26.1 C
Rio de Janeiro
segunda-feira, janeiro 25, 2021

O Encontro de Lisboa e o mulato baiano

O que pode ter em comum entre (i) a resposta de Carlos Marighella quando perguntado “quem é você” por Ana Montenegro – disse: “sou apenas um mulato baiano” –, líder revolucionário durante a ditadura militar brasileira, considerado inimigo público nº 1 de seus dirigentes, e (ii) a proposta de Brizola e Darcy Ribeiro de se buscar uma via de conquistas sociais genuinamente brasileira, o chamado “socialismo moreno”?

Ambas retratam a profunda brasilidade desses homens que encarnaram e entenderam a morenice e a grandeza do povo brasileiro e não vacilaram em doar as suas vidas em defesa das liberdades, da democracia e das conquistas sociais do seu povo. Tais líderes mesclavam os conceitos de nação, dando uma outra dimensão às possibilidades e urgência de aplicar as incomensuráveis riquezas naturais e de capital humano do país para eliminar a enorme desigualdade social através do desenvolvimento nacional, apostando na mobilização e no protagonismo do povo organizado.

Tive a sorte de conviver e me engajar nas batalhas destes ícones da história brasileira e, neste artigo, compartilho com vocês impressões e reflexões que espero não apenas servir para recuperar um pouco de nossa História, por vezes esquecida, mas também fomentar o engajamento cívico das atuais e futuras gerações, tão necessário no atual cenário de polarização, globalização e do poder das mídias sociais.

Afinal, foi com essa convicção que Brizola garantiu a posse do então vice-presidente João Goulart em 1961 após a renúncia do presidente Jânio Quadros, durante a Campanha da Legalidade, mantendo-se a frágil ordem democrática brasileira por mais alguns anos – de intensa agitação política e cultural – e que (ii) Marighella, após ser baleado e preso em 1964, criou a Ação Libertadora Nacional (ALN) na clandestinidade, movimento de resistência que atuava através de grupos guerrilheiros urbanos para conseguir recursos e infraestrutura para o desenvolvimento da guerrilha rural.

Naquela época, em face da dura e impiedosa repressão, viu-se na resistência armada a única possibilidade de se enfrentar a ditadura. O povo brasileiro deveria ser o protagonista para restaurar suas liberdades, expulsar o imperialismo que financiava a repressão e realizar as reformas de base – as mesmas ainda hoje debatidas nos Três Poderes – necessárias para desenvolver o Brasil de modo a gerar a sua própria prosperidade e assim construir uma sociedade mais justa e solidária. Isso tudo sem a interferência das grandes potências internacionais.

Dando um passo atrás, não há como falar de nacional-trabalhismo sem falar de Getúlio Vargas, sobre o qual muito já se falou nesta sequência de artigos sobre o tema, de modo que serei sucinto. Vargas entendeu a necessidade de se colocar o trabalhador brasileiro e os mais necessitados como protagonistas das discussões sociais, conclamando em 1º de maio de 1954:

“Constituís a maioria. Hoje estais com o governo. Amanhã sereis o governo. (…) Deveis apertar a mão da solidariedade, e não estender a mão à caridade. Trabalhadores, meus amigos! Com consciência da vossa força, com a união das vossas vontades e com a justiça da vossa causa, nada vos poderá deter.”

A reação das elites antinacionalistas, com apoio norte-americano, foi implacável, levando o presidente ao suicídio, após escrever sua Carta Testamento – leitura obrigatória para o bom entendimento daquela época. Sua atitude extrema foi um grito de denúncia da intervenção internacional e da cumplicidade de seus agentes internos, e uma conclamação à luta numa demonstração de fé inabalável no povo e na nação brasileira. João Goulart foi ministro de Getúlio e seu herdeiro político, passando a ser a figura mais importante do trabalhismo após seu falecimento.

Em meados da década de 70, quando muitos banidos e outros refugiados estavam no exílio, além da luta pela anistia e a denúncia da ditadura, existia a convicção de que o regime autoritário não duraria muito, e prosperava a discussão sobre a necessidade de se propor um projeto político progressista e popular capaz de sensibilizar os brasileiros e acelerar o processo de redemocratização. A diáspora brasileira havia dispersado esses patriotas por vários países como Estados Unidos, México, França, Bélgica, Holanda, Alemanha, Suécia e Portugal. Estes dois últimos países iriam concentrar o maior número de ex-guerrilheiros no exílio.

