Mudança para valer

A revolução sustentada pelo povo egípcio, nos quase 20 dias em que ocupou as ruas do país, não pode ser apropriada e diluída por qualquer aventureiro ou potências que, durante cerca de 30 anos, sustentaram política, militar e financeiramente a ditadura de Mubarak. A energia e bravura mostrada pelos diferentes atores sociais que enfrentaram o governo, dificilmente, aceitaram que, mais uma vez, prevaleça o conselho de Tancredi ao príncipe Salina, em O leopardo, de Luchino Visconti: “Algo precisa mudar, para que tudo permaneça igual.” Os egípcios, como confirmar o crescimento das multidões nas ruas, após concessões de oposicionistas vacilantes à ditadura decadente, querem a mudança do modelo, não apenas do ditador de plantão.

Intertemporal
O árido mundo do economês ganhou mais um contributo conceitual. Semana passada, durante o seminário Medidas Alternativas de Custo de Vida, organizado pelo Banco Central com a participação de coordenadores de institutos de pesquisas de preços do país e integrantes da academia internacional, o professor português Ricardo Reis apresentou o indicador que batizou de Metodologia de Índices de Preços Dinâmicos, o qual “sustenta um Índice de Custo de Vida, ainda embrionário, levando em consideração a substituição intertemporal”.

Reinventando a roda
Traduzido para a linguagem dos mortais, o estudo de Reis significa que, quando o consumidor se depara com o aumento temporário do preço de um produto ou serviço de uso costumeiro, pode optar por adiar a compra, para aplicar o dinheiro num ativo financeiro e se capitalizar, para, quando o valor voltar ao patamar anterior, enfim, comprar o objeto desejado. Descontando a retórica do academicismo, trata-se de uma variante do velho boicote a altas súbitas de preços, muito adotado, por exemplo, por donas de casa de países com estabilidade monetária, como Estados Unidos e Alemanha.

Pirotecnia
Sem entrar no mérito das acusações, “que serão julgadas pela Justiça”, o presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Rio de Janeiro, Wladimir Reale, protestou contra a forma como foi conduzida a chamada “Operação Guilhotina”, com “invasão de delegacias, revistas infrutíferas e prisões ilegais de policiais com trabalho e endereço certo”. Segundo Reale, houve “claro abuso de poder, usado de forma pirotécnica, tratando-se policiais de forma indigna”. A operação promete uma “limpa” na polícia do Rio.
Realmente, sem entrar no mérito, a forma difere muito da utilizada pelo Governo Sérgio Cabral com os traficantes cariocas, avisados com 48 horas de antecedência da ocupação de favelas pela polícia. A justificativa é que assim evita-se ferir inocentes num conflito. O outro resultado é que nenhum bandido é preso.

Opções
Ano passado, Cuba baixou a mortalidade infantil para apenas 4,5 crianças para cada mil nascidas. A taxa é quase um quinto abaixo da média da América Latina, de 19 por mil. Certamente, não foi atingida por políticas de ajuste fiscal.

Eldorado
Com a facilidade de manter uma balança comercial favorável graças ao real anabolizado, a Índia, que, em 2010, exportou para o Brasil cerca de US$ 4,2 bilhões e importou menos de US$ 3,4 bilhões de importações, quer ampliar ainda mais seus negócios com nosso país. Para isso, a Confederação das Indústrias Indianas promove, pela primeira vez na América Latina, o Índia Show, evento que deve reunir cerca de 100 companhias do país asiático para apresentação de produtos e rodada de negócios com empresários brasileiros, entre 11 e 14 de março, no Expo Transamérica, em São Paulo. Está confirmada a participação do grupo Tata e de três gigantes do setor de óleo e gás – Bharat Petroleum, Hindustan Petroleum e Oil India.

É o cacete!
A tentativa de se importar para o Brasil a comemoração de Halloween felizmente anda por baixo. Mas elites com a cabeça unicamente no exterior insistem. Um hotel no Litoral Norte de São Paulo propõe aos casais comemorarem, nesta segunda-feira, o Valentine”s Day, o Dia dos Namorados estadunidense. Tudo bem que até o Carnaval vive-se uma espécie de baixa temporada, mas não precisa apelar tanto.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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