O crepúsculo da mulher invisível

Por Wagner Cinelli de Paula Freitas.

É um pássaro? É um avião? Não, é o Super-homem! Era assim que começavam os episódios desse, que, sem ter asas, voava pelo espaço.

Histórias em quadrinhos e séries de televisão trazem personagens com superpoderes, quase todos do sexo masculino. Um deles é o Super-homem, nascido no planeta Krypton e enviado à Terra por seu pai biológico, que era cientista.

Há muitos outros, como Batman, Capitão América, Homem-Aranha, Homem de Ferro, Flash e Thor. Embora em minoria, o sexo oposto também tem supers, como Mulher Maravilha, Mulher-Gato e Mulher Invisível.

A diferença, entretanto, não está só na quantidade. O grupo dos rapazes apresenta poderes mais extraordinários, e a força física sobre-humana é uma característica da maioria deles. Outro aspecto é que eles nem sempre têm dotes de beleza e, para confirmar isso, basta olhar para Hulk, Hellboy, Monstro do Pântano e O Coisa.

As heroínas, por sua vez, são sempre lindas. A Mulher Maravilha parece que tirou primeiro lugar no concurso de Miss Universo. A Mulher-Gato, anti-heroína, mas muitas vezes parceira de Batman, com seu traje de couro preto e chicote, é uma figura sensual. Já a Mulher Invisível, quando está visível, usa a roupa bem colada no corpo, revelando silhueta perfeita.

O interesse principal aqui é exatamente nessa última, por conta de sua habilidade. Ela é especialista em não ser vista, a evocar metáfora com a posição secundária que o mundo dos homens destinou às mulheres ao longo da história. É claro que se trata de uma tremenda injustiça. Afinal, a trajetória humana foi construída por mulheres e homens.

Essa parcialidade está refletida tanto na linguagem quanto na história. Tomemos o exemplo do homem das cavernas, que viveu no Paleolítico. De pronto, é de se notar o sexismo embutido nessa designação, pois não se fala em mulher das cavernas, embora ela também estivesse lá.

Passemos então a uma proeza artística dessa época e que chegou até nós, que são as pinturas rupestres encontradas na Espanha e na França. Esse legado era creditado aos homens, supondo-se que, como eram caçadores, teriam usado as paredes como lousa, nelas desenhando estratégias para as caçadas. Mas o arqueólogo Dean Snow, da Pennsylvania State University, analisou os formatos das mãos impressas naqueles sítios, concluindo que a maioria daquelas pinturas foi feita por mulheres.

É apenas um exemplo da distorção da realidade a respeito da atuação de homens e mulheres no passado, a confirmar a regra de que, se há algum fato de destaque, até prova em contrário, atribui-se o protagonismo a “eles”.

Fica aqui traçado um paralelo entre este nosso mundo de pessoas comuns, desprovidas de poderes especiais, e o mundo dos super-heróis. No primeiro, a mulher é invisibilizada desde o início dos tempos, sendo empurrada para a margem da história. No segundo, encontramos uma reprodução de estereótipos de gênero e, ainda que por infeliz ironia, há entre esses semideuses uma personagem que se chama Mulher Invisível.

Porém, não devemos temer as mudanças nem precisamos de pessoas com superpoderes para que ocorram. Assim como o homem das cavernas encontrou o crepúsculo, a invisibilidade imposta à mulher segue, inexoravalmente, para o mesmo caminho, a descortinar tempos bem mais felizes.

 

Wagner Cinelli de Paula Freitas é desembargador do TJRJ e autor do livro Sobre ela: uma história de violência.

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