O apoio ao estudo sobre as doenças negligenciadas

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Há muito que se reconhece a importância das doenças parasitárias no mundo e no Brasil. A própria ciência médica brasileira se notabilizou, no final do século XIX e início do século XX, por estudos clássicos como os Otto Wucher e Pirajá da Silva, na Bahia, onde descreveram aspectos fundamentais do ciclo biológico de um dos agentes da filariose linfática (Wuchereria bancrofti) e da esquistossomose, respectivamente. Posteriormente, Alfonso Splendore em São Paulo e Carlos Chagas no Rio de Janeiro, descreveram o Toxoplasma gondii e o Trypanosoma cruzi, agentes etiológicos da toxoplasmose e da doença de Chagas, respectivamente. Por muitos anos, a atividade de pesquisa científica realizada no Brasil na área das doenças parasitárias foi realizada com poucos recursos e em poucas instituições. Somente no período de 1976 a 1986 houve um apoio de maior porte a esta área por parte do governo federal com a criação do Programa Integrado de Doenças Endêmicas (PIDE), responsável por uma ampliação significativa das pesquisas em doenças de Chagas, leishmanioses, malária e esquistossomose, levando a ciência brasileira a uma posição de destaque internacional neste campo.
Ainda na década de setenta do século passado ficou claro que as doenças causadas por parasitas despertariam pouco interesse das grandes empresas farmacêuticas. Afinal, são doenças que afetam populações com pouco poder aquisitivo. Surgiu, assim, o conceito de “doença negligenciada” para designar um conjunto de doenças que iriam obrigatoriamente necessitar de um forte apoio governamental para que avanços pudessem ocorrer tanto no diagnóstico, como na prevenção ou tratamento destas doenças. Como consequência, a Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou um programa de apoio à área que desempenhou papel relevante por muitos anos, mas que foi perdendo fôlego gradualmente. Felizmente, novos atores como a Fundação Melinda e Bill Gates, os “Médicos sem Fronteiras” e a organização não governamental “DNDi” vem apoiando a área, sobretudo no que se refere a estudos da malária.
Consciente da necessidade de voltarmos a ter um apoio específico a área das doenças negligenciadas, a Academia Brasileira de Ciências decidiu criar, em 2010, um grupo de trabalho que se dedicou a analisar as várias doenças negligenciadas de importância no país e para cada uma delas identificar tópicos relevantes que deveriam ser objeto de novas pesquisas. O documento resultante do trabalho da comissão foi publicado, com o apoio da Fundação Conrad Wessel e enviado para as principais autoridades e instituições que atuam nas áreas de pesquisa científica e de saúde. Foram identificadas como importantes um conjunto de infecções causadas por helmintos, protozoários, fungos, clamídias, riquetsias, bactérias, vírus e toxinas de animais peçonhentos. Em grande parte como consequência deste trabalho, vários órgãos de financiamento lançaram ao longo de 2011 e estão lançando em 2012 editais convocando a comunidade científica brasileira a desenvolver projetos na área das doenças negligenciadas. Merece destaque o programa de parasitologia da CAPES, o programa de doenças negligenciada e doenças  reemergentes da FAPERJ e um novo edital sobre doenças negligenciadas a ser lançado nas próximas semanas pelo Departamento de Ciência e Tecnologia (DECIT) da Secretaria de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde.  Com todas estas iniciativas muito provavelmente teremos avanços significativos nos conhecimentos sobre estas importantes doenças de países em desenvolvimento e a Ciência brasileira reafirmará sua posição de liderança nesta área.

Wanderley de Souza
Professor Titular da UFRJ. Diretor do Inmetro. Membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina

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