o ideal é reduzir o consumo, principalmente das bebidas destiladas, até que haja o rastreio das adulterações.

As unidades de saúde estaduais estão orientadas sobre os sintomas compatíveis e o tratamento de possíveis contaminações por metanol. Os municípios estão orientados a enviar as amostras para detecção ao Laboratório Central de Saúde Pública Noel Nutels (Lacen-RJ), que fechou parceria para análise na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), referência nacional para a identificação de amostras com metanol.

No início do mês, a Secretaria de Saúde do Rio recebeu remessas de etanol farmacêutico e do antídoto fomepizol enviadas pelo Ministério da Saúde para o tratamento dos possíveis pacientes intoxicados. Os medicamentos foram enviados ao Hospital Estadual Anchieta, referência no estado para os casos de intoxicação por metanol.

Com informações da Agência Brasil

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