O clube fechado do capital: o ROI das SAFs

Descubra por que não é qualquer CPF que consegue comprar. Por Felipe Araujo

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Bola de futebol
Bola de futebol (Foto de Peter Glaser na Unsplash)

Quando a Lei das SAFs foi sancionada, vendeu-se ao torcedor uma narrativa romântica: a de que, em breve, qualquer pessoa com um CPF e um aplicativo de corretora poderia comprar ações do seu time do coração na B3. Hoje, em março de 2026, a realidade do mercado financeiro se impôs. O futebol brasileiro virou uma classe de ativos altamente rentável, mas restrita a um clube fechado de bilionários e fundos de Private Equity.

No mercado corporativo, paixão não é garantia fiduciária e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) não audita sentimento.


A estrutura do cheque: como se compra um clube

Diferente de comprar ações da Petrobras, adquirir uma SAF não é apenas transferir dinheiro por equity (participação acionária). O investimento é uma operação complexa de Distressed Asset (ativos estressados). A composição do capital geralmente exige três frentes simultâneas:

  • Aporte primário (liquidez): dinheiro novo no caixa para a operação do dia a dia (OPEX).
  • Assunção de passivo: o investidor assume a responsabilidade solidária sobre a dívida bilionária da associação civil, estruturando um Regime Centralizado de Execuções (RCE) ou recuperação judicial.
  • CAPEX obrigatório: investimento carimbado em infraestrutura (CT, modernização de estádio) e capital de giro para a montagem inicial do elenco.

O salto quântico: risco e sucesso

O mercado não vive de teses, vive de saídas (Exits) e valorização. O Brasil de 2026 já possui cases consolidados que entregaram retornos agressivos aos seus operadores iniciais.

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Cruzeiro: O case definitivo de Buy Low, Sell High. Ronaldo Nazário assumiu o clube em 2021 em situação de pré-falência, com uma injeção inicial de caixa de apenas R$ 50 milhões e o compromisso de renegociar a dívida. Após o saneamento básico e o retorno à Série A, vendeu sua participação em 2024 para o empresário Pedro Lourenço por aproximadamente R$ 600 milhões. Um ROI (Retorno sobre Investimento) estratosférico em menos de três anos.

Botafogo: John Textor aportou cerca de R$ 400 milhões iniciais para assumir 90% da operação. Com a sinergia de sua holding, a Eagle Football, os resultados vieram rapidamente: títulos de peso como o Campeonato Brasileiro e a Libertadores. Mas a que preço? Nos anos seguintes, o que se viu foi uma crise crescente, a ponto de o clube começar a perder jogadores até para o mercado interno. O auge veio, mas a queda também. Resta a dúvida: trata-se de uma parceria ao estilo dos anos 1990 – chega, conquista e sai, deixando o clube fragilizado – ou ainda há espaço para uma gestão eficiente e sustentável no longo prazo?


A barreira do CPF: por que não há IPO no futebol?

Para a B3 autorizar a abertura de capital de uma empresa, exige-se governança rigorosa, previsibilidade de receita e balanços auditados sem ressalvas. O futebol, por natureza, é o oposto da previsibilidade.

Se uma companhia de varejo tem um trimestre ruim, o EBITDA cai 5%. Se um clube de futebol tem uma temporada ruim e cai para a Série B, o seu faturamento derrete entre 40% e 50% no ano seguinte (queda brutal em cotas de TV).

Nenhum órgão regulador sério permitiria que o pequeno investidor atrelasse suas economias a um ativo cujo fluxo de caixa depende de uma bola na trave no último minuto do campeonato. Por isso, a SAF no Brasil em 2026 é um jogo de Venture Capital: altíssimo risco bancado por capital fechado e estruturado. Pelo menos nesse momento o sonho de comprar ações de time de futebol, é algo distante.


É cassino de bilhões?

Quando abrimos o balanço consolidado do ecossistema das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) no Brasil hoje, não estamos mais falando de milhões. A indústria mudou de casa decimal e orbita a faixa de R$ 15 bilhões a R$ 18 bilhões em volume total movimentado.

  • Quanto vale: apenas somando o equity das SAFs consolidadas na Série A (como Atlético-MG, Botafogo, Cruzeiro, Bahia e Vasco), o valor de mercado combinado dessas companhias ultrapassa a barreira dos R$ 12 bilhões. O Atlético-MG sozinho, após sua reestruturação de capital, ostenta um valuation superior a R$ 3 bilhões, seguido de perto pelas operações de John Textor (Botafogo) e Pedro Lourenço (Cruzeiro);
  • OPEX: as principais SAFs da elite operam hoje com orçamentos individuais que variam de R$ 350 milhões a mais de R$ 500 milhões anuais. Isso engloba cotas de TV (que despencaram para quem caiu de divisão, mas seguem fortes na elite), Matchday (bilheteria e consumo no estádio), sócio-torcedor e patrocínios (mesmo com a retração das casas de apostas);
  • CAPEX: temos mais de R$ 2 bilhões carimbados e em execução direta para infraestrutura física (modernização de estádios e Centros de Treinamento) e saneamento de dívidas antigas através de Recuperação Judicial ou Regime Centralizado de Execuções (RCE).

O futebol deixou de ser instituição de caridade. Quem não tem estômago para a volatilidade, que invista em Tesouro Direto ou assine o Monitor Mercantil.


Felipe Araujo, Diretor Executivo e Estratégia no Futebol

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