Conversamos sobre o comércio exterior brasileiro com João Costa Pereira, especialista de produtos do Ouribank.
Qual a sua avaliação sobre o desempenho do comércio exterior brasileiro nos últimos anos?
O comércio exterior brasileiro segue a tendência de crescimento acima do PIB mundial da mesma forma que o comércio internacional, sendo que o Brasil cresceu 55% desde 2017. Espera-se que o país continue assim, pois como os países estão cada vez mais interconectados, a abertura de fronteiras facilita o comércio exterior.
Nós temos visto sucessivos esforços para a quebra de barreiras mercantis e para a formalização de acordos comerciais, além do progresso gigante da digitalização e da padronização da documentação e do modo como se faz comércio exterior. Por exemplo, eu estou falando contigo por videoconferência da mesma forma que falo com chineses. Como a proximidade das pessoas é muito grande, isso faz com que seja mais fácil crescer em volume de negócios, encontrar novos clientes e fazer com que o meu produto seja aceito em mais mercados.
Por maior que seja o mercado brasileiro, eu sempre digo que o resto do mundo é muito maior. A exploração de novos mercados, de ciclos econômicos e o desvio de cadeias de fornecimento é uma tendência natural dos empresários nos dias de hoje. Como um exportador vai diversificar os seus mercados, se houver uma crise nos Estados Unidos, ele vai vender mais para a China, e caso haja uma crise na China, ele vai vender mais para os Estados Unidos, o que mitiga os seus riscos.
A única questão do comércio exterior brasileiro é que ele continua muito focado no agro e nas indústrias extrativas, embora fosse muito desejável o crescimento da participação dos manufaturados e de bens de consumo. Não é que o Brasil tenha que se transformar em uma China, mas falta o lado dos produtos de valor agregado. Um exemplo, que é dado muitas vezes, é que o Brasil exporta sacas de café, que não possuem um grande valor agregado, e importa um valor absurdo de cápsulas de café da Suíça, que possuem um alto valor agregado. O Brasil precisa melhorar muito a participação de manufaturados com valor agregado nas suas exportações.
O desempenho do comércio exterior tem mais relação com fatores econômicos internos ou externos?
Eu vejo sempre pelo lado da procura do mercado internacional. É claro que quando olhamos um ponto micro, como se a exportação da soja foi boa ou não, isso depende da safra, mas no longo prazo o produtor vai se adaptar ao mercado internacional, ou seja, o principal motor é o crescimento do mercado internacional. Como já disse, há muitos anos que vemos o comércio internacional crescendo acima do PIB mundial. Essa não é uma tendência deste ano ou do ano passado, mas uma tendência de longo prazo que está se intensificando.
Qual a sua avaliação sobre o desempenho do real frente ao dólar?
Como comércio exterior, o que eu vejo é que o desempenho do real é muito afetado por volatilidades. Qualquer espirro ou constipação que aconteça, o real sobe, desce e volta a mexer no dia seguinte. Como estamos no Brasil, nós falamos muito sobre o dólar subir e descer, mas, na verdade, é o real que está mexendo. Nós não podemos nos esquecer disso.
Como há uma grande diferença entre as taxas de juros americana e brasileira, isso se traduz numa tendência de desvalorização do real no longo prazo e de volatilidade no curto. Os economistas apresentam estimativas de quanto o câmbio vai estar no mês que vem, daqui a três meses ou no final do ano, só que, na verdade, ninguém sabe disso. Os empresários deveriam tomar isso como um dado e se proteger com a utilização de instrumentos de proteção de risco de câmbio que existem no mercado.
Muitas vezes, eu falo com empresários que não estão fechando o câmbio de uma importação ou de uma exportação, pois acham que esta alta do dólar é transitória e que a situação vai estar melhor daqui a dois meses. Eu sempre digo que isso é um erro, pois o que sabemos do desempenho do real é que ele é volátil e incerto, o que faz com que a proteção do risco cambial se torne fundamental. O negócio dos empresários não é câmbio, mas vender suas mercadorias com uma margem de lucro que seja interessante.
