É impossível para um cidadão normal, razoavelmente informado, quedar-se inerte diante dos absurdos sem explicação, perpetrados em especial por autoridades que deveriam cumprir com seus respectivos deveres e zelar pelo povo jurisdicionado por eles.
No âmbito municipal, recente relatório do ministério da Saúde (IDSUS – Índice de Desempenho do Sistema Único de Saúde) aponta uma nota 4,33 para a cidade do Rio de Janeiro, classificada como a pior dentre as maiores cidades do país.
O alcaide, indignado pelo “fogo amigo”, reage violentamente contra o ministro Alexandre Padilha, acusando-o: “O que me causa indignação é que o ministro, desde sua primeira coletiva, e eu não me sinto confortado, já fica explicando que, se fosse levado em consideração 2011, o Rio estaria acima da média nacional”.
O alcaide ainda afirmou que aplica R$ 4 bilhões e 25% do orçamento em saúde, quando na realidade utilizou apenas R$ 1 bilhão e 875 milhões e 19,69%, respectivamente, segundo o Diário Oficial do Município.
É evidente que o período de tempo objeto da avaliação não abrangia ainda o ano de 2011, o qual deverá aparecer na próxima pesquisa. Porém, o prefeito somente aceita a divulgação de notícias positivas, mal acostumado que está com a manipulação feita a seu favor pela mídia amestrada.
Ora, melhor do que ninguém o próprio usuário, futuro eleitor em outubro, saberá expressar se está satisfeito ou não com o atual atendimento médico propiciado pela administração municipal. Particularmente, pensamos que não, devido aos exemplos flagrantes de incompetência e irresponsabilidade, em especial na área de saúde, com a progressiva “privatização” do setor, com a implantação das OS (organizações sociais) e assemelhados e a perseguição aos servidores públicos.
Não bastasse isto, apenas o absurdo da tresloucada idéia do alcaide em derrubar o viaduto da Perimetral, contra a vontade da maioria da população do município (quem duvida, que faça uma pesquisa séria a respeito) já seria razão suficiente para uma significativa rejeição. Quais são as verdadeiras razões desta fixação? Somente por estética? Existe algo mais, motivando-o fortemente neste sentido, e não é o bem estar da população.
Outro absurdo foi o ocorrido no último Carnaval, antigamente chamado de “tríduo momesco”, pois se referia a três dias de festa apenas: domingo, segunda e terça-feira. De início, foi sendo estendido para antes e depois do período de festas da tradição carnavalesca. Atualmente, começa na semana anterior, persistindo até o domingo posterior. Até escolas particulares de peso suspenderam as aulas do dia 18 (sábado) ao dia 26 (domingo).
Mas o pior foi o desrespeito ao direito constitucional de ir e vir. Ninguém é contra o direito de “milhões” de foliões brincarem em espaços públicos. Contudo, é imperioso o estabelecimento de limites, que respeitem o legítimo direito, não assegurado, do cidadão em deslocar-se pelas ruas livremente. “O direito de cada um termina, quando começa o do outro”.
Logradouros foram interditados com e sem aviso prévio, ocasionando tormento a milhões de cidadãos, não adeptos do Carnaval. E isto ocorreu durante cerca de um mês. Chegou ao cúmulo de na quinta-feira, de noite, logo após a Quarta-feira de Cinzas, um bloco com algumas poucas dezenas de pessoas provocou a interdição da Avenida Rio Branco, pelas autoridades, deixando apenas uma via livre de circulação.
É demais. E acompanhando a maioria dos blocos, foi fácil identificar, com tristeza e preocupação, o comportamento de grande parte de seus integrantes. Menores vendendo bebidas alcoólicas para outros menores, embriagados, agindo como vândalos, urinando em qualquer lugar, devido à ingestão desproporcional de dezenas de latas de cerveja, não fosse uma grande empresa da área uma das principais patrocinadoras do carnaval carioca. O espaço deste artigo não nos permite um maior aprofundamento do tema.
No âmbito estadual, os desvarios não são muito diferentes. O IDSUS do Estado do Rio de Janeiro alcançou a nota de 4,58 (apenas três estados com situação pior). É o resultado também da política de “privatização” selvagem da saúde pública estadual, efetuada através das fundações de saúde, que, apesar de serem “públicas” no nome, vão incorporar “celetistas” e não estatutários.
Após este recente movimento grevista ocorrido no RJ, a administração estadual partiu para, na prática, esquartejar o Corpo de Bombeiros, pois a idéia do “desgovernador” é passar todas as ambulâncias de novo para a Secretaria de Saúde, bem como o atual Salvamar (postos de guarda vidas) passará para a esfera dos municípios, no âmbito das guardas municipais. Os sobreviventes ficarão para combater incêndios.
Aliás, a decisão de prender grevistas, inclusive oficiais superiores, em Bangu I é típica do governador. A idéia de declaração compulsória de renda e bens pelos policiais civis, militares e assemelhados, bem como seus familiares, é boa. Falta ser estendida a todas as autoridades do Executivo, inclusive ao próprio desgovernador. Talvez, então, seja explicada a origem de seu patrimônio.
Adicionando-se estes absurdos à venda, já decidida, mas ainda anunciada pouco a pouco, de quartéis da Polícia Militar (PM), localizadas em regiões das mais valorizadas do Rio de Janeiro, é reveladora. Começou pelo Quartel General da Rua Senador Dantas (apenas o prédio principal seria preservado), estando a área já vendida à Petrobras. A seguir, virão os de Ipanema, Leblon etc. E a pergunta lógica surge: onde ficarão os policiais?
A resposta padrão da Secretaria de Segurança é que mudou a doutrina da PM. Vai acabar o aquartelamento, e aí? A resposta será pomposa, mas não espelhará a realidade dos fatos. Esperamos que autoridades independentes, ainda conscientes de suas respectivas responsabilidades, no Legislativo, no Ministério Público, na Justiça, consigam restabelecer a ordem neste caos reinante.
Marcos Coimbra
Membro do Conselho Diretor do Cebres, titular da Academia Brasileira de Defesa e da Academia Nacional de Economia e autor do livro Brasil Soberano.
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