Moro se posiciona como um populista que busca o duelo do faroeste

Por Hélio Mauro Di Ferreira Andrade.

Opinião / 16:14 - 30 de jul de 2020

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A segunda amanheceu mais triste, acordei com a notícia que o compositor italiano Ennio Morricone faleceu aos 91 anos e, lembrando de algumas das trilhas que este gênio compôs, lembrei de uma trilha inesquecível composta para o filme The Good, the Bad and the Ugly (no Brasil o filme recebeu o nome de Três Homens em Conflito). Lembrei-me na mesma hora de uma entrevista que eu assisti ontem.

Não bastasse o período da pandemia, onde estamos passando por situações estranhas e incômodas, o noticiário político, como não poderia deixar de ser, nos proporciona uma série de eventos que causam estranheza.

Num destes eventos, o ex-ministro da Justiça Sergio Moro concedeu uma entrevista à GloboNews. Entre risadas e deixando transparecer um clima informal com o entrevistador, o ex-juiz deixou claro o “duelo” que ele, enquanto juiz, travou com o ex-presidente Lula.

Enquanto juiz, o ex-ministro deveria ter o cuidado de resguardar a sua atividade e a função que exerceu. Não se nega a importância da Operação Lava Jato e sua quebra de paradigma em condenação de grandes figurões da política e do mundo empresarial brasileiro. Não deixo de observar a imensa quantidade de declarações de juristas brasileiros e juristas estrangeiros condenando em parte o modus operandi da operação e até mesmo da forma como o juiz se relacionava com seus pares do Parquet.

O ex-juiz não escondia a felicidade em relembrar o duelo travado entre ele, enquanto juiz, e Lula. Pasmem, foram até o ringue.

Quando refleti acerca da postura de Sergio Moro me veio o tema daquele famoso faroeste, ao qual Morricone compôs o tema principal. A história se passa num deserto longínquo do meio-oeste americano, onde o bom, Clint Eastwood, o mau, o mercenário psicopata estrelado por Lee Van Cleef, e o feio, que foi dado vida pelo incrível Eli Wallach.

O ex-ministro por vezes se comporta como um desses três personagens da trama, mas sempre envolto de uma missão quase messiânica. Narra seus duelos com o ex-presidente Lula na TV, se colocando como um verdadeiro personagem deste faroeste, duelando ao estilo “impasse mexicano”.

Que pena que o ex-ministro se posicione desta forma quanto à sua atuação judicial, deixa de honrar sua atividade de outrora e se posiciona como um populista que busca o duelo do faroeste, esperando pela reação da sua plateia, ávida pela má sorte de quem ela julga ser o outro lado desta batalha entre bem e mal.

Não me parece que o ex-juiz responsável pela Operação Lava Jato em Curitiba escolha bem suas palavras quando quer mencionar o ex-presidente, ou quando relembra da sua atividade jurisdicional como um todo. As escolhas das palavras, bem como suas convicções pessoais e íntimas, transparecem sentimentos que fogem à imparcialidade necessária à atividade de um juiz.

A Sócrates é atribuída a construção do pensamento ético, de inestimável contribuição para a construção do mundo ocidental, a ética é pressuposto do exercício das atividades estatais, seja de qual Poder estivermos nos referindo, não refugindo a eticidade a um sentimento difuso, mas como objetivo e premissa concreta.

A Sócrates também é atribuída a famosa frase “Três coisas devem ser feitas por um juiz: ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente”. O ex-juiz, ao meu ver, não teve o cuidado de se albergar de nenhuma dessas premissas quando da sua entrevista.

Ao que parece, entrevistado e entrevistador fingem normalidade quando da fala do ex-juiz. Não deveria o ser. Um juiz parcial fere não só a premissa de imparcialidade, requisito último da atividade. Fere uma instituição, um Poder constituído, base de uma Carta de Direitos conquistada a duros golpes pelas gerações passadas que sonharam com o as garantias postas na Constituição de 1988.

Talvez seja um novo normal, talvez seja mais uma jogada política do ex-juiz, o duelo estabelecido pelo ex-juiz contra o presidente Lula reflete as ambições de Sergio Moro.

Hélio Mauro Di Ferreira Andrade

Advogado.

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