Microempreendedores x Covid-19

Por Silvana Bittencourt.

Opinião / 18:00 - 29 de jun de 2020

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Muitos brasileiros têm o desejo de começar a empreender, seja por falta de fonte de renda, ou para investir e multiplicar o valor que têm em mãos em virtude de uma rescisão de contrato de trabalho, saque de FGTS. E para formalizar essa situação surge no ano de 2008, através da Lei Complementar 128/2008, a MEI – Microempreendedor Individual.

Algumas atividades foram incluídas, outras não, mas no decorrer dos anos algumas foram incluídas e outras excluídas, podendo ter seu faturamento anual no valor de R$ 81 mil, podendo ser aberta através do site portaldoempreendedor.gov.br, pela própria pessoa.

É nesse momento que eu, como contadora e especialista em Educação Financeira, começo a me preocupar. Muitas pessoas, por não terem a orientação necessária e não serem da área, não sabem que um CNPJ é uma pessoa jurídica e que tudo que se movimenta deve ser devidamente separado do seu CPF e acabam misturando tudo, CPF X CNPJ, dificultando assim a realidade financeira da empresa, pois, agindo dessa forma, o microempreendedor não consegue saber se tem lucros ou prejuízos. Infelizmente temos muitos empresários e microempreendedores nessa situação por não buscarem orientações de profissionais. Existem meios, técnicas para ajudar os microempreendedores a se organizarem e até mesmo para saber se o negócio está sendo viável ou não.

Estamos vivendo uma pandemia em virtude do novo coronavírus, que afetou diretamente os microempresários com a paralisação do comércio, em que muitos deles tiveram que fazer suas contas. Por incrível que pareça, muitos microempreendedores me relataram que nunca haviam parado para fazer contas, nem sabiam que seu negócio estava dando prejuízo ou se estava dando o lucro que se esperava ou achavam que estava tendo, abriram o CNPJ e começaram a comprar e vender, abriram uma conta jurídica no banco, entrava e saía dinheiro, simplesmente isso.

Com a chegada da Covid-19, se depararam com a triste realidade, sem fluxo de caixa, sem reserva para emergência, não estão conseguindo se manter, muitos que estão tentando se manter estão se endividando tentando algumas linhas de créditos e nem sabem se terão condições de pagar.

Muito se fala em se reinventar. Analisando esse cenário onde muitas pessoas estão se reinventando, tem dado muito certo para algumas pessoas, mas oriento para tomar muito cuidado nas tomadas de decisões para não empreender errado, pois no meio de tantas dificuldades financeiras não podemos errar, vivemos momento de criatividade, novas atitudes, descoberta de novas fontes de renda, mas temos que manter nossos pés no chão.

Os microempreendedores devem fazer um levantamento com cautela na área que deseja empreender, podendo ter ajuda, consultando o Sebrae, assistindo vídeos sobre o assunto, buscar ajuda de profissionais, conversar com pessoas que já empreendem no ramo que você deseja, pois eles já percorreram o caminho que você está querendo começar a percorrer. Portanto, tem muito a ensinar, precisamos mudar a nossa mente onde enxergamos eles como nosso concorrente.

Agora é hora de agir como empresários que somos. Estamos vivendo momentos para parceria. Vou deixar um exemplo que deu muito certo. Acompanhei alguns microempreendedores que fizeram parceria, uma trabalha com doces, outra com bolo, outro com flores, outro com roupas, outro com salgadinhos, setores que foram abalados grandemente, diretamente nesse momento de pandemia. Qual foi a ideia? Começaram a fazer pequenos kits de festa prontos. Embora estejamos na pandemia, todos nós gostamos de ganhar flores, comer bolo, comemorar o nosso dia em família. Mais do que rápido, se uniram nessa parceria e começaram a vender esses kits em uma caixa maravilhosa. As pessoas ficam encantadas quando recebem em casa sua festa totalmente pronta com deliciosos docinhos, bolos, salgados e claro não pode faltar o mimo das flores e presentes, estão faturando muito e já tem planejamentos para o futuro. Analise se sua atividade pode ser agregada com a atividade de outra pessoa e fazer uma parceria de sucesso.

Esse momento tem exigido muito de nós empresários, precisamos em meio a tantas dores e turbulências manter a calma, cuidar da saúde física e emocional, motivo pelo qual não podemos ficar sozinhos, precisamos de ajuda, companheirismo, precisa ser tocado no assunto, estudar o assunto, já não podemos mais agir como agíamos antes. De qualquer maneira, hoje aprendemos que para empreender precisa ter foco, disciplina, organização, parceria, companheirismo, conversar com pessoas que irão nos impulsionar para frente, para o sucesso.

Na parte financeira, separe todas suas contas de pessoa física e contas de seu empreendimento. Da mesma forma faça com as entradas de dinheiro, o empreendedor deverá se pagar, ou seja, separe um valor mensal para pagar suas despesas pessoais, deixando no caixa da empresa o valor para quitar as contas e montar seu fluxo de caixa e sua reserva de emergência. Nunca use totalmente o valor que entra na caixa. Se isso estiver acontecendo, precisa urgentemente rever seus gastos fixos e variáveis, cortando algumas despesas e reduzindo outras.

Aqueles que são microempreendedores individuais, muito cuidado na movimentação financeira com relação às vendas, inclusive com cartão de crédito. Muitos estão excedendo o limite anual em vendas no cartão e continuam na condição de microempreendedor individual. É preciso declarar corretamente os valores; excedendo o limite, quando haverá o desenquadramento como MEI, tornando-se optante pelo Simples Nacional, lembrando que o prazo final para entrega da declaração de MEI acontece todo último dia útil do mês de maio do ano seguinte.

Esse ano, tivemos a prorrogação do prazo de entrega em virtude da Covid-19, para esta terça-feira, 30/6/2020. Quem ainda não fez a declaração, dá tempo. Outra observação importante é sobre a forma que o microempreendedor irá declarar a renda na pessoa física, é necessário calcular o lucro para ver se está isento ou não de declarar.

Muitos acham que pagando o Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS) já estão contribuindo para sua aposentadoria. Precisamos lembrar que no DAS estamos recolhendo apenas 5% do valor do salário mínimo para aposentadoria, e que não irá contar para tempo de recolhimento, para poder contar se faz necessário o recolhimento de complemento em uma guia a parte com o nome de GPS, código 1910, que corresponderá a 15% do plano normal.

Outro grande erro que cometem é abrirem a MEI e se esquecerem de fazer a conta do faturamento proporcional, ou seja, se o valor anual de faturamento é de R$ 81 mil, podemos faturar por mês R$ 6.750,00; então, se eu abrir a MEI em julho por exemplo, meu faturamento anual não poderá passar de R$ 40.500,00, fiquem atentos.

Devemos lembrar sempre que temos uma pessoa jurídica e que precisamos cuidar dela com toda organização, diariamente, buscando sempre ajuda, nunca fique sozinho.

Silvana Bittencourt

Contabilista, educadora financeira e coautora do livro A Roda do Dinheiro.

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