Minha Biblioteca: modelo de negócio, mercado e perspectivas

Nesta entrevista, Giselle Guimarães explica o modelo de negócio da empresa, formada por editoras, focada em bibliotecas digitais acadêmicas.

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Giselle Guimarães (foto de Aivan Moura, divulgação Minha Biblioteca)
Giselle Guimarães (foto de Aivan Moura, divulgação Minha Biblioteca)

Conversamos sobre a Minha Biblioteca com Giselle Guimarães, CEO da plataforma de e-books acadêmicos.

Como surgiu o conceito da Minha Biblioteca?

Imagine que as editoras viram que, por mais que seus livros fossem lidos, eles eram “xerocados”. Um professor virava para os alunos e lhes pedia para “xerocar” da página 20 a 40 de um determinado livro que seria utilizado. O aluno também tinha a opção de ir à biblioteca para pegar um livro, que, com um pouco de sorte, seria a edição atualizada, mas o mais provável seria pegar uma edição antiga, ou ficar na fila de espera para ter acesso ao livro, com a chance de não consegui-lo. No final, o aluno ia pedir o livro de um amigo para “xerocá-lo”. Isso fazia com que os direitos autorais não fossem pagos, e, quando isso acontece, as editoras deixam de vender livros.

Dessa forma, as editoras se depararam com o desafio de participar de um mercado em que elas não estavam recebendo pelos seus livros e de democratizar o acesso a eles, facilitando o acesso do leitor ao livro que antes era “xerocado” ou que possui difícil acesso numa biblioteca física. Isso porque a realidade do aluno brasileiro faz com que ele não compre 100% dos livros que precisa, pois isso é uma fortuna. Por exemplo, um livro de medicina custa R$ 1 mil, um livro de direito uma fortuna um pouco menor, e um livro qualquer de microeconomia, R$ 300.

Foi por isso que algumas editoras, por mais que concorram entre si, decidiram entrar num consórcio para formar a Minha Biblioteca. Conforme esse mercado foi se desenvolvendo e o produto testado, a própria Minha Biblioteca passou a convidar outras editoras.

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Toda universidade precisa ter uma biblioteca com livros de leitura básica e complementar. Como no plano de ensino de uma universidade é necessário constar todos os livros que serão utilizados em cada um dos seus cursos, ela tem que provar para o MEC que aqueles livros existem dentro da sua biblioteca. Uma biblioteca desse tipo custa milhões de reais, mas uma biblioteca digital custa milhares de reais. Essa é a diferença.

Em 2018, quando o MEC disse que tanto o livro digital quanto o livro físico eram válidos para a leitura básica e complementar, o jogo mudou. Isso fez com que, cada vez mais, se fosse adotando o livro digital. Isso porque ele é sempre novo. Por exemplo, na Minha Biblioteca você não vai pegar uma edição desatualizada de um livro de direito constitucional, pois ela sempre vai ter a última edição. O livro foi publicado, ele entra na MInha Biblioteca.

A Minha Biblioteca resolveu um problema enorme, tanto das editoras, com relação aos direitos autorais, quanto das universidades, que deixaram de investir milhões em livros físicos para ter os digitais. Aqui, vamos lembrar que os donos dos livros digitais também são os donos dos livros físicos, ou seja, eles ganham de um lado ou de outro, mas eles não deixam de receber como acontecia antes.

Se a Minha Biblioteca foi fundada em 2011, antes de o MEC aceitar livros digitais em bibliotecas, ela começou como uma aposta, digamos assim, de risco, correto?

Foi. A empresa foi fundada com a cabeça de que o livro não estava chegando nos alunos. Em 2015, com o começo do crescimento do EAD, passou a fazer cada vez menos sentido um aluno de um curso à distância ter que ir à faculdade para pegar um livro para estudar. Nesse caso, nada melhor que o livro digital. Se pensarmos que em 2015 nós tínhamos um mercado pequeno de EAD, e que hoje 74% dos alunos brasileiros estão no ensino a distância, veja como o cenário mudou em menos de 10 anos. Isso porque nós nem falamos de uma pandemia no meio do caminho.

O mercado da Minha Biblioteca se refere apenas às instituições de ensino superior ou uma pessoa física pode contratá-la?

Pode. Por exemplo, se a pessoa faz direito ou tem um escritório de advocacia e continua precisando dos livros que usava na faculdade ou de livros específicos, ela pode entrar no site e escolher os livros que quiser do catálogo, como direito, ciências sociais ou medicina. A contratação é como se fosse a Netflix.

Como funciona a negociação com as editoras para que os títulos sejam colocados na Minha Biblioteca?

