Muito além do ‘midiatismo’: a séria teoria econômica de Conceição Tavares

As lições econômicas de Maria da Conceição Tavares combinam criatividade com rigor acadêmico e honestidade intelectual. por Paulo Robilloti

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Maria da Conceição Tavares no Roda Viva, da TV Cultura, em 1995
Maria da Conceição Tavares no Roda Viva em 1995 (foto reprodução TV Cultura)

Maria da Conceição Tavares nos deixou no ano em que comemoramos meio século da publicação daquele texto que transformaria para sempre o ensino da economia no Brasil: a tese de livre-docência Acumulação de Capital e Industrialização no Brasil, escrita em 1974 porém defendida em 1975 na UFRJ. Esse trabalho pode ser considerado o ponto central de todo seu pensamento, pois, de alguma forma, tudo o que ela escreveu antes e depois dialoga direta ou indiretamente com ele. Além disso, essa tese, juntamente com Valor e Capitalismo, de Luiz Belluzzo (1975), e O Capitalismo Tardio, de Cardoso de Mello (1975), compõe a “Santíssima Trindade” da chamada “Escola de Campinas”.

A maior contribuição de Tavares foi ter constituído uma genuína escola crítica de pensamento econômico nos trópicos. Sua estatura teórica é semelhante à de autores como Ignácio Rangel e Celso Furtado. No entanto, Conceição Tavares, ao lado de pares, conseguiu uma façanha única até então: construir não só um corpo teórico original, mas permitir uma certa homogeneidade e perenidade de sua visão de mundo, com uma troca intergeracional com poucos paralelos no século 20.

Detentora de uma energia política e academicamente combativa, Tavares sempre teve o status de uma “pop-star” entre seus contemporâneos. Para a geração mais jovem, isso não é diferente, especialmente desde que o grande público teve acesso a trechos de suas aulas no Instituto de Economia da Unicamp. Mas, além da cena midiática, quais são as grandes questões da obra de Conceição Tavares?

Arrisco-me a dizer que uma passagem na introdução de tese escrita em 1974 nos oferece uma boa indicação. Nela, Conceição se pergunta: “Como se forma e se acumula o capital, como se distribui a renda, como se move e desenvolve um sistema econômico capitalista com sua estrutura técnica de produção e suas instituições básicas: empresas e mercados?” As respostas a essas perguntas, quando aplicadas à realidade brasileira, dão o tom de todo seu pensamento.

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Comecemos pelos problemas da acumulação de capital, um termo familiar à geração de Conceição, mas que hoje pode ser mais acessível aos jovens economistas se dissermos que vamos discutir as “formas como as empresas valorizam seus ativos”.

Conceição ganhou destaque nacional ao criticar a abordagem da esquerda tradicional, representada por Celso Furtado, sobre essa questão. Conceição e Furtado tinham diagnósticos semelhantes sobre a superação do atraso econômico brasileiro, por meio da participação da indústria no PIB. No entanto, discordavam sobre como alcançar esse objetivo.

Enquanto Furtado acreditava que superaríamos nosso atraso econômico desenvolvendo tecnologias nacionais, em 1974 Conceição promoveu uma radical autocrítica, se distanciando das teses de Furtado ao adotar um tom mais realista em relação ao jogo econômico. Para Furtado, as grandes indústrias multinacionais importavam tecnologias que poupavam mão de obra. Essa via de modernização seria uma armadilha de estagnação a longo prazo.

Conceição, por sua vez, procurou se distanciar das análises nacionalistas e obcecadas com a dependência da economia brasileira, comuns na esquerda tradicional. Para ela, assim como para Cardoso de Mello, o Brasil se integrou muito tardiamente no jogo capitalista mundial, e não teríamos outra escolha senão importar tecnologias e assimilá-las da melhor forma possível.

Conceição foi pioneira ao mostrar que eram justamente as indústrias intensivas em capital que mais empregavam a população urbana. Neste sentido, era muito mais importante apontar “o que” e “para quem” essas empresas estavam produzindo do que simplesmente criticar a forma como valorizavam produtivamente seus ativos.

Uma estratégia semelhante à chinesa hoje

A perversão social não estava no fato de termos tecnologias que poupavam mão de obra, mas sim no fato de que as multinacionais presentes na economia brasileira estavam produzindo bens que apenas uma parcela ínfima da população teria condições de consumir. Neste sentido, não é nada controverso afirmar que Conceição Tavares sempre defendeu para o Brasil uma estratégia semelhante à chinesa hoje: presença de grandes capitais internacionais, mas com um Estado dando organicidade ao processo, isto é, viabilizando a valorização privada de ativos, ao mesmo tempo em que priorizava as necessidades sociais da nação.

Mas a análise de Tavares sobre os mercados não inicia no caso concreto brasileiro. Esse é o ponto de chegada. O ponto de partida foi uma releitura da dinâmica do capitalismo mundial, e a economia brasileira sempre foi entendida dentro desses grandes movimentos. Nesta abordagem, Conceição deixou claro que seu entendimento do capitalismo passava por um diálogo crítico com as teses dos grandes economistas mundiais, desde os clássicos até os contemporâneos, de Adam Smith a Milton Friedman.

Sua análise, entretanto, sempre esteve centrada em Michal Kalecki, John Maynard Keynes, Joseph Schumpeter, Karl Marx e Josef Steindl. Todos trouxeram valiosas contribuições sobre a dinâmica do capitalismo, mas o movimento da obra de Conceição sempre foi procurar entender os limites desses autores quando aplicados à realidade brasileira.

Conceição Tavares nunca teve olhar cegamente apaixonado por nenhum teórico

Essa foi outra contribuição teórica grandiosa de Conceição: ela nunca teve um olhar dogmático ou cegamente apaixonado por nenhum teórico. Não poupou críticas a Keynes, Marx, Kalecki e Steindl. Entretanto, com eles, Conceição aprendeu que

  • o capitalismo se movimenta entre ciclos e crises, jamais se comporta de forma estacionária, como supõem as projeções de mercado;
  • o Estado é um elemento fundamental na condução da economia;
  • o capitalismo possui uma natureza estruturalmente incerta, reformando a importância do Estado como estabilizador e regulador da economia;
  • há dois caminhos para a valorização dos ativos no capitalismo, a via operacional-produtiva e a via financeira, e os mercados financeiros tendem a exercer um papel relevante na explicação da expansão e contração das economias capitalistas
  • a dinâmica dos mercados também depende da existência de empresas com tamanhos distintos, o que impacta diferentemente a formação de preços e salários, especialmente nas economias periféricas;
  • e em mercados concentrados, não há oposição entre salários e lucros do ponto de vista agregado.

Cada um desses temas contou com inúmeras teses e dissertações, a maioria desenvolvendo insights apenas indicados por Conceição.

As lições econômicas de Maria da Conceição Tavares, que combinam criatividade com rigor acadêmico, só se completam com outra lição ainda maior, sua honestidade intelectual.

Paulo Robilloti é professor de economia da ESPM, doutorando em Teoria Econômica pelo Instituto de Economia da Unicamp.

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