Quando eu cheguei no Brasil há 13 anos, o dólar estava a R$ 1,60. Na época, eu via pessoas, muito sábias e com muitos anos de experiência no Brasil, me dizendo que o dólar nunca chegaria a R$ 2. Isso era um achismo, da mesma forma que se aparecer alguém dizendo que o dólar nunca vai chegar a R$ 7. Não sei, pois o que temos de certeza do real é a sua incerteza.
Considerando o atual movimento de desvalorização do real frente ao dólar, que é mais acentuado que o movimento de outras moedas, como os empresários brasileiros podem se proteger de um movimento como esse?
Em termos gerais, os hedges são os instrumentos que matam o risco de câmbio. Para isso, existe a trava de câmbio e o NDF (Non-Deliverable Forward). Por exemplo, se um empresário importa uma mercadoria, que será paga em dólar daqui a 60 dias, mas que será vendida internamente em reais, ele sabe o seu valor de venda, mas não sabe quanto ela vai custar, pois os dólares serão comprados daqui a 60 dias. Esses produtos de proteção fixam hoje o câmbio para quando a obrigação tiver que ser cumprida no futuro.
Na exportação é a mesma coisa. O empresário sabe que vai ter uma exportação e que o seu pagamento será recebido daqui a 60 dias. Como ele sabe quanto a mercadoria custou em reais, mas não sabe quanto vai receber em dólar, ele pode fixar hoje quanto vai receber, garantindo, dessa forma, o seu lucro em reais. Aqui pouco importa se o empresário poderia ganhar muito mais, pois ele também poderia ter perdido dinheiro com o negócio. Se esse empresário aceita a roleta do câmbio, ele passa a especular. Fazendo esses produtos de hedge, seja a trava, seja o NDF, ele elimina o risco do câmbio, já que o seu negócio é vender a sua mercadoria.
A procura desses produtos é um sinal de maturidade dos empresários. Quando eu cheguei ao Brasil, eu sentia muito mais imaturidade nos empresários, que tinham receio desses produtos. Para eles, isso era uma bobagem, pois custava muito caro fixar o câmbio. Não importa se é caro ou barato, pois o que é preciso é segurar a margem do produto. Essa mudança de mentalidade foi muito importante, pois muitas empresas quebraram por acharem que o dólar ia melhorar no futuro, quando a transação teria que ser liquidada, e não fixaram o câmbio.
Tecnicamente, existem vantagens em se adotar moedas diferentes do dólar no comércio internacional?
Com certeza, pois essa é uma tendência irreversível, tanto que a apoiamos oferecendo produtos, que já existiam em dólar, em outras moedas. Nós já fazemos pagamentos em yuans, e vemos os nossos clientes, que importam e exportam para a China, cotando seus compromissos na moeda chinesa. Essa é uma tendência que vamos ver com outras moedas, mas isso depende muito da força dos seus governos.
Por exemplo, o euro não é tão utilizado, mas é uma moeda que já se impôs. É tão normal comercializar com a Europa em euro que é curioso quando vemos alguém querendo utilizar o dólar. A China está fazendo um grande esforço para impor e fazer com que o yuan seja aceito, de forma a que ele não seja uma moeda não comercializável e exótica. A expectativa é que essa tendência continue crescendo, inclusive aqui na América do Sul, já que eu imagino haver negócios em pesos ou reais com alguma naturalidade.
O Brasil está acompanhando todas as mudanças operacionais que estão ocorrendo no comércio internacional?
Há muitos instrumentos de apoio ao comércio internacional que não são encontrados aqui. O Brasil utiliza padrões de financiamento que são, de alguma forma, antiquados, e que vem do fato do país exportar, principalmente, produtos do agro e da indústria extrativa, que continuam utilizando meios tradicionais de comércio. A China, que exporta bens de consumo e eletrônicos, é muito mais dinâmica em inovação e em formas de fazer negócios.
O Brasil é muito fixado em produtos de financiamento puros, como o ACC (Adiantamento de Contrato de Câmbio), ACE (Adiantamento sobre Cambiais Entregues) ou Finimp (Financiamento à Importação), só que quando um pequeno empresário vai se aventurar fora das fronteiras brasileiras, ele precisa de instrumentos que analisem, deem crédito e o protejam do risco de crédito dos seus clientes no exterior. Por exemplo, vender para uma empresa europeia não é garantia de qualidade, pois lá também existem empresas que não pagam ou que não conseguem pagar porque quebraram.
