Nada de novo

Não vou criticar essa reforma ministerial porque não tinha mais remota expectativa de que pudesse sair algo melhor. Aprendi, nestes últimos quatro anos e meio, a não esperar nada de novo no Governo Fernando Henrique. Ele se condenou à absoluta mediocridade. Está prisioneiro dela. Elegeu-se pela estabilidade dos preços. Pela manutenção cega da estabilidade vai-se atolar no pântano do não governo, neste segundo mandato. Está experimentando, com três anos de antecedência, o que Sarney experimentou em seu último ano de mandato. É um foco de desesperança. Um objeto de desprezo público.
Em seu tempo, houve um momento em que Sarney já não tinha coragem de convidar ninguém decente para o ministério porque temia uma recusa. O ex-presidente tem seus defeitos, mas é um homem modesto. É capaz de autocrítica. Nos seus maus momentos com a opinião pública reconhecia-se politicamente leproso. Fernando Henrique tem vaidade demais. Jamais vai admitir que chefia um governo de segunda, um dos piores que o Brasil já teve. E jamais vai se achar com lepra. Entretanto, já teve um gostinho de recusa na substituição de Renan Calheiros no Ministério da Justiça. Quase não achou quem aceitasse.
A questão central, porém, não são os ministros que saem e os que entram, mas os que ficam. Não todos os que ficam, mas os intocáveis, os “imexíveis”, os que formam o cerne da plutocracia econômica. Eles são o Governo, enquanto os outros estão no Governo. Mandam em Fernando Henrique, e não fazem a menor questão de mascarar isso. Atropelando uma negociação que estava sendo feita pelo presidente, Malan soltou uma nota dizendo que os Bancos do Nordeste e da Amazônia não iriam para o recriado Ministério do Interior. Desautorizou as tratativas. Deu a última palavra. O presidente engoliu.
Há quem tenha honra e não aceite um ministério desidratado. Não é o caso de Fernando Bezerra, que estava a fim de um ministério, qualquer um. Aliás, o presidente acabará cercado exclusivamente de gente desse tipo, que topa qualquer coisa para virar ministro. Entretanto, independentemente do valor ou desvalor individual, Fernando Bezerra tinha os títulos de presidente da CNI, senador pelo Rio Grande do Norte e líder do Governo no Senado. Se alguém com tais credenciais não pode mandar em dois bancos públicos, quem pode? Em nome de quê e de quem um burocrata não eleito se atreve a segregar áreas de atuação a políticos eleitos?
Não foi apenas a nota de Malan que deu a marca de mando da plutocracia econômica nas duas últimas semanas. O presidente do BNDES, Pio Borges, antecipou-se a todas as demais autoridades da República, inclusive o presidente, para garantir com financiamento do banco a instalação da Ford na Bahia. Esta é mais uma evidência de que, quando o Governo se enfraquece na opinião pública, a burocracia faz o que quer. No caso da plutocracia econômica é mais grave, porque ela acredita (com razão) que fez o presidente na primeira eleição, e portanto ele é uma espécie de refém dela, inclusive depois do segundo mandato, que foi obra mais do acaso do que da estabilidade.
O presidente só escapará do pântano em que está metido se compreender que a mesma plutocracia econômica que o tornou imbatível na primeira eleição o está enterrando junto à opinião pública neste segundo mandato. Se ele fez a reforma ministerial por causa das pesquisas, errou feio. Pois o que as pesquisas dizem é que o povo já não suporta mais as consequências de uma política econômica insana, e a reforma preserva justamente o núcleo dela. Mas que não tenha ilusões. Se tinha 53% de desaprovação antes, por ruim ou péssimo, com este ministério talvez chegue logo aos 60% e, antes do fim do ano, aos 70%.
Não é só o cordão umbilical que o liga à plutocracia econômica que deve ser rompido, se o presidente alguma vez quiser tentar restaurar sua credibilidade pública. Ele terá que romper também com a plutocracia internacional. Curiosamente, sendo um alegre cidadão do mundo, talvez isso lhe doerá ainda mais. Ele deve se envaidecer muito com os telefonemas confortáveis de Michel Camdessus, as declarações favoráveis de Clinton, os acenos animadores do Banco Mundial. Deixar de receber os elogios desse círculo educado e inteligente para meter a mão na massa dos problemas nacionais não deve ser nada agradável. Lembram quando Clinton disse que o Brasil está fazendo tudo certo? Só mesmo um desmancha-prazeres lembraria, numa hora dessas, que a taxa de desemprego real em Recife está em 29,24%, em Salvador 24,22%, e em Belo Horizonte 19,49%!

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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