O colapso do preço do petróleo e seu impacto geopolítico

Por Edoardo Pacelli.

Opinião / 17:27 - 6 de jul de 2020

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor

O petróleo Brent, o que vem diretamente do Mar do Norte, representa o petróleo que detém cerca de 60% do mercado. Isso ocorre porque esse petróleo tem um custo muito menor do que os outros tipos, como aquele extraído no oeste do Texas. O Brent, de fato, é obtido perto do mar e, consequentemente, os custos, relacionados ao transporte, são muito menores do que aqueles que caracterizam outros tipos de petróleo.

No início de janeiro de 2020, o petróleo Brent negociava pouco mais de US$ 70 por barril; no entanto, apesar de um turbulento 2019, o ano seguinte, o atual, não prenunciava, de forma alguma, o futuro desastroso.

Vários acontecimentos delinearam um cenário estridente de incerteza geopolítica global. Falamos da tensão no Oriente Médio e no norte da África (MENA: Middle East and North Africa), da guerra civil da Líbia, das atitudes de Erdogan-Assad na Síria e da escalada contínua das relações entre os EUA e o Irã, que atingiram seu auge após o assassinato de Soleimani, além do fracasso da intervenção da Arábia Saudita na frente iemenita, juntamente com os ataques de drones nas instalações de Aramco, pelos rebeldes Houthi.

O papel crítico dessas regiões, na formação dos mercados internacionais de energia, tem aumentado os preços do petróleo. No entanto, uma série de fatores imprevistos reestruturou completamente o cenário global de energia, causando mudanças fundamentais, que nunca poderiam ser previstas e que nunca aconteceram antes.

Os primeiros sinais do colapso dos preços eram visíveis em meados de fevereiro de 2020, quando a China não permitiu que os petroleiros descarregassem sua carga no terminal de Qingdao, um dos pontos mais importantes da importação de petróleo no país. Com muitas regiões, já bloqueadas, devido ao surto de Covid-19, a necessidade de petróleo foi drasticamente reduzida, e as instalações de armazenamento chinesas já estavam sobrecarregadas.

Ao mesmo tempo, as negociações entre Moscou e Riad sobre o controle do suprimento e corte na produção diária do petróleo levaram a um beco sem saída. Com a Rússia se afastando das negociações, a Arábia Saudita aplicou um desconto de, aproximadamente, US$ 7 por barril para seus clientes. A Arábia fez isso para pressionar o Kremlin. Esses acontecimentos ocorreram no início de março, levando a um aceleramento da baixa dos preços do petróleo.

Logo depois, o crescimento exponencial de Covid-19, em todo o mundo, se tornou aparente, e a OMS declarou o vírus uma pandemia. Isso criou a tempestade perfeita. O impasse entre a Rússia e a Arábia Saudita bloqueou o controle diário da produção, provocando uma superprodução. O surto de Covid-19, então, fez com que a demanda global despencasse.

De fato, a demanda global de petróleo caiu 33% em questão de dias, provocando impacto devastador nos mercados internacionais de energia. O petróleo Brent atingiu mínimos históricos, sendo negociado perto de US$ 20 por barril, enquanto as coisas ficaram ainda mais peculiares, como iremos explicar, no que se refere ao Western Texas Intermediate, o petróleo bruto leve do Texas, conhecido como WTI.

 

Explicado o paradoxo dos contratos negativos

Nas semanas passadas, os contratos negativos de petróleo chegaram às manchetes, pois muitas pessoas tentavam descobrir o paradoxo do que, antes, era um bem precioso, negociando commodities a preços negativos. Aparentemente, os preços negativos não se referiam ao valor do petróleo WTI por si, mas, aos contratos futuros da commodity. Os contratos futuros constituem um acordo financeiro, em que duas partes concordam em trocar dinheiro por um ativo subjacente, neste caso, o petróleo.

O preço do contrato futuro é especificado, e uma data para essa troca, a data de vencimento, é determinada. O pânico desencadeado pela inconsistência entre a oferta e a demanda de petróleo deve ser atribuído ao fato que muitos detentores não tenham conseguido vender seus contratos, quando a data de vencimento se aproximava.

O petróleo WTI comercializado através de contratos futuros é entregue na data preventivamente acordada (vencimento) nas instalações de armazenamento de Cushing, uma pequena cidade em Oklahoma. Desde meados de abril, a capacidade de armazenamento em Cushing vem diminuindo gradualmente.

