Nacional-trabalhismo: podemos mudar o mundo que nos impuseram

O século que se completará nesta década conheceu as maiores transformações que a humanidade teve em tão curto tempo. Darcy Ribeiro denominou uma destas transformações como a Revolução Termonuclear. A outra é a Revolução da Comunicação. Ambas, em suas evoluções, conduziram às organizações da sociedade como a que encontramos hoje, em todo mundo.

Em 1920, o mundo sepultara um tipo de sociedade colonial, estratificada e excludente, e fazia surgir novas sociedades dominadas por filosofias políticas autoritárias. Curiosamente, as duas mais amplamente adotadas, fascismo e comunismo, tinham a mesma matriz: o liberalismo.

O leitor talvez indague sobre a democracia; ao que responderei com duas perguntas: o que é e onde se aplica a democracia?

Sem a mesma divulgação nem aplicação surgia também o corporativismo, com princípios menos radicais para a organização da sociedade do que o fascismo e o comunismo.

No Brasil seria consolidado, com a revolução ocorrida em 1930, um pensamento também distinto de organização social, o nacional-trabalhismo, que vinha sendo construído desde a Independência em 1922. Creio que deveria explicitar as principais distinções entre estes modelos de organização da sociedade.

O fascismo e o comunismo colocavam num poder central e autoritário toda responsabilidade sobre as relações entre a população e desta com o Estado. A diferença se resumia, praticamente, nos beneficiados das riquezas produzidas. O fascismo as dirigia para uma elite, e o comunismo, para distribuição entre a população.

O corporativismo acreditava na união de segmentos da sociedade para agirem em proveito próprio, mas com benefício a todos demais grupos sociais. Faltava a este organicidade mais ampla do que a produtora, para poder responder a outras questões que a convivência humana demandava. Houve também uma apropriação do corporativismo pelo fascismo e pelo comunismo que o descaracterizou e levou a ter pouca representatividade.

O Brasil, a mais rica nação da Terra, teve uma construção notável, orientada pelo nacionalismo e pelo trabalho. Não pretendia tornar-se universal, como as anteriormente apresentadas, mas dirigida a partir da realidade própria do país, diferente de todos os demais, como ocorre em toda organização não colonial.

Esta autonomia do nacionalismo foi o que mais provocou reações adversas ao nacional-trabalhismo. As potências, existentes e em construção ou em decadência no século XX, não podiam deixar um pensamento autônomo, nacional, ser vitorioso, quebrando a forte dominação ideológica da globalização e a pedagogia colonizadora das mentes brasileiras.

A este nacionalismo juntava-se o trabalho como parceiro, dando-lhe igual importância a do capital na construção do País. Com isso recebia a crítica de uma sociedade ainda presa ao escravismo de quatro séculos.

E após a II Grande Guerra, ficou marcante a divisão do mundo nas ideologias autoritárias. De início, a existência do comunismo forçou o liberalismo capitalista a encontrar formas mais brandas de apropriação da renda e riqueza pela elite do capital. São as sociais-democracias e variantes que se estabelecem no mundo.

Estes pensamentos, no entanto, já se esboçavam desde 1891, quando o Papa Leão XIII divulgou a encíclica “Rerum Novarum” (Sobre as Coisas Novas) buscando preservar o capitalismo com as ideias distributivistas dos prelados Wilhelm von Ketteler e Edward Manning.

O Brasil permanecia fiel à ideologia nativa do nacional-trabalhismo, o que ensejou o golpe de 1945. Mas os liberais vitoriosos do golpe arriscaram e perderam ao colocar em eleição qual a preferência popular. Getúlio volta ao poder, e um novo golpe o leva ao suicídio. Porém esta solução extrema retarda por 10 anos a ocupação do governo pelos liberais do segmento fascista.

No mundo, o financismo vai destruindo o industrialismo, no campo do fascismo, e assume, na década de 1980, ser a única elite beneficiada pelos ganhos. Destrói a principal potência comunista e, a partir de 1991, se tem o novo poder mundial: o fascismo com a elite financeira no comando.

O Brasil fica refém de este poder. Juntam-se todas as correntes, da esquerda à direita, para enterrar o nacional-trabalhismo, a Era Vargas, cuja liderança era então do único governador de dois Estados na História do Brasil: Leonel Brizola.

E esta alienante e mesquinha realidade se impõe em nosso país a partir da eleição de 1989. Desde então, com pequenos pedaços de doce para aplacar a fúria da miséria física e cultural, o fascismo liberal domina o Brasil.

Mas temos as bases, nacionais, intelectuais, morais desta rica Nação para reviver e atualizar a Era Vargas, cujos fundamentos estão no nacional-trabalhismo. Podemos pensar e começar a construir o novo tempo. Os pilares desta construção são a Soberania e a Cidadania.

Soberania é a autonomia decisória da Nação para sua defesa e a dos direitos de seus cidadãos, e para o constante desenvolvimento do País. Cidadania é a paridade entre todos os habitantes, com efetivos direitos e deveres iguais, e suas participações nas decisões.

 

Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.

Leia mais:

Nacional-trabalhismo: mudanças trazidas pelo avanço neoliberal

Os novos presidentes da Câmara e do Senado e o Governo Bolsonaro

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