Novo sistema de colonialismo

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 17:27 - 7 de ago de 2020

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O jornal britânico The Guardian relatou o pensamento do coronel Kadafi, que tinha preanunciado o perigo de invasão da Líbia, por parte de potências estrangeiras: “A profecia de Kadafi se torna realidade, enquanto potências estrangeiras lutam pelo petróleo da Líbia”.

De fato, o coronel tinha afirmado que existiria uma conspiração contra a Líbia, objetivando criar um novo sistema de colonialismo para conquistar os poços de petróleo. “Tudo isso”, afirmava, “será impossível, impossível, pois combateremos até o último homem e a última mulher para defender a Líbia, do Norte ao Sul e do Leste ao Oeste.”

Nove anos mais tarde, este triste cenário se tornou, para o povo líbio, a triste realidade de cada dia. Aqueles que estão mexendo os fios dos acontecimentos, no país norte-africano, alimentando as facções do general rebelde, Khalifa Haftar, e do presidente eleito, Fayez al-Sarraj, são Emmanuel Macron, Recep Tayip Erdogan, Vladimir Putin e Abdek Fatah al Sisi e seus respetivos países: França, Turquia, Rússia e Egito.

Uma das razões declaradas, sobretudo pelas instituições progressistas europeias, denunciava a necessidade da intervenção, na Líbia, por causa das gravíssimas violações dos direitos humanos praticadas pela família do ditador Kadafi. Este sinal de alerta foi suficiente para convencer a pública opinião internacional sobre a necessidade de uma intervenção militar, para permitir ao povo líbio de se liberar do regime que perdurava há mais de 40 anos. Entretanto, o que aconteceu depois da intervenção internacional? O território líbio se transformou em um acúmulo de ruínas, com a destruição de milhares de famílias.

Os responsáveis por essa aventura militar não estão minimamente interessados no bem da população líbia. Ao contrário, o que mais lhes interessa são as vantagens econômicas ligadas à conquista de um poço petrolífero a ser acrescentado, em relação aos rivais internacionais. Trata-se de uma guerra de desgaste, feita de pequenos avanços e recuos rápidos, que acontecem nas proximidades de alguma jazida de ouro negro, o verdadeiro tesouro da Líbia, que Kadafi tentou proteger da invasão estrangeira.

A profecia do antigo ditador logo tornou-se a realidade cotidiana, atual, de cada cidadão líbio, que mora nas cidades de Trípoli, Sirte ou Misurata.

Considerando os falsos motivos que levaram os responsáveis desta situação a intervir, podemos avaliar o coronel Kadafi, apenas, como um inócuo cordeirinho. A guerra que não acaba, a criminalidade urbana, em contínuo aumento, o medo que, de repente, uma bomba possa cair sobre a própria cabeça, lançada por um meio militar estrangeiro, constituem a triste realidade.

Concluindo, só nos resta evidenciar a grandíssima mentira que, ao longo de muitos anos, nos foi proporcionada, que apresentava a deposição de Kadafi como o fim de um ditador, odiado pela população. A verdade, porém, é muito diferente. Afinal, a morte do coronel senha o epílogo de um ditador que, apesar de usar os métodos da ditadura, lutou até o fim para tornar grande, aos olhos do mundo, o seu próprio país, fazendo o possível para salvá-lo da invasão estrangeira, pagando, por isso, com sua própria vida.

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

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