Numa época em que predominam nos noticiários os esquemas espúrios de captação e justamente quando se institui uma Super Receita há sempre espaço para uma reflexão, ainda que aparentemente distante, do tema em voga.
Recentemente, jornais do Rio e de São Paulo divulgaram pesquisas do IBGE que indicaram a presença de enorme número de nordestinos nas favelas destas duas metrópoles, constituindo-se, até mesmo, em algumas, no grupamento predominante.
Há dez anos, morador do Rio que se mudou para a Paraíba, ao participar de uma primeira reunião social, sentiu-se violentamente interpelado, como se culpado fosse, por uma senhora que, agressivamente, disparou:
– Na sua cidade as favelas estão cheias de gente passando fome e são todos daqui, nossos irmãos que vivem lá explorados.
Com o passar do tempo, estabelecido um convívio rotineiro, o carioca veio a constatar que a família da referida senhora, com marido e dois filhos, dispunha de uma renda anual da ordem de US$ 140 mil em confronto com a dele, que montava, na época, a cerca de US$ 40 mil. Verificou, ainda, que a Sra. empregava três domésticas sob o argumento de que “preciso ajudar” mas não assinava carteira, nem pagava qualquer outro benefício.
Evidentemente seus posteriores “comentários impertinentes”, feitos de corpo presente, conduziram a uma rápida ruptura da amizade.
Estas observações vêm a propósito da surpresa manifestada por executivos de empresas estrangeiras que, já organizando cruzeiros marítimos na costa brasileira e internacionais e com o objetivo de ampliar um mercado que consideram promissor, começaram a trabalhar para desenvolver campanha de divulgação com alvo definido, precisando para tanto computar estatísticas do que vem se verificando nos anos mais recentes.
Os números iniciais levantados, gerando perplexidade, fizeram com que procedessem a uma recontagem: o predomínio dos passageiros, em cruzeiros internacionais, era esmagadoramente do Nordeste.
A proximidade da origem em relação aos destinos europeus constituía-se em argumento importante mas não era de forma a justificar ou compensar os custos envolvidos. A expectativa de que o número de paulistas (na realidade o segundo grupamento) fosse o maior não se confirmou.
Para um estrangeiro é difícil compreender como uma região que, comprovadamente, é a mais pobre do Brasil, onde o desemprego é mais acentuado, tem o pior coeficiente de Gini do país, já faz um tipo de turismo classificado como razoavelmente sofisticado, isto é, praticado quando outras formas menos dispendiosas foram intensivamente exploradas.
Qualquer correlação que buscaram estabelecer implicou em impossibilidade de entender, sendo flagrante a distorção quando se tentou uma proporcionalidade em relação às populações. O que teria viabilizado parte do estudo seria uma análise estratificando faixas de renda.
Pela própria natureza do assunto, fácil de ser classificado como preconceito, as conclusões, não só por razões mercadológicas como também para atenuar a concorrência, não foram nem serão divulgadas.
O pouco que vazou é que seria ótima a relação nacional de 1% de ter 13% da renda, parcela representativa dos outros restantes, quando comparada com percentuais nordestinos. O signatário, neto de nordestinos, reitera reflexão.
Com a palavra as lideranças nordestinas, particularmente no momento em que vivemos, pois representam também importantes lideranças do país. A confirmação dos dados pode ser feita na Embratur e na Polícia Federal.
Osvaldo Nobre
Engenheiro, autor do livro Brasil País do Presente.















