O fim do ‘come-come’ do setor educacional

Por César Silva.

A Cogna é o maior grupo de educação brasileiro, e a sua subsidiária Kroton é o maior grupo de educação superior do mundo. Com uma história de muito crescimento, expansão, promessas e algumas derrotas estratégicas, o seu início se deu em 1996 com a fundação de uma empresa de pré-vestibulares chamada Pitágoras. Quase 25 anos depois, passou a englobar cursos de línguas e de educação básica em escolas próprias, por meio da marca Saber, além de serviços e de sistemas de gestão para educação básica, pela Vasta; e para o ensino superior, pela Platos.

Mas a realidade é que a experiência de crescimento acelerado vivenciada pelos acionistas deixou de existir, pois um grupo como a Cogna se alimenta e sobrevive de grandes movimentos, sendo o último a compra da Somos Educação, que se desdobrou em Saber e Vasta após a aquisição.

Analisando o que se propõe, com as suas marcas subsidiárias, com o olhar da experiência do setor educacional, que se tornou mercado de ensino superior a partir de 2001; e o setor de educação básica, que ainda não é um negócio de grandes investimentos, mas está na mira, as possibilidades de evolução da Cogna pautadas pela mesma estratégia são poucas.

Vamos aos fatos. A Kroton não se diferencia em proposta de valor. A oferta dos seus cursos superiores é o que chamamos de guerra na lama, ou seja, luta por preço, com redução de custos e cortes de investimentos já feitos ao longo da história da instituição de maneira muito forte. Dizer que bateu no seu teto, ou melhor no seu fundo, já é verdade desde 2017, quando o Cade glosou a compra do grupo Estácio, que garantiria um ciclo de sobrevida e motivação para a marca.

Sem este grande movimento natural de corporações que crescem com aquisições, carinhosamente denominadas “come-comes”, a solução da equipe gestora do grupo foi encontrar um outro alvo tão grande como a Somos Educação. Esta, porém, focada na educação básica, mas grande o suficiente para o Kroton mostrar sua força ao mercado.

Com a compra da Somos, em abril de 2018, a empresa se estruturou como grupo corporativo que atua em dois segmentos com volume considerável de operações. Assim, a Somos Educação deu origem à Saber e à Vasta.

A marca Saber, que é um pedaço da ex-Somos e está voltada a oferta de cursos de educação básica em unidades próprias e outras atividades curriculares, se deparou com um ano muito crítico devido à pandemia e às inseguranças do setor, mas ainda é dentro do grupo Cogna a que tem melhores perspectivas, por conta da realidade da educação básica nos próximos 5 anos, com a reforma do Ensino Médio; a implantação da Base Nacional Comum Curricular, atingindo desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental II; e também da adequação para uma nova realidade de educação digital.

A Platos, por sua vez, voltada a ofertar serviços para a educação superior com um mercado já estabelecido com grandes marcas e aquelas menores tão abatidas pela concorrência, dificilmente terá abertura para oferecer serviços vinculados a outras instituições.

A Vasta tem a possibilidade do momento da educação básica, novas metodologias, novas ferramentas e novos recursos. Isso pode ajudar a aproximação com escolas que são ainda geridas de maneira tradicional, com equipe gestora familiar, porém, como outros grandes grupos educacionais se voltam também a educação básica para aumento de portfólio e como estratégia de diversificação. Assim, dificilmente haverá uma motivação para muitas escolas aderirem a uma parceria. O jogo será acirrado.

Uma analogia ideal para este momento é o de um mágico ilusionista que tenta fazer o seu truque, por muito tempo, sem aprimorá-lo. Aí a plateia não consegue mais se distrair e olha as duas mãos, e é descoberto seu segredo.

Apenas um novo grande negócio salvará o “come-come” do setor educacional, ou a exemplo do que ocorre em todos os segmentos, está na hora de trocar a gestão, desde o CEO, para que os mesmos negócios sejam vistos e estruturados de forma diferente e oxigenada?

César Silva é diretor-presidente da Fundação de Apoio à Tecnologia (FAT) e docente da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP).

Leia mais:

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