Mundo desigual

387

Os manuais de auto-ajuda destacam sempre o termo “resiliência”, ou seja, a capacidade dos indivíduos de usar as adversidades para melhorar o seu próprio desempenho. Na visão dos gurus do mundo corporativo, esta propriedade exerce papel crucial nos tempos atuais de rápidas e profundas mudanças no panorama da economia mundial.
Trata-se de características tais como autoconfiança, empatia, proatividade, persistência, flexibilidade. Predicados que se adquire de acordo com estímulos ambientais e envolve disciplina e esforço sistemático. Mera ilusão?
Dado que o capitalismo financeirizado dos tempos modernos, baseado nos monopólios da tecnologia, do acesso aos recursos naturais, ao sistema financeiro de crédito, às comunicações de massa e ao poderio das armas de guerra cria uma ideologia de que as oportunidades econômicas são iguais para todos, nossa missão é questionar as soluções de algibeira, principalmente quando, na verdade, apenas a mercantilização crescente da sociedade interdependente e desigual é que se apresenta como denominador comum.
Senão, vejamos: em nosso próspero Estado do Rio de Janeiro – a segunda maior economia da Federação, 70% dos 4 milhões de fluminenses empregados com carteira assinada ganham mensalmente até três salários mínimos.
No topo da pirâmide, onde estariam a classe média universitária e o empresariado, ou seja, acima de dez salários mínimos, temos menos que 10% dos contratados formalmente. Já Brasília, nossa poderosa e rica capital, abriga a maior favela do país.
Vivemos neste ambiente de crescente descrédito da vida pública, onde governos e políticos mantêm-se subordinados a uma tecnocracia liderada pelo “mercado” – um sistema integrado que detém o controle da produção e da distribuição de renda em escala planetária.
O ano que se encerrou ensaiou a rebeldia das ruas – presente nos idos de 1968 – com barricadas nas vias, revoltas no mundo árabe e ocupação das principais praças financeiras ao redor do mundo. Tal fato mexeu com os partidos políticos, grupos de pressão organizados, intelectuais e até com o meio acadêmico.
A falência dos mercados auto-regulados trouxe novas realidades que transbordam e se articulam em contextos globais de incerteza generalizada, riscos sociais crescentes que limitam a capacidade dos atores individuais, gerando a necessidade da sociedade se reinventar, diante da falta de instrumentos para uma ação pública saneadora.
Em momentos de crise, as elites dos vários continentes buscam saídas. Uma delas é o consenso humanista e ecologista que se baseia na “economia verde”, focado na baixa emissão de carbono, no uso mais eficiente dos recursos naturais e na inclusão social. A Rio+20, que acontecerá em junho próximo no Brasil, terá este tema como prioridade.
Nos anos de ouro da economia mundial que sucederam a Segunda Grande Guerra, no século passado, enquanto os países desenvolvidos fortaleciam seu welfare state, nós, latino-americanos, apostávamos no desenvolvimentismo.
Este movimento retorna, em novas bases, mas com muita força; entretanto, esbarra nos interesses ambientalistas e das minorias – mais visivelmente os indígenas e outras comunidades camponesas tradicionais.
Diante da perda de força do pensamento conservador, após a crise americano-européia de 2007/2011, a questão ambiental tende a se tornar um divisor de águas, tanto no Brasil, quanto na América Latina.
Na divisão internacional do trabalho somos responsáveis pela oferta de matérias-primas, como gás na Bolívia, petróleo na Venezuela e no Brasil, com o pré-sal, cobre no Chile, alimentos na Argentina e minério de ferro no Brasil. É o capitalismo buscando novas frentes de expansão para sua infinita tendência à acumulação de riqueza. Chegou a hora da política. Ou seja, da retomada da cooperação para reconstruir a confiança perdida.

Ranulfo Vidigal
Mestre e doutorando do PPED do Instituto de Economia da UFRJ.

Siga o canal \"Monitor Mercantil\" no WhatsApp:cnseg

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui