Não à violência

A violência tem sido estudada e pesquisada de forma transversal procurando identificar as suas causas. No Brasil colonial (1540-1822) a Coroa portuguesa valia-se da violência para escravizar indígenas e negros e como instrumento para manter a centralidade política e unidade territorial na colônia continente. Durante os períodos de ditadura (Estado Novo – 1937-1945 e Golpe Militar – 1964-1985), a violência também foi utilizada para a repressão política.

No presente, a desigualdade social é um dos fatores que agravam os quadros de violência. Os homicídios concentram-se em bairros pobres e atingem, em proporção muito maior, a população pobre e agravada com o racismo. A possibilidade de um jovem negro de morrer vítima de homicídio é 23,5% maior que a de um jovem branco.

A violência é uma questão de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência é “o uso intencional da força física ou do poder, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou comunidade que possa resultar em lesão, dano psicológico, problemas de desenvolvimento ou privação”.

No Brasil, a violência vem aumentando desde a década de 70. O auge vou atingido em 2017, quando 65.602 pessoas foram assassinadas. A partir de 2018, começou a cair, mas o índice continua muito alto (57.956 homicídios). Essa tendência de queda confirmou-se em 2019.

A morte violenta ocorre em maior número nos jovens entre 18 e 24 anos, do sexo masculino. Isso reflete uma mudança demográfica, já que a expectativa de vida no Brasil está aumentando. Além disso, a alta taxa de homicídios nessa faixa etária traz consequências econômicas, pois parte considerável da força produtiva do país está sendo dizimada.

Essa violência endêmica gera: a) grandes perdas econômicas; b) desvalorização dos imóveis; c) diminuição na produção e comercialização de produtos; d) aumento no sistema público de saúde; e) perda de confiança no ambiente econômico. A violência como doença social diminui as liberdades democráticas de expressão, de associação, de ir e vir, o direito de propriedade e outros retrocessos sociais.

A arqueóloga Andrea Lessa destaca em seu trabalho “Arqueologia da agressividade humana: a violência sob uma perspectiva paleopepidemiológia” que uma sociedade preocupada com as rupturas da homeostase social dirija sua atenção para a compreensão da pré-história da violência. Ela também aponta que ainda falta muito a conhecer sobre a origem e a natureza da agressividade humana – ainda estamos engatinhando nesta direção.

O país clama pela priorização da segurança pública. O cidadão e a cidadã têm medo de dar uma volta à noite nas imediações de seu lar, ou, de ficar em sua casa sem cercas elétricas, alarme e monitoramento 24 horas.

Uma questão que emerge é se precisamos mais policiais nas ruas e o aumento de presídios? Será que não seria mais pertinente e inteligente começar a educar melhor as nossas crianças que são o futuro do país? Uma educação básica de qualidade para todo brasileiro/a para que possam trabalhar, ter um salário digno, ter oportunidades e contribuir para o bem estar de todos onde os valores e virtudes (ética, solidariedade, compaixão, honestidade, amorosidade etc.) sejam os pilares de um convívio harmônico e feliz.

Para que isso se torne realidade é preciso urgentemente se fazer uma revolução educacional preparando cada educando para uma vida cidadã e de trabalho. Temos que eliminar os conteúdos inúteis em nossas escolas, como costumava dizer Darcy Ribeiro. O professor deve ser valorizado e ter um salário que esteja no topo da carreira pública.

No Brasil, como costuma dizer a economista Maria Lucia Fattorelli, coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, temos um paradoxo inaceitável: “Imensa escassez no país em abundância”. A educação de qualidade certamente mudará esse cenário, além de reduzir drasticamente a violência. É pertinente lembrar o pensamento de Martin Luther King: “Uma das coisas importantes da não-violência é que não busca destruir a pessoa, mas transformá-la.” Vamos todos dizer em coro: não à violência.

 

Isaac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e membro do Movimento 2022-2030 O Brasil e o mundo que queremos.

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