Negras nuvens

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A história se repete, de fato. A escalada observada no prefácio do conflito iraquiano é visível na pré-guerra ora travada contra o Irã. O aumento da intensidade das declarações e confabulações pró ataque ao Irã nos lembram o “momentum” político-midiático que antecede todas as guerras. O clima pró- guerra se difunde, tornando cada vez mais difícil ouvir-se uma voz pró paz.
Barack Obama, desprezando o voto pacifista que o elegeu, adota a mesma retórica de seu antecessor, prometendo guerra caso chegue à convicção de que o Irã construirá sua bomba nuclear. Iraque redux. Repetindo a nefasta doutrina Bush, declara ser impositivo atacar país que “possa tornar-se um perigo para os Estados Unidos”.
Tal conceito viola frontalmente a Lei Internacional, que somente justifica a guerra em casos de auto defesa ou iminente ataque de nação hostil.
Qual a probabilidade do Irã atacar os Estados Unidos ou Israel? Mesmo que consiga sua arma nuclear? O bom senso descarta esta hipótese, tendo em vista o poderio nuclear dos Estados Unidos e de Israel. Atribuir-se loucura coletiva ao governo de Teerã, por decidir um ataque que levaria à total destruição de sua nação não encontra paralelo na história que nos ensina que guerras entre nações só são iniciadas quando o atacante acredita na possibilidade de vitória ou de uma paz negociada, onde obteria vantagens.
Justo seria concluir-se pela fragilidade da tese que coloca os Estados Unidos e Israel em perigo, esvaziando assim o argumento que dá suporte à guerra prometida.
Grande parte do público, soterrado por versões que diabolizam o Irã e evangelizam a dupla Yankee-Sabra, perde a perspectiva e atordoada não se aprofunda nas razões por trás do conflito iminente. Seria útil, talvez, a reflexão sobre três dos fatores que, de forma subjacente, parecem sustentar a lógica belicista.
O primeiro fator é o ubíquo petróleo. Seja para dominar as fontes de produção, como se verifica no Iraque pós guerra, seja para impedir a politização hostil de seu uso. Convêm, ainda, lembrar que o Irã fornece 9% das importações Chinesas de petróleo.
O segundo seria o geopolítico, visando o enfraquecimento ou a eliminação de regimes não alinhados às políticas Israelo-Americanas no Oriente Médio. O ataque ao Irã reduziria a influência xiita na região favorecendo as aliadas e autoritárias elites sunitas. Como bônus para Israel, a questão Palestina ficaria relegada ao esquecimento.
O terceiro elemento diria respeito às eleições norte-americanas. Face à decisão da Suprema Corte norte-americana autorizando a criação dos PAC (Political Action Committees), ou seja a participação de contribuições milionárias além dos recursos partidários. Assim, torna-se essencial a cooptação ou neutralização do segmento abastado sob controle dos segmentos pró Israel. Neste sentido, não pode ser ignorado o apoio prestado por Obama ao AIPAC, o maior lobby Judeu em seu país.
Em seu discurso, a promessa de ataque ao Irã, em íntima sintonia com Tel Aviv, se não garante apoio ostensivo da comunidade, inibiria uma potencial hostilidade. Contrariamente ao contencioso nuclear USA-Korea do Norte, nenhuma negociação com o Irã envolvendo concessões de parte a parte, estão nos planos de Foggy Bottom (Secretaria de Estado Norte Americana).
Talvez o leitor brasileiro observe tais manobras como distantes ainda que reprováveis. Atribuem-lhes, quem sabe, pequena importância. Contudo, semelhanças marcantes aproximam o nosso país das encruzilhadas onde países dominantes optam por iniciativas contrárias à nossa segurança.
Este cenário recomenda, tanto ao Itamaraty quanto ao Ministério da Defesa, análise e formulação de políticas que preservem nosso direito de dar continuidade, sem contestação externa, presente ou futura, ao programa nuclear brasileiro. Como nação que busca sua autonomia nuclear, tanto pacífica como militar (no que concerne a tecnologia de propulsão nuclear para belonaves) cabe ao Brasil opor-se a precedentes contrários a seus interesses.

Pedro Leitão da Cunha
Consultor.

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