Novas realidades geopolíticas exigem mudanças

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Educação na África (foto Banco Mundial)
Educação na África (foto Banco Mundial)

África ocupará melhores posições no consumo de energia e no PIB per capita

 

Das grandes falácias da pedagogia colonial está a suposta continuidade de situações altamente mutáveis. É um estímulo ao conformismo, sintetizado na expressão: sempre foi assim. Isso lembra o caso irônico do torneio, que se realizava pela segunda vez em universidade estadunidense, e se apresentava com os dizeres: prosseguindo nossa tradição…

Atualmente o mundo está amplamente dominado pelas finanças. Este poder de capitais apátridas, especulativos, apenas preocupados com o volume e o menor tempo para recebimento dos ganhos, tem provocado diversas modificações nas nações e nos comportamentos de seus dirigentes.

Como sabemos, um dos instrumentos utilizados pelas finanças é a corrupção. E, efetivamente, desde a última década do século 20, quando tem início a expansão do poder financeiro, o número de casos de corrupção, quer na área pública quer na área privada, em todo mundo, cresceu assustadoramente. O Judiciário tem sido dos principais alvos pela capacidade de solucionar situações de interesse das finanças de modo mais permanente do que decisões administrativas do executivo ou atos legislativos. Exemplo disso é a autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para alienar o patrimônio da Petrobrás [nota do editor: os autores grafam o nome da estatal com acento no “a”], sem legislação pertinente, como dispõe a constituição e a própria legislação em vigor.

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Alteração das mais significativas para os primeiros anos do século 21 é a demográfica. A tabela que segue, dos 20 países mais populosos, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), e a projeção da mesma organização para 2100, é exemplo evidente.

 

Vinte países mais populosos do mundo

2020

2100

1

China

Índia

2

Índia

China

3

EUA

Nigéria

4

Indonésia

EUA

5

Paquistão

Paquistão

6

Brasil

Congo

7

Nigéria

Indonésia

8

Bangladesh

Etiópia

9

Rússia

Tanzânia

10

México

Egito

11

Japão

Angola

12

Etiópia

Brasil

13

Filipinas

Níger

14

Egito

Bangladesh

15

Vietnã

Filipinas

16

Congo

Sudão

17

Turquia

México

18

Irã

Uganda

19

Alemanha

Rússia

20

Tailândia

Quênia

 

O mundo tem, atualmente, população estimada em cerca de 8 bilhões de pessoas, das quais 55% estão na Ásia, aí incluída a do Oriente Médio (180 milhões).

De acordo com a projeção da ONU e incluindo a Federação Russa na Europa, haverá a seguinte modificação entre as nações mais populosas: em 2020 eram 11 asiáticas, quatro africanas, três americanas e duas europeias; em 2100 serão 10 africanas, seis asiáticas, três americanas e apenas a Rússia no cômputo europeu.

Este deslocamento provocará dois grandes impactos geopolíticos: o alimentar e o energético. O peso africano exigirá, com enorme probabilidade, novas produções e abrirá mercados hoje inexistentes.

Vejamos inicialmente o lado da energia, com os dados da BP Statistical Review of World Energy 2021. Ao longo da última década 2010-2020, o crescimento do consumo de energia pelos continentes se deu do seguinte modo: o maior foi na área da Ásia e Pacífico, com 3,35% ao ano, em média, áreas que vinham apresentando maiores crescimentos demográficos nas décadas pós II Grande Guerra, seguido do Oriente Médio, 3,15%, da África, 2,5%, das Américas, 1,9%, da Rússia e Comunidade dos Estados Independentes (CEI), 1,4%, havendo até decréscimo na Europa (exceto Rússia) de 0,2%, compatível com a quase estagnação populacional.

Neste período, os dez países com mais altos crescimentos do Produto Interno Bruto (PIB) per capita foram, por ordem: China, Mianmar, Azerbaijão, Etiópia, Camboja, Laos, Vietnã, Índia, Tajiquistão e Ruanda; oito asiáticos e dois africanos.

Provavelmente, a África passará a ocupar, progressivamente, melhores posições no consumo de energia e no PIB per capita.

Examinemos as fontes primárias de energia. As maiores reservas de petróleo encontram-se no Oriente Médio (835,9 bilhões de barris), nas Américas (566,3 bilhões de barris, dos quais 303,8 somente na Venezuela), 146,2 bilhões na CEI (107,8 bi na Rússia), 125,1 bilhões na África, 45,2 bilhões na Ásia e Pacífico e apenas 13,6 bilhões de barris na Europa (incluído o Mar do Norte). Estas reservas são suficientes para atender o mesmo nível do consumo de 2010 por 53,5 anos (RP=53,5).

