‘O boi ainda dá bode...’

Por que, nos últimos anos, a quantidade de bois aumentou no Pantanal e os incêndios não diminuíram?

Empresa Cidadã / 20:03 - 13 de out de 2020

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Chico Buarque de Holanda (19 de junho de 1944; Rio de Janeiro/RJ; 76 anos), vencedor do Prêmio Camões, edição 2019, recebe aqui a homenagem da coluna Empresa-Cidadã, a ele dedicada, ainda que tardiamente, pela conquista. Juntamente com Ruy Guerra (22 de agosto de 1931; Maputo/ Moçambique; idade 89 anos), forma a dupla autora da irreverente e profética marchinha Boi Voador não Pode.

O Prêmio Camões foi instituído pelos governos do Brasil e de Portugal, em 1988, para homenagear quem tenha contribuído para a valorização do patrimônio lusófano, literário e cultural. Chico Buarque de Holanda junta-se assim a nomes como João Cabral de Melo Neto (Brasil; 1990), Rachel de Queiroz (Brasil; 1993), Jorge Amado (Brasil; 1994), Jose Saramago (Portugal; 1995), Sofia de Mello Breyner (Portugal; 1999), Maria Velho da Costa (Portugal; 2002), Lygia FagundesTelles (Brasil; 2005), João Ubaldo Ribeiro (Brasil; 2008), Armênio Vieira (Cabo Verde; 2009) e Germano Almeida (Cabo Verde; 2018).

 

Boi bombeiro’

Pois não é que, depois do Boi Voador, a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias (6 de julho de 1954; Campo Grande/MS), carinhosamente apelidada de “menina veneno”, supostamente por sua liberalidade com relação ao uso, no Brasil, de agrotóxicos vetados na agricultura europeia, revela mais uma aptidão para o gado no Pantanal – o boi bombeiro. Ela, que também é engenheira agrônoma, empresária e deputada federal, afirmou, em rede nacional que o boi ingere a massa orgânica, potencial comburente dos incêndios, fazendo uma ação profilática no campo. E acrescentou dizendo que mais bois no pasto teriam impedido que se chegasse a tamanha quantidade de incêndios no pantanal.

Como não sou nada rural, recolho-me às minhas dúvidas urbanas. Primeira, por que a aritmética elementar não resiste a uma regra de três simples: nos últimos anos, a quantidade de bois aumentou no Pantanal e os incêndios não diminuíram. Será que, além da Amazônia, o Leonardo DiCaprio tem andado também pelo Pantanal?

Segunda dúvida, considerando o gás metano exalado pelo regime digestivo dos ruminantes e o efeito deletério que este gás tem para o aquecimento terrestre, mais bois não trariam este aspecto nocivo a considerar? Ou seja, a flatulência decorrente do incremento do rebanho não daria uma turbinada indesejável no aquecimento?

 

Programa da ONU recebe Nobel da Paz

O Programa Mundial de Alimentos (WFP), agência da Organização das Nações Unidas, fundado em 1961, como uma subsidiária da FAO para assistência alimentar, foi declarado Prêmio Nobel da Paz, em 2020. Em recado com endereço definido, Berit Reiss-Andersen (11 de julho de 1954; Drobrak/Noruega; 66 anos), presidente do Conselho Norueguês do Nobel, declarou que a necessidade de solidariedade internacional e cooperação multilateral é mais evidente do que nunca. Para decidir o vencedor do prêmio, foi considerada a cooperação multilateral necessária para combater a fome. “Aparentemente, há uma falta de respeito ao multilateralismo no passado recente”, acrescentou Reiss-Andersen.

O prêmio Nobel da Paz de 2020 foi concedido ao Programa Mundial de Alimentos da ONU, que combate a fome no mundo. Segundo a Academia Sueca, o programa foi premiado “pelos seus esforços para combater a fome, pela sua contribuição para melhorar as condições para a paz em áreas afetadas por conflitos e por atuar como força motriz nos esforços para prevenir o uso da fome como arma de guerra e conflito”. A organização atua em situações agudas de emergência em países afetados por conflitos, onde há mais risco de desnutrição e também em estratégias de prevenção da insegurança alimentar.

 

O Prêmio Nobel que ‘non ecziste’

Dois norte-americanos da Universidade de Stanford foram agraciados na segunda-feira, 12 (agorinha mesmo) com uma bolsa equivalente a R$ 6,3 milhões cada. São eles Paul R. Milfrom, 72 anos, e Robert B. Wilson, de 83 anos, professores na Universidade Stanford, premiados com o “Nobel de Economia” por seus trabalhos na melhoria da teoria e invenções de novos formatos de leilões.

A contribuição deles parte do princípio de que há relações assimétricas entre duas partes (chamados “players”). Considera que a informação é incompleta e que o custo para obtê-la deve ser reduzido, para evitar risco moral na transação (informação oculta, seleção adversa ou ônus com sinalização, como certificações e outros). Mais do que relações entre duas partes, os trabalhos de Paul Milfrom e Robert Wilson abrangem séries estudadas de leilões, minimizando a chamada “maldição do vencedor”, ante uma escalada de lances.

O “Prêmio Nobel de Economia” é um prêmio bastardo, oficialmente chamado de Prêmio do Banco da Suécia em Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel; foi criado em 1968 e concedido pela primeira vez em 1969. A homenagem não fazia parte do grupo original de cinco prêmios consignados pelo testamento do industrialista sueco Alfred Nobel, criador da dinamite. Os outros prêmios Nobel (Medicina, Física, Química, Literatura e Paz) foram entregues pela primeira vez em 1901.

O “prêmio bastardo” foi atribuído pela primeira vez em 1969. Desde então, só foram laureadas duas mulheres e dois indianos. Todos os demais são homens e brancos. Diz bem o que é a Ciência Econômica.

 

Paulo Márcio de Mello é professor aposentado da Universidade do Estado do RJ (Uerj).

paulomm@paulomm.pro.br

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