O artesanato é nosso

A Primeira Guerra Mundial despertou o interesse do mundo pelo petróleo. A modernização dos exércitos, a criação de forças aéreas e a substituição do carvão nas esquadras criaram novos problemas para os estrategistas militares, aumentando intensamente a procura por este poderoso recurso energético.
Enquanto isso, no Brasil, especialistas internacionais produziam relatórios francamente pessimistas sobre a possibilidade de se encontrar petróleo em nosso subsolo. Segundo eles, muito mais conveniente e promissor para o país seria investir as poupanças internas na importação do petróleo das Arábias.
A indisposição do governo e dos empresários locais para enfrentar os riscos do investimento na exploração petrolífera atrasaram tanto quanto as carências técnicas e financeiras a entrada do Brasil na corrida pelo petróleo. De que adiantaria preocupar-se com a energia se pouca indústria havia para consumí-la? As necessidades correntes poderiam ser satisfeitas com suprimentos de carvão e força hidroelétrica. Quanto ao petróleo, o mais seguro seria importá-lo.
Mas a situação foi sendo, aos poucos, revertida. O movimento “O Petróleo é Nosso” e o aumento, no início da década de 70, do preço médio do “ouro negro” importado pelo Brasil de US$ 3,66 para US$ 12 por barril geraram uma total sinergia de objetivos econômicos e políticos: ou íamos buscar nas profundezas o petróleo, ou íamos para o fundo do poço.
Atualmente, a produção brasileira de petróleo supera a marca de 1 milhão de barris por dia, o que só foi possível graças à intervenção científica e tecnológica da Petrobras, cujos investimentos na pesquisa de novos processos de exploração em águas profundas elevaram-se a mais de US$ 200 milhões por ano. Portanto, uma realidade transformada pela mudança de ideal, por uma correção de rumos.
É em busca de uma correção de rumos que se evoca aqui a história do petróleo brasileiro. Olhando para trás, pretendemos apontar caminhos à solução de um problema que está bem diante de nós: o desemprego.
Nos últimos 25 anos, o número de pessoas ocupadas na chamada economia informal no Estado do Rio de Janeiro cresceu em proporção superior ao aumento do preço do petróleo que importávamos na década de 70.
O custo para a produção de “1 barril” de emprego nos moldes da indústria tecnológica moderna está entre US$ 200 e US$ 300 mil dólares por unidade de emprego, como demonstram os investimentos da fábrica da Peugeot, no Rio de Janeiro, que oferecerá 2.500 empregos.
Além da criação precária e insuficiente de empregos frente ao crescimento vegetativo da população, os processos atuais de produção industrial e globalização financeira vêm causando danos irreversíveis à natureza do meio ambiente e do homem, principalmente em países em desenvolvimento, como o Brasil. A criminalidade, o vandalismo, a poluição, o uso de tóxicos e o colapso mental incrementam, a cada dia, as estatísticas modernas da desilusão.
No entanto, sob as águas profundas de nosso estado encontra-se uma importante fonte de energia na criação de empregos: o artesanato e as profissões domésticas. Cerca de 600 mil fluminenses vivem de suas artes e ofícios, compondo uma importante parcela da economia informal do estado. E o parâmetro de informalidade no trabalho é particularmente significativo no Rio de Janeiro, abarcando aproximadamente 50% da população economicamente ativa do estado, segundo dados estimativos a partir da Pesquisa Mensal de Empregos – PME/IBGE.
Estudos recentes dão conta de que turistas de todo o mundo buscam roteiros onde possam explorar relações inter-humanas, mescladas com novas e originais culturas. Ao contrário do pessimismo com relação ao nosso petróleo, neste terreno nossa geologia é reconhecidamente rica. O que falta é exatamente a coragem e a determinação de explorar as profundezas.
Para fomentar essa coragem, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado do Rio de Janeiro está lançando o movimento “O Artesanato é Nosso”. O objetivo é reeditar a fé e a esperança em nossa riqueza cultural, empreendendo um mergulho às profundezas de nossa cultura, em busca da geração de trabalho e renda.
Uma ampla rede de comercialização para os produtos confeccionados por nossos artistas de diversas áreas pode ser um meio inesgotável de riqueza. Investir nesta descoberta é o que pretendemos. Criar um catálogo de produtos artesanais do Rio, estendendo a produção às comunidades carentes. Espalhar representantes de vendas em todo o Brasil e no exterior. Implantar uma rede de franquias sociais, colocando o artesanato fluminense nos grandes pontos turísticos, shopping centers e saguões de entidades públicas de todo o estado.
O marco inicial de nosso movimento acontecerá nesta segunda-feira (24/5), às 18 horas, com a inauguração do Ser Atelier, um espaço turístico-cultural inteiramente dedicado aos artesãos e artistas fluminenses, no subsolo da Rua da Ajuda nº 5, no centro do Rio de Janeiro.
Com tais iniciativas, pretendemos elevar em R$ 100 a renda média mensal dos 600 mil “artesãos” do estado do Rio, gerando um impacto econômico anual de R$ 720 milhões, quase equivalente aos investimentos de uma unidade de produção automobilística por ano no estado.
É essa a correção de rumos que propomos. Investir no micro e pequeno empreendedor é, também, investir em capital humano, arte e sensibilidade. Explorar as profundezas de nossa alma e de lá tirar uma forma mais digna de sobrevivência.

Alfredo Laufer
Subsecretário de Turismo do Estado do Rio de Janeiro.

Fernando Galvão de Almeida
Economista da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo do Estado do Rio de Janeiro.

Renata Petrocelli
Mestranda em Ciência da Arte na UFF e atriz.

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