O ESG e a geração de valor

Por Marcus Nakagawa.

A divulgação e consolidação do ESG ou ASG nas empresas, acrônimo que, para quem está lendo pela primeira vez, significa em inglês Ambiental, Social e Governança, está cada dia mais presente e sendo debatido em diversas plataformas: podcasts, televisão, blogs, sites, rádio etc. Os investidores impulsionaram a temática no meio da pandemia por entender que as empresas precisam entregar valor para eles e, também, para a sociedade, por meio de um desenvolvimento sustentável que leve em consideração as questões não só financeiras, mas também os pilares sociais e ambientais.

O artigo da Harvard Business de 2011, com o título “Criação de Valor Compartilhado”, assinado por Michael Porter e Mark Kramer, trouxe esse desafio de reinventar o capitalismo e desencadear uma onda de inovação e crescimento. Os autores apresentam esse conceito de valor compartilhado, cujo foco é a relação entre o progresso social e o econômico, e que existem três grandes saídas para as empresas criarem oportunidade de valor como: reconceber produtos e mercados, redefinir a produtividade na cadeia de valor e fomentar o desenvolvimento de clusters locais. Eles afirmam que as necessidades sociais e não só necessidades econômicas convencionais, definem o mercado, e que as mazelas sociais criam custos internos para as empresas.

Pois é, agora com a crise pandêmica, que causou também a crise econômica mundial, podemos perceber que uma década atrás estávamos discutindo essa temática. Vou além, no final dos anos 90 um grupo de empresários e executivos da iniciativa privada no Brasil criou o Instituto Ethos para fomentar e aprofundar o compromisso das empresas com a responsabilidade social e o desenvolvimento sustentável. Tive a oportunidade de participar de uma das primeiras conferências e acompanhar, durante a minha carreira, esses visionários na questão da mudança de paradigma de gestão das empresas.

É isso que estamos vivenciando hoje, uma verdadeira disrupção do sistema empresarial. Talvez estejamos voltando aos primórdios das criações dos primeiros produtos e serviços na história da administração, ou seja, repensando em criar em cima das necessidades reais das pessoas, mais do que isso, nas urgências da humanidade. A pandemia mostrou exatamente isso com a corrida das vacinas, empresas de bebidas e remédios fazendo álcool em gel, fábricas de roupas fazendo máscaras, enfim, itens de primeiras necessidades para a proteção de todos e todas. Decerto, seja esse “reconceber” produtos e mercados que Porter e Kramer comentam no seu artigo.

Em 2003, Stuart Hart e Mark Milstein, fizeram um artigo com o título “Criando Valor Sustentável”, mostrando que naquela época (e talvez ainda nesta) grande parte dos executivos ainda considera o desenvolvimento sustentável uma espécie de mal necessário, uma vez que envolve regulações, custos e responsabilidades onerosas. No artigo é apresentado um modelo com uma estrutura de criação de valor para os acionistas, que insere os desafios globais do desenvolvimento sustentável. Além disso, reafirma que a sustentabilidade não é incompatível com o crescimento econômico, mas que, sim, pode ser uma fundamental fonte de vantagem competitiva e de geração de valor para acionistas e sociedade em geral.

Pois é, muitos visionários já vinham sentindo esse movimento e apresentando as novas tendências do mercado. Voltando para os dias atuais, ainda sobre tendências, e colocando o acrônimo ESG no Google Trends (plataforma online que mostra a tendência de buscas por certos termos) mostra que a busca pelo conceito ESG vem aumentando nesses últimos meses, a partir de junho e julho de 2020, e também que pesquisas relacionadas como: o que significa ESG, Agenda ESG, ESG o que é, ESG significado etc., estão em ascensão. Nas buscas ainda como assuntos relacionados estão as ações, o compliance, o relatório, a governança corporativa e a bolsa de valores.

Saindo das teorias e indo para a prática, a geração de valor por meio do ESG tem alguns bons incentivos: linhas de financiamentos especiais como a recém-lançada pelo BNDES, que conta com recursos da ordem de R$ 1 bilhão. Dentre as suas principais premissas deste recurso está o incentivo à mudança para uma economia de baixo carbono, e o fortalecimento de cadeias de fornecedores mais sustentáveis nas regiões menos desenvolvidas do País.

Algumas grandes empresas estão buscando ampliar o gerenciamento desse valor, como a Ypê, empresa de várias categorias no segmento de limpeza no Brasil, que ampliou o seu departamento de sustentabilidade e criou uma área específica que fará a gestão de impacto em ESG.

Outro exemplo, ligado ao envolvimento da liderança nesta geração de valor compartilhado, é o Assaí Atacadista, que colocou uma meta de redução de 30% nas emissões de carbono na sua operação até 2025, e atrelou à remuneração variável da média e alta liderança, incluindo o CEO, e todos os diretores nas suas 186 unidades espalhadas nas cinco regiões do Brasil.

Temos muitos e muitos casos de empresas que estão inserindo as temáticas do ESG no seu dia a dia, na sua operação, na sua estratégia e nos seus objetivos. Precisamos acelerar este movimento cada vez mais, pois depois dessas crises, existem muitas pessoas e locais que estão precisando ter a geração dos valores econômico, social e ambiental o mais rápido possível!

 

Marcus Nakagawa é professor da ESPM, coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS) e autor dos livros Marketing para Ambientes Disruptivos, Administração por Competências e 101 Dias com Ações Mais Sustentáveis para Mudar o Mundo (Prêmio Jabuti 2019).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos Relacionados

Potencial das pessoas para promover a diversidade

Por André Abram.

A gestão patrimonial em caso de incapacidade civil de seu titular

Por Felipe Russomano e Julia Spinardi.

Últimas Notícias

O leilão beneficente da Jaguar Parade

Fundos se destinam à conservação de onças-pintadas em seus habitats.

Venda de imóveis novos em SP mantém estabilidade em outubro

Em valores monetários, houve queda do Valor Global de Vendas em relação a outubro de 2020.

Nova energia, fabricação de equipamentos de tecnologia e PMEs em 2022

O mercado de ações A-Share da China parece positivo para o próximo ano. Novas energias, fabricação de equipamentos de alta tecnologia e pequenas e médias empresas (PMEs) são áreas com grande potencial de investimento, de acordo com uma pesquisa recente realizada com 109 especialistas de indústrias na gestão de ativos.

Mais de 100 milhões de macarrão “fedorento” chinês entregues em 2021

A Região Autônoma de Guangxi da Etnia Zhuang, no sul da China, entregou este ano mais de 100 milhões de pacotes de sua especialidade de macarrão de arroz, conhecida como "Luosifen" em chinês.

Escala da indústria de big data chinesa excederá 3 trilhões em 2025

A escala da indústria de big data da China tem a previsão de superar 3 trilhões de yuan pelo final do ano 2025, de acordo com o plano de desenvolvimento para a indústria de big data, durante o período do 14º Plano Quinquenal divulgado pelo Ministério da Indústria e Informatização (MIIT, sigla em inglês) nesta terça-feira.