As editoras recebem uma parte do resultado. Vamos imaginar que uma universidade pague R$ 10 mil por mês para ter acesso ao acervo da Minha Biblioteca que será utilizado por “x” alunos. Nós analisamos quanto foi lido de cada um dos livros e pagamos por page view. Assim, cada uma das editoras vai receber pelo que foi lido, pelo número de páginas dos seus livros que foram acessadas. Nós pegamos os R$ 10 mil, dividimos pelo número de páginas lidas e entregamos para cada uma das editoras associadas o valor referente ao que foi lido dos seus livros.

Esse cálculo não é sobre o número de livros, mas sobre o que foi consumido. Se uma editora tiver um livro que não foi lido, ela não vai receber nada por ele. Uma parte desse valor fica com a Minha Biblioteca, e a maior parte, com a editora.

Com isso, as editoras conseguem avaliar o que está sendo lido e o que não está, correto?

Essa é a grande beleza do digital: saber o que está sendo consumido. Isso porque uma editora pode vender um livro físico, mas ela não tem como saber se ele foi lido. Através da Minha Biblioteca, nós sabemos o que foi lido e que tipo de conteúdo está sendo consumido. Eu posso te dizer que dentro de um acervo de 15 mil livros, os mais lidos são, de muito longe, os de medicina, sendo que a área mais lida é fisiologia. Em direito, uma das áreas mais lidas é o direito constitucional esquematizado.

Mas as próprias instituições de ensino pedem feedback para saber se os livros que elas estão utilizando são os mais lidos?

Como elas têm acesso a tudo o que consomem, elas sabem quais são os livros que usam que têm mais leitura, mas elas não sabem o que as outras universidades estão usando. E isso não é porque não queremos compartilhar, pois a informação em massa, sem especificidades, não é um segredo. Na minha visão, o futuro gira a favor do que as instituições de ensino poderiam utilizar para apoiar seus alunos, mas nós ainda estamos numa discussão anterior a essa: como incentivar o aluno a ler.

O que aconteceu com as bibliotecas físicas das instituições de ensino superior depois da Minha Biblioteca?

Muitas universidades mudaram suas estruturas em termos de biblioteca. Universidades que têm como foco enorme o ensino à distância, têm bibliotecas físicas mínimas ou deixaram de tê-las. Universidades como a USP, FGV e Mackenzie têm as duas, e muito bem atualizadas, com o físico para quem quer o físico e o digital para quem quer o digital.

Quando a Minha Biblioteca foi criada, ela gerou algum tipo de resistência no mercado?

Pelo lado das universidades, não foi nem resistência, mas foi entender se esse modelo funcionava ou não, mas quando o MEC, que foi o grande impulsionador, disse que o livro digital poderia ser utilizado, e as universidades entenderam que poderiam economizar muito dinheiro com eles, e essa é uma conversa na área educacional, principalmente no ensino superior, presente todos os dias, tudo mudou.

Passando para as editoras, o desafio é outro. No momento em que a Minha Biblioteca vende, o livro físico deixa de ser vendido. O problema é que se o preço não estiver suficientemente equilibrado, nós tiramos lucratividade das editoras no livro físico e não compensamos com o digital. Isso porque, não é novidade para ninguém, o mercado editorial está em crise há muitos anos, tanto que algumas editoras saíram do Brasil ou deixaram o negócio.

Se nós não tivermos cuidado com a precificação do que vendemos, nós prejudicamos a venda do livro físico e o resultado das editoras, mais do que eles já estão sendo prejudicados ao longo dos últimos anos. A manutenção da sustentabilidade das editoras é uma reflexão superimportante.

Como você tem visto as perspectivas da leitura no Brasil?

Às vezes, nós precisamos de um empurrão muito grande para mudar o status quo. A pandemia fez com que a área de educação visse que existem outras formas de se ensinar, tanto que hoje quase não existe ensino 100% presencial, já que as aulas são híbridas.

A pandemia foi um grande empurrão, mas agora falta as pessoas realmente fazerem uso do que foi entregue para elas. A forma como aprendíamos em 2019 é significantemente diferente da forma como aprendemos hoje. E isso porque foram só quatro anos. O próximo grande empurrão pode estar relacionado à inteligência artificial.

Temos muito a evoluir na área de educação, leitura e absorção de conhecimento, mas eu sinto que o grande problema a ser resolvido é a passividade de não termos um leitor de fato. Se uma pessoa não está lendo, ela não está aprendendo. Como nós podemos apoiar as universidades e os leitores a realmente fazerem uso do que eles estão tendo acesso? A partir da pandemia, nós abrimos acesso a tudo, mas como esses acessos podem ser utilizados? O mundo está bastante digitalizado, mas até que ponto e para quem? Essas são questões a serem refletidas.

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