A solução, que vemos muitas vezes, é o envio da mercadoria após a realização antecipada do pagamento. Trata-se de uma boa lógica, mas não se vai muito longe com ela quando se quer conquistar mercados internacionais, pois, para vender, principalmente bens manufaturados e bens de consumo, é preciso dar crédito ao cliente lá fora.
Comparado ao resto do mundo, o Brasil está muito atrás em produtos de cobertura de risco de crédito à exportação e de cobrança internacional, pois, como disse, o típico produto que está no mercado é para financiar a exportação. O Ouribank é uma exceção no mercado e tem esse tipo de produto.
Nós também fazemos a cessão do recebível de exportação, passando o risco do recebível para o banco. Esse é um ponto que agrega muito ao cliente exportador, mas quando eu vou a fóruns internacionais, que discutem esse tipo de produto, eu encontro americanos, canadenses, chineses, australianos, europeus de toda parte, argentinos, chilenos, peruanos e colombianos, mas nunca encontro brasileiros.
Para importar, nós temos um produto, que já passou da barreira de US$ 2 trilhões no mercado internacional, que é o Supply Chain Finance, que aqui é conhecido como risco sacado. Por mais que essa operação seja bastante feita no mercado doméstico, ela não é feita para o mercado internacional. Lá fora, a utilização desse produto cresce mais de 20% ao ano. Esse é um tipo de operação que resolve uma questão milenar do comércio internacional, pois quem vende quer entregar a mercadoria e receber o pagamento por ela, sendo que quem compra quer receber a mercadoria e ter prazo para pagá-la.
Esse é um tipo de mecanismo que facilita o comércio internacional, mas eu vejo, muitas vezes, o Brasil parado no ACC, ACE e Finimp, sem olhar para o que está acontecendo no exterior, como a digitalização da documentação, a atuação nessas transações e a elaboração das coberturas de risco dessas transações com documentação, tendencialmente, digital.
No mercado doméstico, nós estamos vendo as duplicatas escriturais, o que facilita o seu desconto junto aos bancos, mas isso já está acontecendo no mercado internacional, com uma função muito mais gigante. O Brasil está pouco atento ao que está acontecendo no mercado internacional para quem quer vender para o exterior, tem invoices de exportação e precisa descontá-las para cobrir os seus riscos de crédito. Isso porque não é só financiar, pois também é preciso cobrir os riscos de crédito. Está havendo uma revolução gigante de digitalização, de financiamento das invoices de importação e exportação, e da tratativa dessas invoices e da cobrança desses recebíveis.
É incrível o que está acontecendo na Índia em termos de plataformas digitais para atendimento desse tipo de solução. Isso porque a Índia, da mesma forma que a China, vende muitos bens de consumo, enquanto a maior parte das exportações brasileiras são voltadas ao agro e à indústria extrativa, onde são utilizados instrumentos de carta de crédito e cobrança documentária.
Considerando a conversa que tivemos, você gostaria de acrescentar algum ponto?
Como nós temos uma visão de entender o cliente, é por aí que nasce a construção de bons produtos. Eu não quero vender ACCs, ACEs e Finimps de prateleira com preço de tabela de supermercado. Esse tipo de solução não agrega nada ao cliente e não ajuda no comércio exterior brasileiro. É preciso pegar o cliente e entendê-lo de uma ponta a outra. Se o cliente comercializa suco de laranja, é preciso entender onde as laranjas são compradas, como elas são pagas, como o estoque e a produção são feitos, para quem o suco será vendido, em que países estão os compradores, quais são os pontos de risco e onde há riscos de câmbio, crédito e operacional. Se esse cliente for entendido de uma ponta a outra, nós vamos conseguir oferecer soluções adequadas e que agregam valor. De outra forma, nós vamos ser o que não queremos: um supermercado onde cada produto de prateleira tem uma etiqueta de preço.

















