Momento trágico: crise cambial no horizonte

Por Ranulfo Vidigal.

O rompimento das cadeias de valor em escala planetária, o colapso espetacular da demanda agregada e o estouro (parcial) da bolha financeira jogaram a economia mundial, provavelmente, na maior crise da história do capitalismo. A expectativa dos timoneiros da ordem e do mainstream econômico, de uma rápida recuperação do crescimento em 2020 foi, definitivamente, sepultada, e a possibilidade de uma relativa normalização da situação em 2021 é, ainda, bastante remota.

A reorganização do circuito de valorização não será automática. A crise econômica agrava a contradição entre o horizonte global da valorização da riqueza e o caráter nacional das formações sociais, exigindo mudanças de grande envergadura no sistema capitalista mundial e na ordem econômica mundial.

No Brasil, as consequências destrutivas da crise global serão potencializadas pela absoluta falta de uma estratégia consistente para enfrentar a epidemia, o colapso da demanda agregada e a desorganização caótica do sistema produtivo.

Sem mudanças profundas na inserção do país na divisão internacional do trabalho, é uma ilusão imaginar que a economia brasileira possa crescer no meio da depressão global. A situação atual é muito crítica. Empresas endividadas, risco de crise de crédito, espectro de crise cambial, colapso da demanda agregada, incertezas radicais em relação ao futuro, vínculos trabalhistas precários e uma política econômica desastrada levarão as empresas a precipitar as demissões.

Para piorar, a subordinação das finanças públicas à lógica do “rentismo” liquida toda e qualquer possibilidade de o Governo Federal realizar gastos públicos, compatíveis com o desafio posto pela epidemia, mediante políticas fiscais anticíclicas.

A fuga para a segurança dos capitais provocada pela crise econômica mundial colocou o espectro da crise cambial no horizonte. A vulnerabilidade externa reflete tanto a presença de desequilíbrios estruturais do balanço de pagamentos quanto o acúmulo de um monumental passivo externo. O real é uma moeda de segunda linha na hierarquia internacional, e isso representa um empobrecimento relativo de todos nós agora.

O impacto da crise será amplificado pelo darwinismo sanitário, que não acelerará o ciclo de imunização contra o vírus letal, ao contrário, fará a crise sanitária se arrastar por mais tempo às custas de um monumental número de vidas. A absoluta ausência de políticas públicas seria hoje, o principal obstáculo a uma política minimamente organizada para o enfrentamento da pandemia e da depressão que assolam o Brasil.

Essa situação concreta exige ações coletivas, planejadas e coordenadas, cooperação e solidariedade. A solução atomizada de cada um por si não resolverá nada!

Ranulfo Vidigal

Economista.

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