Os detentores de contratos – comerciantes que procuram gerar lucros através da especulação e troca de contatos, em vez de se interessarem em possuir os ativos subjacentes – tiveram que vender os contratos o mais rápido possível, ou cobrir o processo de entrega do petróleo que possuíam. Com essa capacidade reduzida, tornando o processo de entrega e armazenamento, realmente, urgente e caro, muitos detentores de contratos estavam ansiosos para se livrar deles, antes do vencimento, mesmo que tivessem de pagar alguém para aceitá-los; portanto, o preço negativo dos contratos do WTI de maio representa uma situação sem precedentes, pois contratos futuros nunca foram negociados com valor negativo no passado.

O cenário de uma repetição desse paradoxo não é improvável. Como há um planejamento para que as contramedidas de Covid-19 sejam gradualmente levantadas em todo o mundo, a demanda começará a crescer novamente, lentamente, enquanto a oferta continuará aumentando. Considerando que os setores de viagens e transportes são os mais afetados e precisam de muito tempo para voltar aos trilhos, os problemas de armazenamento e entrega, ainda podem permanecer, prolongando a crise nos mercados de energia.

 

O impacto nos países ricos em petróleo

Uma década atrás, quando a Primavera Árabe estava se espalhando pelo MENA, as monarquias do Golfo, ricas em petróleo, conseguiram lidar com a crise. Embora a onda de revoluções estivesse derrubando regimes em toda a região, regimes considerados poderosos e improváveis de serem removidos, o impacto nos Estados do Golfo foi mínimo.

Isso pode ser explicado pelo fato que a enorme receita gerada pelas reservas de petróleo permitiu que países como a Arábia Saudita entregassem pacotes de estímulo e impulsionassem financeiramente seus cidadãos. Essas medidas, combinadas com algumas reformas virtuais, foram suficientes para descomprimir qualquer massa crítica de tensão. O Kuwait, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos tentaram diversificar sua economia nacional e diminuir, gradualmente, a dependência absoluta do setor de energia nas últimas décadas.

No entanto, todos esses países ainda dependem fortemente da produção de petróleo. Uma extensão a longo prazo da situação atual pode limitar as capacidades do governo de gerenciar com eficiência um amplo movimento no país, pressionando por novas mudanças, especialmente se houver semelhanças com a dinâmica da Primavera Árabe. Mas, também, quaisquer dificuldades econômicas no Reino da Arábia Saudita poderiam desencadear um efeito dominó em toda a região.

Vários Estados mais pobres do MENA estão recebendo assistência financeira do Reino, enquanto os Estados do Golfo têm sido o destino para onde muitos trabalhadores estrangeiros, de outros países do Oriente Médio, estão migrando. O Líbano já está em turbulência profunda há vários meses, e a crise só vai piorar a situação. Marrocos e Jordânia também têm recebido ajuda financeira, e uma potencial crise econômica, devida ao colapso dos preços do petróleo, entre as monarquias ricas em ouro preto, pode causar danos colaterais significativos e desencadear distúrbios sociopolíticos em uma área particularmente ampla.

As coisas parecem ainda mais sombrias para países em desenvolvimento, ou com economias emergentes, cuja capacidade financeira depende dos preços do petróleo. O Iraque gera 90% de sua receita maciça deste bem. O setor público e o sistema de seguridade social do país estão claramente baseados, no petróleo. Segundo a estimativa atual, a situação tornar-se-á bastante desafiadora. O petróleo representa 90% da receita de exportação da Nigéria, e os fundos obtidos com a exportação de petróleo cobrem uma quantidade significativa do total dos gastos governamentais.

Embora a Nigéria tenha tido um aumento médio, impressionante, de 7% do PIB por ano, entre 2000 e 2014, a desaceleração dos preços do petróleo reduziu essa taxa de crescimento, para 2,7%, entre 2014 e 2016, segundo o Banco Mundial. A crise atual pode ter um impacto muito maior, já que os índices da Fitch estimam uma recessão de 1%, para 2020, mas as coisas poderão ser um pouco melhores em 2021.

Esse desenvolvimento na Nigéria poderia, igualmente, desestabilizar outros países vizinhos, que dependem fortemente de Abuja, como o Chade, que tem de lidar com o notável problema de um Boko Haram, ou Benin, cuja economia nacional seria diretamente afetada por qualquer turbulência nos mercados nigerianos.

Edoardo Pacelli

Jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), é editor da revista Italiamiga.

Siga o Monitor no twitter.com/sigaomonitor