Mínima histórica de juros, e agora?

Com taxas reais baixíssimas, investidores se voltam para novas modalidades, como ‘equity crowdfunding’.

Após 16 cortes, hoje a taxa básica de juros está na mínima histórica, 4,5% ao ano. Mas o que isso implica para a economia brasileira? Para o investidor, significa a necessidade de correr mais riscos para que seus rendimentos superem a inflação; para as empresas, os custos de captarem recursos se tornam menores e há ainda o estímulo ao maior consumo via crédito.

Por longos e longos anos, o Brasil conviveu com taxas de juros de dois dígitos, o que criou uma distorção nos investimentos e deixou os brasileiros mal-acostumados: era possível obter segurança, rentabilidade e liquidez ao mesmo tempo. E, para isso, não precisava muito conhecimento, bastava colocar o dinheiro em um fundo DI e até mesmo a própria poupança rendia juros reais positivas.

O momento atual, entretanto, é totalmente diferente. Basta ver que a inflação acumulada nos últimos 12 meses até novembro é de 3,27%, bem próxima da Selic de 4,5%. E, se pegarmos a mediana das projeções dos analistas e economistas ouvidos pela pesquisa Focus do Bacen, vemos a tendência de alta dos preços. A projeção se encontra em 3,86% (dado de 06 de dezembro). Há quatro levantamentos a mediana era de 3,31%. Ou seja, se os economistas ouvidos pelo Bacen estiverem certos, qualquer investimento que renda a própria Selic resultará em um ganho real de 0,62% ao ano.

Este cenário por si só é um motivador para que o brasileiro passe a se aventurar em investimentos de maior risco. Não é à toa que o número de CPF na bolsa subiu tanto nos últimos meses e a tendência é de que o movimento continue. Dados da B3 apontam que o número de CPFs cadastrados na bolsa dobrou em um ano, chegando a 1,6 milhão em novembro. Ao final de 2018, eram 813 mil pessoas. “A queda da Selic provocou uma transformação muito grande no modo de investir do brasileiro e a bolsa ainda tem bastante espaço para crescer. O mercado aposta que o Ibovespa vai estar entre 125.000 e 150.000 pontos em 2020, uma alta de até 38% no índice em relação ao atual patamar”, diz Luiz Guilherme Dias, CEO da Sabe Invest.

Apesar das turbulências apresentadas em 2019 pelo mercado, o Ibovespa acumulou alta de 26,28% este ano até novembro, resultado bem superior ao apresentado pelo principal benchmark da renda fixa, o CDI (5,56%) e pelo IMA-Geral (11,82%), carteira teórica da Anbima composta pelos títulos públicos mais negociados. O Ibovespa superou a renda fixa também no médio e longo prazos, acumulando valorização de 49,57% nos últimos dois anos e de 122,2% nos últimos cinco.

Para as empresas, o fluxo de pessoas físicas se voltando para o mercado de ações e em busca de diversificação, significa a abertura de novas fontes de financiamento e mais facilidade de captação. Apesar disso, um fenômeno tem chamado a atenção: a exportação dos IPOs nos últimos dois anos. Mais de um terço das aberturas de capital das empresas brasileiras ocorreram em Nova York, e a burocracia da B3 é um dos motivos apontados.

Mas outras portas do mercado de capitais brasileiro têm se aberto para as empresas que precisam de recursos para crescerem. Chama a atenção o mercado de equity crowdfunding. Regulamentado em 2017, pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) o total captado nas ofertas de crowdfunding saltou de R$ 8.342.924 em 2016 para R$ 46.006.340 em 2018, e dados extraoficiais demonstram que a tendência ainda é de novos recordes.

Esta modalidade possibilita que empresas com receita anual de até R$ 10 milhões realizem ofertas por meio de financiamento coletivo na internet com dispensa automática de registro de oferta e de emissor, sendo observado o limite de captação de até R$ 5 milhões a cada período de 12 meses. Para os investidores, é uma forma de adquirir uma pequena participação em empresas que podem virar unicórnios no futuro. Como regra geral, eles podem aplicar, nesse tipo de oferta, no máximo R$ 10 mil por ano-calendário.

Mantida a nova realidade, de juros civilizados, o mercado tende a entrar em um ciclo de prosperidade, mas para isso é preciso que haja um amadurecimento dos investidores e maior flexibilidade dos agentes de mercado que precisam ouvir os pleitos das empresas em vez de permitirem a exportação das operações.

Ana Borges
Colunista.

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