O fundo do poço é raso para investidores

Balanços das empresas da B3 mostram perdas somadas de R$ 78 bilhões.

Conversa de Mercado / 19:25 - 5 de jun de 2020

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Empresas endividadas, retração das vendas e piora dos resultados. A economia brasileira chegou ao fundo do poço no início do segundo trimestre entre abril e maio, mas indicadores demonstram que o pior já passou. Apesar de toda a conjuntura, o mercado acionário vive as últimas semanas de glória e nem parece sentir os efeitos da pandemia. Aos 94.637,06 no fechamento desta sexta-feira, o Ibovespa acumula alta 8,43% na semana. No ano, os 700 mil CPFs que ingressaram na Bolsa foram do céu (mais de 100 mil pontos) ao inferno (63 mil pontos).

Mas o que provoca esse otimismo entre os investidores? A princípio, a perspectiva de reabertura da economia, a percepção de que o pior já passou, de que as ameaças ao Governo Bolsonaro ficaram para trás. Na realidade, de fundamento mesmo, temos um colchão de espumas. As empresas que publicaram seu balanço do primeiro trimestre são exemplo disso. De acordo com levantamento da SABE Invest, os resultados líquidos (soma de lucros e prejuízos) de 238 companhias listadas na B3 com balanços publicados até 2 de junho deste ano caíram expressivamente na comparação com o mesmo período de 2019: mais de 100%. As perdas acumuladas somam cerca de R$ 78 bilhões.

Os dados ainda demonstram que dos 22 setores da bolsa, apenas o de Tecnologia da Informação (TI) escapou do terreno negativo, e os resultados subiram 142%. “Embora pequeno com 8 empresas, das quais 6 publicaram balanço no último trimestre, foi o único que resistiu à Covid-19, confirmando uma tendência da importância da tecnologia no mundo moderno”, destaca o CEO da SABE Invest, Luiz Guilherme Dias. Além de TI, outros 12 setores tiveram um desempenho neutro apresentando lucro, mas com redução do resultado do mesmo trimestre de 2019.

Finalizando, 9 setores tiveram um resultado ruim com aumentos de prejuízos que já tinham no início do ano passado ou quedas expressivas dos resultados. Dentre estes, destacam-se as Holdings, Papel e Celulose, Petróleo/Petroquímico e Transporte/Logística. “Como a crise iniciou na segunda quinzena de março, o 2º trimestre deve ser bem pior, exigindo das empresas um tremendo esforço para uma recuperação que deverá ser lenta e longa”, complementa Dias.

A geração de caixa medida pelo Ebitda das empresas analisadas caiu 54,3% de R$ 65,7 bilhões para R$ 30 bilhões, e 43 companhias apresentaram Ebitda negativo no primeiro trimestre deste ano. Os maiores foram: Petrobras, Azul, Suzano Hold, JBS, Sid Nacional, Generalshopp, Cemig, Rumo, Mont Aranha e OSX Brasil.

Do lado do endividamento, a situação das empresas também demonstra piora. As dívidas líquidas aumentaram 20,5% de R$ 1,8 trilhão para R$ 2,1 trilhões. As maiores dívidas foram de: Petrobras com R$ 937 bilhões (+24%), Vale com R$ 206 bilhões (+17%), Suzano S/A com R$ 101 bilhões (+118%). Considerando uma dívida acumulada de R$ 2,1 trilhões e um Ebitda de R$ 30 bilhões, a alavancagem financeira anualizada atinge um nível de 17,6 vezes, extremamente elevado. “Mais importante que o endividamento absoluto é o endividamento relativo, também chamado de alavancagem financeira, medido pela relação entre a dívida líquida e o Ebitda, que quando é maior do que 3 vezes é considerado pelos especialistas um sinal de alerta, e 95 empresas – ou 45% do total – apresentaram grau de endividamento superior a três vezes.

Os fundamentos demonstram que não há motivo para tanta euforia agora. Quando se trata de preço versus realidade, o mercado de ações parece estar na Disney. Cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

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