Moratória global

Por Ranulfo Vidigal.

Opinião / 18:37 - 23 de mar de 2020

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Para cada época de novas crises temos velhas explicações na sociedade do espetáculo. O detonador do tempo presente é a pandemia da Covid-19, que coloca em cheque todo sistema de saúde, tanto de país ricos, quanto de países da periferia do capitalismo. A economia pára e segue-se, como sempre, uma crise de crédito, pois liquidez é o ativo mais valioso nesta circunstância. Ninguém paga ninguém e o desemprego tende a explodir.

Fazendo uma pequena comparação, assim foi em 2011 com o ataque às Torres Gêmeas. Naquela circunstância dramática, o presidente de plantão enviou cheques para as famílias gastarem rapidamente, pois a roda gigante da economia parou com motor quebrado causando irreparáveis prejuízos financeiros para os grandes monopólios globais.

 

Principal risco para a economia é a

suspensão dos fluxos de pagamento

 

Contágio foi um filme de Steven Soderbergh. A película segue o rápido progresso de um vírus letal, transmissível pelo ar, que mata em poucos dias. Mostrou o pânico geral de uma situação-limite, embora perfeitamente superável mediante medidas de forte impacto social.

Manchetes do diário da crise instalada na terra da jabuticaba: “IBGE adia Censo para 2021” (menos vagas de empregos); “Governo estuda voucher e tarifa social” (boa medida, pois faz o dinheiro chegar em quem realmente precisa); “Ajuda precisa chegar aos trabalhadores informais” (pura verdade); “Construtoras se preparam para ambiente onde família de renda média vai sofrer com a crise”; “Estado poder ter reforço nas finanças para enfrentar a crise” (Governador do Rio fala em atrasar salários dos servidores); “Projeção de PIB zero para 2020” (realista); “França deve estatizar empresas em dificuldades” (mata de raiva os liberais de plantão); “Países ricos abrem os cofres e gastam trilhões para aplacar a crise” (de dar inveja a qualquer brasileiro comum, sem dinheiro para pagar plano de saúde).

Apesar disso tudo, os boys do Banco Central ainda estão em dúvida se salvam seus patrões banqueiros ou baixam a taxa de juros para aliviar o orçamento público e a vida de nós pobres mortais.

Países ricos precisam transferir dinheiro para indivíduos e empresas, diz economista criador da grife Brics”; “O protesto da panela vazia em tempos de calamidade”; “Comércio em retração acentua cenário de recessão profunda no primeiro semestre”; “Acordo vai salvar BPC maior para os pobres” (amém); “Não há como salvar crescimento econômico em 2020”; “Montadoras de veículos começam a parar”; “Preço baixo do petróleo pressiona Petrobras”.

Isso confirma o principal risco para a economia da suspensão dos fluxos de pagamento entre agentes econômicos, pela redução do consumo, comércio e possibilidades de ocupação produtiva.

A crise internacional cessa os lucros e ganhos das diversas frações da burguesia. No Brasil surge um racha na malta dona do poder e do dinheiro, de implicações políticas quase irreconciliáveis. Rodrigo Maia, o quadro político mais preparado da direita liberal brasileira, já definiu e escolheu seu lado, bem como a principal emissora de comunicação do país. Já a esquerda liberal, ingenuamente, espera a próxima eleição e briga para se manter no páreo.

Alheio a tudo isso, o cidadão comum, diante do risco de colapso no emprego e na renda, perde a paciência e bate panela toda noite, pois a pesquisa Atlas revela que 64% dos brasileiros desaprova o governo em seus primeiros atos diante da pandemia.

Ranulfo Vidigal

Economista.

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