Números da paz

Em artigo publicado na última quarta-feira neste MM, aqui ao lado, o representante da Unesco no Brasil, Jorge Werthein, comemorou o saldo da Campanha de Desarmamento. Werthein citou, não só o número de armas recolhidas – 240 mil – como fez uma correlação entre esse “sucesso” e a queda em índices de homicídio. Citou especificamente São Paulo e Paraná. Como diz um economista, assessor deste jornal, “torture os números que eles dirão o que você quer”. Claro que não foi essa a intenção de um pacifista como Werthein, que deseja ampliar o programa implantado no Brasil para os demais países da América Latina – da mesma forma que o Banco Mundial (Bird) patrocina reformas nos judiciários em toda a região.
Uma análise mais detalhada dos números citados no artigo – e que vêm sendo repetidos pelos defensores da campanha – pode levar a outras apropriações. Em São Paulo, a entrega das armas teria permitido “colher” uma queda de 18% no número de homicídios. Noves fora, as estatísticas da Secretaria de Segurança de São Paulo sobre este item serem, no mínimo, pouco ortodoxas – como desnudou recente matéria da Folha – e que nem todos os homicídios são realizados com armas de fogo, nada permite deduzir que a importante queda se deveu à Campanha de Desarmamento.
A entrega de armas pela população de bem começou em 15 de julho do ano passado. Portanto, no terceiro e quarto trimestres de 2004 as quedas nos números de homicídios foram mais acentuadas, certo? Nãnãnãnã. Ao comparar o quatro trimestre de 2004 com igual período de 2003, obtém-se a tal queda de 18%; mas no comparativo do primeiro trimestre do ano passado com os primeiros três meses de 2003, a queda no número de homicídios fora de 24%. Se compararmos os segundos trimestres (2004 e 2003), obteremos os mesmos 18% conseguidos após a Campanha do Desarmamento.
Outros crimes também ligados a armas seguem a mesma trajetória. Tentativa de homicídio, por exemplo: os números praticamente não se alteram ao longo de 2004, embora muito menores que em 2003 – ano em que houve alta expressiva. Latrocínio (roubo com morte): redução da queda que vinha acontecendo desde 2002. O número de armas apreendidas caiu, mas também diminuiu o número de prisões efetuadas – o que pode indicar ineficiência da polícia ou refletir a queda no número de crimes.
Nada, portanto, que autorize a conclusão de que a entrega de armas de fogo foi a responsável pela redução do número de crimes. Ou, nas palavras da própria Secretaria de Segurança paulista, trata-se de “tendência verificada a partir de 2001” (como mostra o gráfico acima, com números a partir de 2002). Outra explicação, menos fluída, para o aumento de crimes em 2003 e a redução em 2004 pode ser buscada na tímida retomada do crescimento (como bem relaciona a outra coluna aqui ao lado) do que pelo desarmamento da população.

Ziriguidum
Que, pelo menos no Carnaval, seja vã a tentativa do bloco do ajuste fiscal de confiscar a alegria, o bom humor e a disposição dos brasileiros para a vida. E que a folia sirva ainda para renovar as energias e as esperanças. Pois persistir é preciso.

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Marcos de Oliveira
Diretor de Redação do Monitor Mercantil

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