Muy amigo… imagina se não fosse

Mais não disse, nem foi perguntado. Prá que?

Empresa Cidadã / 19:49 - 20 de out de 2020

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O chefe do Executivo brasileiro declarou, através de speech gravado, ter assinado com os EUA, “há alguns dias atrás”, três acordos. Um sobre comércio, outro sobre práticas regulatórias e o terceiro sobre práticas anticorrupção. A gravação é referente ao evento US-Brazil Connect Summit, organizado pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos, realizada em 19 de outubro, agorinha mesmo.

- No speech, o chefe do Executivo brasileiro destacou a importância dos investimentos norte-americanos no Brasil, referiu-se à oportunidade do programa de Parceria de Investimentos, à “ambiciosa agenda de reformas” (a previdenciária e as seguintes, administrativa e tributária), ao desejo de um acordo comercial mais amplo com os EUA no futuro, ao apoio norte-americano com que conta para ingressar na relação de países-membros da OCDE e declarou ainda que a sua relação com o atual presidente dos EUA, Donald Trump, elevou a relação entre os dois países ao “melhor momento da história.”

O comércio bilateral entre os EUA e o Brasil registrou o pior resultado, desde 2009, ano seguinte ao da “Crise do subprime”, de acordo com o estudo Monitor de Comércio Brasil-Estados Unidos, realizado pela Amcham. De janeiro a setembro de 2020, o valor das trocas comerciais foi de US$ 33,4 bilhões, uma redução de 25,1% em relação ao mesmo período de 2019.

Três seriam as causas da perda de cerca de um quarto dos valores das trocas entre os dois países, segundo a Amcham: os graves efeitos da crise econômica; a queda do preço internacional do petróleo; e restrições comerciais impostas ao Brasil pelos EUA, em setores específicos.

 

Causas

O Estudo informa que no acumulado de 2020, as exportações brasileiras para os EUA caíram 31,5% em comparação com igual intervalo de 2019, alcançando o total de US$ 15,2 bilhões. Em termos relativos, entre os 10 principais destinos das exportações do Brasil, em 2020, os EUA foram os de maior queda.

Por outro lado, as importações brasileiras vindas dos Estados Unidos despencaram no terceiro trimestre deste ano, em 41,6%, ante 2019. Entre janeiro e setembro de 2020, as importações totalizaram US$ 18,3 bilhões. Como resultado do encolhimento das exportações e importações, a tendência é que o Brasil registre o maior déficit comercial com os Estados Unidos dos últimos cinco ou seis anos, aponta o documento. Até o momento, o saldo negativo é de US$ 3,1 bilhões a favor dos EUA.

Apesar da forte redução do comércio bilateral, os EUA continuam sendo o segundo principal parceiro comercial do Brasil (12,3% do total das trocas brasileiras com o mundo). A China se mantém em 1º lugar, tendo aumentado sua fatia para 28,8%, segundo dados do estudo da Amcham, com tendência a aumentar, considerando o bom desempenho da economia chinesa (surpreendentes 4,9% de crescimento no terceiro trimestre de 2020; previsão de crescimento de 1,9%, em 2020, segundo o FMI).

 

Aqui se faz. Deliberadamente.

Estimativa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) dá conta de que as medidas protecionistas adotadas pelo governo Trump impactam negativamente as exportações brasileiras em US$1,6 bilhão, por ano. Em março de 2018, ocorreu a imposição da primeira medida protecionista (de quotas para as compras de aço brasileiro e a taxação de 10% das compras de alumínio). Diversos países, como Rússia, Índia e Turquia, e a UE abriram reclamações na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os norte-americanos. O governo brasileiro galinhou, calou-se.

Outras medidas prejudicam as exportações brasileiras. Em janeiro de 2020, os EUA abriram investigação que pode sobretaxar exportações de molduras de madeira do Brasil e da China em até 200%! Conforme a CNI, essa ação pode diminuir as exportações brasileiras em US$ 300 milhões, por ano.

 

O que vem por aí. Prepare-se

As ameaças de 2020 foram possíveis porque os EUA revogaram unilateralmente margens de preferência existentes para países em desenvolvimento. Trump também alterou a legislação ao interpretar manipulações do câmbio como subsídios e assim habilitar a aplicação de novas sobretaxas.

Em 2019, o Brasil tornou-se deficitário comercial em US$ 300 milhões ante os EUA. Foram US$ 29,7 bilhões em exportações e US$ 30 bilhões em importações. Nos cinco primeiros meses de 2020, as exportações para os Estados Unidos de bens industrializados caíram cerca de 30%, equivalentes a US$ 3,2 bilhões, em relação ao mesmo período de 2019.

Repetindo, o chefe do Executivo brasileiro declarou no speech apresentado no Connect Summit de 19 de outubro, realizado na Câmara de Comércio dos Estados Unidos (no Brasil), que a sua relação com o atual presidente dos EUA, Donald Trump, elevou a relação entre os dois países ao “melhor momento da história.”

 

De fato, muy amigo

Nesta segunda-feira (19 de outubro), os EUA tornaram a apertar os laços que unem Brasil e EUA. Bem apertado, o atual presidente, Donald Trump, anunciou a reinstalação da política de taxação e de cotas, que tem como alvos o alumínio e o aço que o Brasil exporta para lá. E a Argentina também entrou de gaiata no navio. Desde 2018, discute-se esta política, com a suspensão simultânea das cotas (o governo americano é que determina quanto poderá ser exportado pelo Brasil de alumínio e de aço) e de sobretaxa de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio. Segundo Trump, são respostas à valorização do dólar, apesar do valor do câmbio não ser da iniciativa nem da responsabilidade do governo brasileiro.

Qual o potencial ofensivo sobre o Brasil das medidas anunciadas pelos EUA? As vendas de aço e ferro, do Brasil para os EUA somaram US$ 2,255 bilhões (de janeiro e outubro deste ano), o que representa uma redução de 16%, ante o mesmo período de 2018.

As vendas de alumínio em barra aumentaram (de US$ 127 milhões para US$ 144 milhões, até setembro de 2020). Os laminados planos aumentaram as vendas de US$ 108 milhões para US$ 216 milhões. Sobre esta base é que acontecerão as perdas.

 

Bateu levou...

No final da última semana, o governo brasileiro anunciou a redução, de 8% para zero, da tarifa sobre importações de soja e milho, a pretexto de conter altas de preços internos. Os EUA, únicos que podem se beneficiar da medida, por questões de calendário agrícola, agradecem.

O chefe do Executivo brasileiro respondeu com decisão às medidas adotadas por seu muy amigo presidente dos EUA: “Se for o caso, falarei com ele.” Mais não disse, nem foi perguntado. Prá que?

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do RJ (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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