Nesse contexto, entrava Leonel Brizola como a liderança capaz, por seu passado e evolução política, de dar a força e significado necessário às teses e a esperança daqueles brasileiros por uma pátria livre e justa. A Suécia era governada a décadas pela social-democracia e tinha como primeiro-ministro Olof Palme, que logo se entusiasmou por Brizola e a ideia do novo trabalhismo brasileiro. Neste próspero país escandinavo, onde eu e muitos brasileiros conseguiram asilo após o golpe de Pinochet no Chile, seriam realizados relevantes debates e eventos, com a presença do ilustre convidado Leonel Brizola, nos quais iriam se consolidar a ideia da elaboração de um projeto político que considerasse o legado do trabalhismo de Getúlio, a experiência de Jango, as lutas de resistência à ditadura e liderança carismática de Brizola.

Foi, portanto, a história do nacional trabalhismo, da luta pela libertação nacional, e pela emancipação do povo em direção ao progresso e a prosperidade que inspirou a ação destas lideranças no passado e que naquele momento era revivida por Brizola, Darcy, intelectuais de esquerda e a “turma do gatilho”, como Brizola se referia fraternalmente aos ex-guerrilheiros agora engajados com a proposta do novo trabalhismo, democrático e socialista moreno. Todo o processo se desenvolveria em um clima de otimismo e alegria, alto-astral que muito se devia à Revolução dos Cravos, de abril de 1975, que pôs fim a 48 anos de fascismo em Portugal.

E foi justamente na capital portuguesa que ocorreu o Encontro de Lisboa, realizado entre os dias 15 e 17 de junho de 1979, que, além dos Trabalhistas do Exílio referido acima, contou com a participação dos trabalhistas brizolistas, parlamentares e sindicalistas que estavam no Brasil e ainda enfrentavam os esforços de uma ditadura decadente. Para a realização desta histórica reunião, foi decisivo o apoio do partido socialista português, do seu líder e primeiro-ministro Mário Soares e de um grupo articulado e eficiente de exilados brasileiros, oriundos da resistência armada, que moravam em Portugal.

A Carta de Lisboa, fruto do Encontro, resgata a Carta Testamento de Getúlio, as reformas de base de Jango, o legado de Brizola como governador do Rio Grande do Sul, sua evolução nos campos da educação, reforma agrária e nacionalizações, bem como o legado de Marighella. A Carta, de forma pioneira e explícita, coloca em pauta a importância de se salvar milhões de crianças abandonadas e famintas e condenadas à delinquência, a luta do negro, do índio e das mulheres para que conquistem seus plenos direitos e se construa uma sociedade livre de qualquer discriminação.

42 anos depois, urge que o exemplo do Encontro de Lisboa, inspirado nas lutas do povo brasileiro, nas conquistas concretas do nacional trabalhismo e no sangue derramado de e por patriotas pela liberdade e a democracia, inspire a unidade das forças progressistas, agregando a experiência e o legado positivo dos recentes governos democráticos e progressistas, aprendendo com as falhas ocorridas no caminho e, finalmente, incentivando o diálogo entre diferentes pontos de vista em busca de pontos de convergência e soluções programáticas.

É preciso aceitar com grandeza e sacrifício o desafio da construção de uma ampla aliança, capaz de se contrapor e vencer as forças extremistas e reacionárias que levaram, através das próprias vias democráticas, um ser despreparado de declarado pensamento ditatorial, que despreza a vida, agride as minorias, destrói os valores democráticos, desrespeita a constituição e as leis, sucateia o meio ambiente.

Mas para tanto, é preciso que as novas gerações conheçam e se inspirem em acontecimentos históricos como os ora relatados. Em um mundo em que o tempo é escasso e algoritmos nos direcionam, faço um apelo para que novas frentes de disseminação do conhecimento sejam estimuladas, incentivando-se a produção e divulgação de mais artigos como este, mais documentários como os de Vargas, Jango e Marighella – disponíveis no Youtube – e mais filmes como o Marighella, dirigido por Wagner Moura, com estreia prevista para abril, bem como vídeos e podcasts com conteúdo visando o engajamento cívico.

Carlos Fayal (divulgação)
Carlos Fayal é cirurgião-dentista, militou com Marighella, foi coordenador político-militar da ALN, signatário da Carta de Lisboa e deputado estadual pelo PDT(83/87).

Artigos Relacionados

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas Notícias

Copom está alinhado com maioria da expectativa do mercado

Considerando foco na inflação de 2022, estamos considerando agora que BC começará a aumentar Selic em maio e não em agosto.

Primeira prévia dos PMI’s e avanço da Covid-19

Bolsa brasileira sucumbe ao terceiro dia de queda, mediante aos temores fiscais.

Exterior em baixa

Queda acontece em meio às preocupações com problemas para obtenções de vacinas.

Más notícias persistem

Petróleo negociado em NY mostrava queda de 2,60% (afetando a Petrobras), com o barril cotado a US$ 51,75.

Mercado reagirá ao Copom e problemas internos

Na Europa, Londres teve alta de 0,41%. Frankfurt teve elevação de 0,77%. Paris teve ganhos de 0,53%.