O ciclo da inadimplência: efeitos da pandemia na obtenção de crédito

Por Gustavo Antunes.

Depois de mais de um ano de pandemia, ainda sentimos os impactos nos mais diferentes mercados – e certamente teremos muitos reflexos nos próximos meses. A taxa média de desemprego no Brasil foi de 14,7% no primeiro trimestre de 2021, a maior registrada pelo IBGE desde 2012. O dado corresponde a cerca de 14,8 milhões de brasileiros desempregados.

Como reflexo da falta de emprego, só em abril deste ano, foram registrados 63 milhões de inadimplentes no País; 1,6 milhão de pessoas deixaram de pagar suas dívidas e foram negativadas, de acordo com o Serasa Experian. Isso quer dizer que 39,5% da população adulta brasileira está nessa situação. Estar negativado é um dos principais entraves para obtenção de crédito.

Sem emprego, sem crédito e com pouco suporte por parte das instituições governamentais, os brasileiros se viram em um ciclo de inadimplência difícil de ser quebrado. Até porque, o cenário para as empresas é o mesmo. Uma pesquisa do Sebrae mostra que a obtenção de crédito continua sendo uma barreira para a recuperação financeira das organizações. No Rio de Janeiro, por exemplo, 62% dos pequenos negócios tiveram crédito recusado por bancos e financeiras. Apenas 27% conseguiram empréstimos.

E, sem recuperação financeira das empresas, diminuem as possibilidades de criação de empregos. Sem empregos, mais dívidas. E com mais dívidas, menos crédito. Esse é um ciclo fácil de ser percebido e difícil de ser rompido, mas não impossível. Precisamos pensar na reinclusão das pessoas endividadas no sistema bancário, para que elas possam ter acesso ao crédito e outros recursos capazes de auxiliar a recuperação financeira.

A securitização deixou de ser uma novidade no mercado, mas ganhou mais espaço e força com a pandemia. O termo, bastante conhecido e utilizado no mercado financeiro, se refere a uma dívida negociada com seus investidores. O principal objetivo é transformar as faturas não pagas ou dívidas de empréstimos, em títulos negociáveis. Se antes essa prática era comum entre as empresas, hoje ela é bastante comum, também, entre os bancos e seus correntistas.

Atualmente, alguns bancos optam por comercializar as dívidas de seus clientes com empresas especialistas no mercado. Assim, todos os lados obtêm vantagens: o banco, por receber uma parte do valor que, de outra forma, estaria perdido; e os clientes, que podem, finalmente, negociar suas dívidas.

Ao ter acesso a novas formas e possibilidades de negociações de suas dívidas, as pessoas conseguem regularizar a situação. E, claro, regularizando a situação, o acesso ao crédito é facilitado com o tempo. E então, podemos acompanhar esse novo ciclo, dessa vez, não de inadimplência, mas de recuperação. Essa é uma alternativa bastante realista para que possamos acompanhar o crescimento da nossa economia novamente, depois dessa tempestade turbulenta causada pela pandemia de Covid-19. Precisamos pensar juntos e focar em diferentes formas de sairmos dessa. O que a sua empresa tem feito nesse sentido?

 

Gustavo Antunes é CEO da Liderança Serviços Financeiros.

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