Miopia geopolítica

Significado ameaçador dos investidores internacionais quando reclamam da política ambiental.

Empresa Cidadã / 19:57 - 4 de ago de 2020

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O Banco Central divulgou os números mais recentes da execução do Balanço de Pagamentos brasileiro. Eis alguns destaques: o saldo de transações correntes, superavitário, situou-se em US$ 2,2 bilhões enquanto, no mesmo período de 2019, deficitário, situou-se em US$ 2,7 bilhões. A mudança de posição deveu-se principalmente à redução no déficit em serviços e no simultâneo aumento no superávit comercial.

Até junho de 2020 (primeiro semestre consolidado), o déficit de Transações Correntes acumulou US$ 9,7 bilhões. No mesmo período de 2019, o déficit acumulado foi de US$ 21bilhões. Nos 12 meses encerrados em junho de 2020, o déficit de Transações Correntes acumulou US$ 38,2 bilhões, ante os US$ 43,1 bilhões, contados até maio de 2020.

Em junho de 2020, as exportações brasileiras de bens realizaram US$ 18 bilhões, cifra 2,3% menor do que no mesmo período do ano anterior. As importações comparadas de bens, nos mesmos períodos, mostram uma queda de 19,1%, para US$ 11,1 bilhões.

Os primeiros semestres destes dois anos comparados exibem redução das exportações de 6,8%, para o patamar de US$ 102,2 bilhões, enquanto as importações apresentaram queda de 5%, alcançando US$ 82,9 bilhões.

O superávit da balança comercial de bens, no primeiro semestre de 2020, atingiu US$ 19,3 bilhões, 13,8% menor do que no ano anterior, quando chegou a US$ 22,4 bilhões. O resultado é compatível com a trajetória histórica do Balanço de Pagamentos do Brasil, de constatação de superávits comerciais, corrigidos por déficits de serviços.

Um olhar sobre os dez bens de valores preponderantes na Balança Comercial revela a importância da soja, seguida do petróleo, minério de ferro, celulose, milho, carne bovina, carne de frango, produtos manufaturados, farelo de soja e café.

Com base no ano de 2019, quando o Brasil exportou o total US$ 225,4 bilhões, considerando o valor FOB das exportações brasileiras, os dez maiores parceiros comerciais, são: China (US$ 63,4 bilhões, 2,13 vezes o segundo colocado); USA (US$ 29,7 bilhões); Países Baixos (US$ 10,1 bilhões); Argentina (US$ 9,8 bilhões); Japão (US$ 5,4 bilhões); Chile (US$ 5,2 bilhões); México (US$ 4,9 bilhões); Alemanha (US$ 4,7 bilhões); Espanha (US$ 4 bilhões); e Coreia do Sul (US$ 3,4 bilhões).

O déficit de Transações Correntes, normal (em períodos da “velha normalidade”), é financiado pelo ingresso de Investimentos Externos no País (IEP). Daí, o significado ameaçador dos investidores internacionais quando reclamam da política ambiental destrutiva praticada na Amazônia e em outros biomas do país e falam em desidratar os IEP (coluna Empresa-Cidadã de 15 de julho de 2020: “E daí? É só um desmatamentozinho. Talquei?”). Sem estes recursos, o Balanço de Pagamentos não fecha, podendo suceder uma perigosa crise cambial.

A última do ministro Salles é propor a mudança da meta oficial de preservação ambiental da Amazônia, desconsiderando o compromisso de diminuir o desmatamento e os incêndios florestais em 90%, previsto no PPA, até 2013.

 

Posto Ipiranga também toca a boiada

O ministro da Economia, Paulo Guedes, está propondo a criação de um comitê para o exame do licenciamento ambiental de projetos para produção de minerais estratégicos no país. Até aí, tudo bem. Só que na composição do colegiado de licenciamento ambiental não consta o Ministério do Meio Ambiente, conforme publicação do Diário Oficial da União, de 4 de agosto.

Das duas, uma. Ou o Posto Ipiranga vai pessoalmente abrir a sua porteira, ou o ministro do Meio Ambiente, incapaz de ajudar, que assim não atrapalhe...

 

A Hungria de Puskas

A Hungria, apesar de figurar na “rabagésima” posição, na relação de comércio externo com o Brasil (com todo o respeito, de importações de US$ 47,7 milhões de produtos brasileiros, em 2002, dado mais recente disponível), em 2019, mereceu seis visitas de alto escalão, inclusive do ministro das Relações Exteriores brasileiro, Ernesto Araújo, em Budapeste. Para quê? Orbán, que se utiliza de decretos para governar, foi uma das raras lideranças presentes na posse do presidente do Brasil.

A Hungria de Puskas, o antigo craque de futebol, é só uma lembrança. Hoje, Orbán constrange a UE, com um regime totalitário.

 

Senador John Lewis

Em 2016, fui apresentado ao senador John Robert Lewis (Troy, 21 de fevereiro de 1940 – Atlanta, 17 de julho 2020), em Selma (AL), nas comemorações dos 51 anos da travessia da ponte Edmund Pettus onde, em 1965, ocorreu o episódio que ficou conhecido como “Bloody Sunday” (Domingo Sangrento). Impressionou-me nele a convicção no exercício das práticas da filosofia da não violência, aprendida na juventude, na Igreja Metodista Unida Memorial Clark.

No dia 7 de março de 1965, a polícia de George Wallace, governador do Alabama, assumidamente racista, espancou as lideranças negras do Movimento pelos Direitos Civis, na tentativa de impedir a realização da Marcha entre Selma e Montgomery. Na ocasião, John Lewis foi ferido pela polícia, com uma perfuração no crânio. Apesar da gravidade do ferimento, recuperou-se para exercitar a filosofia da não violência, aprendida na Igreja Metodista Unida Memorial Clark e se tornar um dos Seis Grandes, (“Big Six” em inglês, designação atribuída por Malcon X, com sentido depreciativo). Os Seis Grandes foram Martin Luther King, Jr; James Farmer, Philip Randolph, Roy Wilkins; Whitney Young; e o próprio John Lewis.

Jonh Lewis exercia o mandato de senador eleito pelo 5º Distrito da Georgia desde 1987.

 

Paulo Márcio de Mello é servidor público aposentado (professor da Universidade do Estado do RJ – Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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