Nossa inserção na globalização

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O debate sobre a globalização e nossa inserção na economia mundial está, em geral, mal orientado. Temos que nos colocar à altura do processo da globalização em curso. Não para apoiá-lo ou criticá-lo, mas sobretudo para compreendê-lo e nos colocarmos à altura do curso dos acontecimentos históricos contemporâneos.
Com esse objetivo estamos organizando, com o apoio do Cofecon e várias instituições de pesquisa e docência, um painel mensal sobre as perspectivas da economia mundial. Trata-se de uma análise precisa e um acompanhamento sistemático da conjuntura internacional, produzidos por especialistas da área que se reúnem mensalmente sob a responsabilidade do Gremimt e com a participação de várias instituições e estudiosos do tema.
Esse seminário iniciou-se em janeiro deste ano com a apresentação do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães sobre a política externa brasileira no momento atual. Nela, o embaixador chamou a atenção sobre as surpresas e impasses que essa política vem encontrando a partir de premissas irreais sobre a evolução do quadro político internacional, inspiradas no pensamento neoliberal.
Confirmando essa análise, o ministro Lampréia, das Relações Exteriores, fez recentemente um balanço da unilateral abertura econômica brasileira e chegou à conclusão de que a realização da Alca, em curto prazo, “coloca” em cheque o parque industrial do Brasil.
Talvez por isso, o governo brasileiro chama à realização de um encontro de presidentes sul-americanos, em agosto próximo, em Brasília. Ao mesmo tempo, solicita ao BID um plano de desenvolvimento do subcontinente, inspirado no programa “Brasil Adiante”, para ser apreciado nessa oportunidade. Mais uma vez, a sociedade brasileira não será consultada e a improvisação eleitoreira prevalecerá sobre temas sérios, que movem esperanças e aspirações de nosso povo.
Sabe-se que o governo norte-americano está cada vez mais perplexo com a evolução dos acontecimentos políticos no subcontinente, particularmente com a região andina, onde a inviabilidade das economias sob inspiração neoliberal vem conduzindo às crises institucionais, ora em curso, na Venezuela, na Colômbia, no Equador, na Bolívia e, particularmente, no Peru, onde uma ditadura mais ou menos explícita, se nega a submeter-se à opinião pública internacional e garantir eleições limpas.
No Chile, a estabilidade institucional é também precária, ao manter-se a constituição ditatorial que outorga a senatoria perpétua a um ex-ditador, requisitado pela justiça de vários países. É precária também a situação da Argentina e do Uruguai, onde não se superam as chagas deixadas pelo terror estatal e onde a crise econômica aprofunda as confrontações.
Neste quadro de crise institucional generalizada no subcontinente, o Brasil parece ser uma exceção, mas a estabilidade de sua economia sobrevive às custas do auxílio do FMI, que se encontra sob grave questionamento, entre outros fatores, por essa “generosa” ajuda ao governo brasileiro, com dinheiro dos contribuintes norte-americanos.
Vemos, portanto, que a preocupação das autoridades dos Estados Unidos chega às raias da perplexidade e diminui sua vontade política de intervir diante inclusive de iniciativas mais audazes, como a criação de uma Aliança Sul-Americana, sob uma clara iniciativa brasileira. Por outro lado, a comemoração dos 500 anos do Brasil mostrou a falta de legitimidade da elite que dirige o País, e as frustrações das maiorias sociais excluídas por ela das conquistas.
Isso desqualifica a capacidade do governo federal de dirigir, sem o apoio da população e das principais instituições do País, uma iniciativa tão ampla, da qual o povo brasileiro gostaria de participar. A criação de um programa de desenvolvimento sul-americano, através de uma aliança continental, poderá mobilizar um enorme potencial de nossa economia, sociedade e cultural, subutilizado hoje em dia por uma política econômica recessiva.
A frustração dessa iniciativa poderá ter conseqüências políticas muito negativas. É difícil ocultar a gravidade dessa situação numa região que recém superou anos de violentas ditaduras e cujas experiências democráticas ainda são tênues.
Tudo isso nos mostra a necessidade de a população dispor de meios corretos de informação sobre os acontecimentos internacionais e ocupar seu papel protagônico na definição das grandes linhas da política externa do País e suas respectivas definições estratégicas. Não se trata pois de ignorar a economia mundial e sim, ao contrário, de construir nossa estratégia soberana de participação na globalização ora em curso.

Theotonio dos Santos
Professor-titular da UFF e membro do Conselho Editorial do MONITOR MERCANTIL
Artigo publicado no “Economia em Perspectiva”, do Corecon-SP, edição nº 171

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