A produção de petróleo estava declinando em 2020 (comparada com 2019) na África, situando-se em 6.865 mil barris por dia (bpd). Esta queda, com percentuais diferentes, foi generalizada em todo mundo, em parte pela recessão econômica e pela Covid e em parte pela substituição por hidroeletricidade e fontes potencialmente renováveis.

No entanto, com o crescimento demográfico previsto, a situação africana tende a reverter, e outras áreas do mundo poderão ficar com energia mais cara ou mais difícil.

O Brasil se encontra em posição privilegiada com o pré-sal e com a tecnologia de ponta da qual a Petrobrás é detentora. Será necessário, no entanto, reverter a posição “de mercado” pela posição “nacional”.

A este respeito é conveniente examinar a distribuição espacial dos paraísos fiscais, que subornam e obrigam a opção pelo “mercado”, ou seja, pelo interesse dos capitais apátridas.

Cabe também observar que os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) têm sido bastante prejudicados na opção pelo “mercado”, como fica evidente nas estatísticas econômicas, sociais, e nas manifestações políticas ocorridas nos Estados Unidos da América (EUA) e na Europa Ocidental. Ou seja, o “mercado” é também prejudicial para as soluções nacionais, mesmo em países capitalistas avançados, uma vez que o próprio “avanço” deles não se dá em função de mecanismos de mercado, mas de projetos de Estado, de longo prazo, partilhados por amplos setores sociais.

Os territórios da Commonwealth Britânica são os que concentram maior quantidade de paraísos fiscais, 32, apenas um no continente africano (Ilhas Seychelles). Isso não causa surpresa, pois estes capitais seguem “normas e princípios” oriundos do sistema anglo-israelita.

Os dez paraísos em territórios estadunidenses, os quatro em territórios neerlandeses e os dois franceses não registram paraísos fiscais na África. Também naqueles estabelecidos em países considerados formalmente independentes, os africanos têm menor número de paraísos fiscais: Reino de Essuatíni (Suazilândia), Gâmbia, Libéria, Djibuti e as Ilhas Maurício. Esta é uma situação que pode ajudar à África a encontrar soluções nacionais para seus problemas em vez de se submeter ao liberalismo dos “mercados”.

Em 2016, a Embrapa calculou a área cultivada do Brasil em 65.913.738 hectares (7,8%), muito próximo do cálculo da Nasa para nossas áreas de lavouras, 63.994.479 hectares (7,6%).

Evaristo de Miranda, doutor em ecologia, em Potência Agrícola e Ambiental – Áreas Cultivadas no Brasil e no Mundo (acessado em 5/1/2022), esclarece: “O mundo tem 1,87 bilhão de hectares de lavouras. A população mundial chegou a 7,6 bilhões em 2017. Cada hectare (10 mil m²), em média, alimentaria quatro pessoas. Mas a produtividade varia muito, em função de solos, clima, tecnologia empregada e tipo e qualidade dos cultivos produzidos. Disso decorrem grandes diferenças entre os desempenhos agrícolas dos países”.

E prossegue: “As maiores extensões cultivadas estão na Índia (179,8 milhões de hectares), nos EUA (167,8 milhões de hectares), na China (165,2 milhões de hectares) e na Rússia (155,8 milhões de hectares)”, que somam 36% da área cultivada do planeta. “O Brasil ocupa o quinto lugar, seguido pelo Canadá, Argentina, Indonésia, Austrália e México. As áreas desses países representam as seguintes porcentagens do total cultivado no Planeta: Índia – 9,60%; EUA – 8,96%; China – 8,82%; Rússia – 8,32%; Brasil – 3,42%; totaliza-se, com estes valores, quase 40%”.

“A maior parte dos países utiliza 20% a 30% do território com agricultura. Os da União Europeia usam entre 45% e 65%. Os EUA, 18,3%; a China, 17,7%; e a Índia, 60,5%. Os agricultores brasileiros cultivam apenas 7,6% do seu País, com muita tecnologia tropical e profissionalismo. E isso já faz dele uma potência mundial do agronegócio”. O Brasil poderia expandir sua área com agricultura sem que houvesse dano ambiental.

Assim, nosso País poderia abastecer a África no aumento da demanda por alimentos e energia com a prevista explosão populacional. E, para isso, encontraria a situação política muito mais favorável do que a atual existente com a Ásia.

 

Felipe Maruf Quintas é doutorando em ciência política.

Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.

Os autores agradecem os comentários do doutor em economia Gustavo Galvão à versão inicial do artigo.

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