Novo tenentismo

A aprovação pela Comissão de Economia (CAE) do Senado da federalização da dívida R$ 514,9 milhões de Santa Catarina com seu instituto de previdência significou mais um passo de um movimento mais geral contra a refundação da nova República Velha, inaugurada pela gestão FH. Essa decisão – que deverá ser estendida ao conjunto dos estados – se soma a dois importantes atos do Congresso.
No último dia 3, a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado aprovou projeto substitutivo do senador Roberto Requião (PMDB-PR), permitindo nova renegociação das dívidas dos estados, reduzindo o comprometimento máximo da receita líquida estadual de 13% para 5% no pagamento das dívidas e fixando em 6% os juros anuais sobre os débitos. Na última terça-feira, o senador Saturnino Braga (PSB-RJ) apresentou projeto, que batizou de Plano Brady tupiniquim, reduzindo o estoque da dívida de estados e municípios em 40%.
Independentemente do grau de consciência de seus participantes, esses movimentos, aliados às manifestações de caminhoneiros e ruralistas e a marcha da oposição a Brasília, no próximo dia 26, revelam de forma significativa o despertar do país real contra a desastrosa administração dos yuppies virtuais, que arrebentaram o Brasil
A nova República Velha, fundada por FH, se caracteriza pelas piores semelhanças da sua antecessora – fisiologismo, impunidade, coronelismo e opção preferencial pelo papelório em detrimento da produção. Em 1930, o movimento comandado por Vargas foi fundamental para voltar a prover o Brasil de um projeto que o tirasse do caos e da ingovernabilidade. O primeiro passo para esse projeto vingar foi remover os obstáculos caquéticos que impediam o país de seguir sua vocação para o crescimento. A mobilização que se inicia, e sinaliza ser irreversível, revela que a nação começa a dar a partida para um novo tenentismo.

Quem paga a conta
Apesar de lacônico, o depoimento à CPI dos Bancos do ex-presidente do Banco Central Chico Lopes produziu pelo menos uma eloqüente revelação sobre como opera a ditadura de tecnocratas arrogantes. Ao sustentar sua versão de que não conversara com o presidente FH e com o ministro Pedro Malan sobre a generosa ajuda aos Bancos Marka e FonteCindam, Lopes saiu-se com essa: “Na prática eu operava um banco central independente e tomei a decisão.” Ou seja, para a plutocracia econômica, a independência do BC fica restrita ao poder para escolher os vencedores. Ao contribuinte, resta bancar os prejuízos causados pelas desastrosas decisões dos sábios.

Fernandinhos
Alguns analistas se disseram espantados com o fato de a rejeição ao presidente FH (59%) superar à de Collor, 57%  às vésperas do impeachment. Para os surpresos, a explicação é simples: Collor governou durante pouco menos de dois anos, enquanto FH se aproxima do quinto ano de governo, aplicando a mesma desastrosa política de seu sucessor.

Sem maquiagem
Investir e produzir no País, ao invés de se limitar a maquiar o que vem de fora, é o melhor negócio. Quem acabou de comprovar isso foi a Giroflex, fabricante de móveis para escritório de capital 100% nacional, que nos últimos três anos importou US$ 6 milhões de equipamentos, ferramentas e maquinário. Um acidente na Giroflex Suíça – alagamento da fábrica pelo rompimento de um dique no Rio Reno – provocou a interrupção da fabricação de componentes para honrar um pedido de 13 mil cadeiras. Pedindo socorro para a Giroflex Brasil, os suíços foram atendidos e conseguiram entregar a mercadoria a tempo. A companhia brasileira participa de um grupo de 16 empresas do mundo todo, num centro de desenvolvimento de produto na Suíça, dedicado ao estudo de novos materiais, conceito de ergonomia e design.

Pequeno fôlego
O Banco Central afrouxou – ainda que muito timidamente – o garrote dos compulsórios que os bancos são obrigados a recolher ao BC. As instituições financeiras foram autorizadas a aplicar pagando o mesmo rendimento da poupança os depósitos à vista dos clientes. Em troca da isenção da CPMF sobre essas aplicações, os bancos não recolhem compulsórios sobre a parte efetivamente aplicada, já que a movimentação sobre esses recursos continua livre de qualquer carência.

Quem?
Agora que se deu conta dos estragos na popularidade do governo causados pela política econômica, o senador Antônio Carlos Magalhães poderia esclarecer uma dúvida dos brasileiros: quem foi mesmo que apoiou e fez aprovar no Congresso todas as exigência dos “burocratas que querem seguir o FMI”?

Choque
Defensor do programa de privatização em público, o presidente de Furnas, Luiz Carlos Santos, é bem  mais cético quando está com as portas do gabinete fechadas. Um interlocutor ouviu Santos criticar o modelo de venda do setor elétrico, por discordar da separação dos setores de geração e distribuição.

Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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