O futuro da energia

Todas as atividades serão atingidas, e petróleo não será exceção Por Eugênio Miguel Mancini Scheleder

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Energia (foto de Matthew Henry na Unsplash)

Nas próximas duas décadas, o mundo sofrerá transformações mais profundas do que as ocorridas ao longo dos últimos 100 anos. A disrupção será a regra, e as taxas de inovação serão cada vez mais aceleradas. Nenhuma área de atividade, seja humana, empresarial ou tecnológica, estará a salvo das mudanças que virão, e as mutações atingirão a maioria dos processos produtivos e modelos de negócio atuais.

Exemplos de disrupção por inovação tecnológica já ocorreram antes. Em 1998, a Kodak tinha 170 mil funcionários e vendia 85% do papel fotográfico utilizado no mundo. Em apenas 3 anos, o seu modelo de negócio foi extinto. O mesmo acontecerá com muitos negócios e indústrias nos próximos anos, e a maioria das pessoas nem vai se aperceber disso. As mudanças serão causadas pelo surgimento de novas tecnologias e pelo desenvolvimento generalizado das aplicações de inteligência artificial.

O futuro nos reserva surpresas além da imaginação. Novos “softwares” vão impactar a maioria dos negócios, e as futuras transformações serão muito mais rápidas do que as ocorridas no passado. Algumas delas já estão acontecendo e sinalizam o que teremos pela frente. O Uber é apenas uma ferramenta de “software” e não possui um carro sequer; no entanto, constitui, hoje, a maior empresa de táxis do mundo. O Airbnb é o maior grupo hoteleiro do planeta, sem deter a propriedade de uma única unidade de hospedagem.

Muitos analistas acreditam que o setor de energia já ingressou em um processo acelerado de inovação disruptiva, que promoverá profundas mudanças na tecnologia, nos processos e nos modelos de negócios futuros. Para a indústria do petróleo, os vetores dessa transformação têm sido a geração distribuída de eletricidade, a partir de fontes renováveis locais, e a introdução dos veículos elétricos nos mercados de transporte.

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Pressionadas pela necessidade de enfrentamento das mudanças climáticas e por regras contra a poluição cada vez mais rigorosas, as grandes montadoras mundiais estão investindo para que os seus modelos de veículos elétricos estejam à disposição dos consumidores no menor prazo possível. Em pouco tempo, as empresas de tecnologia (Tesla, Apple, Google) estarão construindo computadores sobre rodas, e os carros elétricos tenderão a dominar o mercado na próxima década.

A eletricidade vai se tornar incrivelmente barata e limpa. Os custos, em escala industrial, da energia solar e de outras fontes “limpas” já caíram para níveis que as tornam as fontes de produção de eletricidade mais competitivas em muitos locais. No ano passado, o mundo instalou mais geração de eletricidade com energia solar do que à base de combustíveis fósseis.

Dados da Agência Internacional de Energia e de um estudo da BloombergNEF mostram que os investimentos globais em transição energética atingiram US$ 2,3 trilhões em 2025, quase o dobro dos gastos com a energia de origem fóssil. Os investimentos na geração de eletricidade a partir de fontes de energia renováveis foram de US$ 770 bilhões.

No ranking global, o Brasil aparece como o nono maior mercado de investimentos em transição energética, com US$ 38 bilhões aplicados em 2025, principalmente em fontes renováveis. Segundo o estudo da BloombergNEF, o investimento médio anual global pode alcançar US$ 2,9 trilhões entre 2026 e 2030, indicando que o volume atual deve crescer ainda mais para atender às metas climáticas internacionais.

Fatores geopolíticos podem, também, constituir um estímulo à produção de energia a partir de fontes de origem não fóssil. O recente ataque ao Irã, promovido por Estados Unidos e Israel, resultou na interdição da navegação pelo Estreito de Ormuz e paralisou o escoamento do petróleo produzido na região do Golfo Pérsico, elevando drasticamente os preços do produto no mercado internacional e prejudicando a economia global.

A possibilidade de repetição de eventos dessa natureza induz a busca de soluções energéticas alternativas, mais seguras e sustentáveis. Assim sendo, os países importadores de petróleo e gás natural poderão, por motivos estratégicos e de segurança energética, passar a investir mais na redução da sua dependência da importação desses produtos.

O Plano de Negócios 2026–2030 da Petrobras prevê o investimento de US$ 7,9 bilhões em Diversificação Rentável, que compreende a produção de bioprodutos e o aproveitamento de fontes de energia de baixo carbono. Este valor corresponde a apenas 7% do total de investimentos previstos para o período, de US$ 109 bilhões.

Parece pouco, quando se compara com o que vem sendo feito no resto do mundo, mas é um avanço significativo na direção do desenvolvimento futuro do setor energético brasileiro. Tudo indica que a nossa maior e mais importante empresa decidiu, estrategicamente, destinar recursos crescentes para a pesquisa de processos disruptivos do setor de energia e para projetos rentáveis que utilizem as tecnologias já disponíveis.

A única certeza que temos sobre o futuro é que ele será muito diferente. Todas as atividades que conhecemos serão atingidas, e a indústria do petróleo não será exceção. As empresas mais preocupadas com o futuro passarão, como a Petrobras, a incluir em suas orientações estratégicas cenários alternativos ao “business as usual”, considerando, em todo ou em parte, as tendências aqui descritas. Esse futuro imaginado já está acontecendo, e precisamos entender os seus sinais.

Eugenio Miguel Mancini Scheleder é engenheiro e trabalhou na Petrobras de 1963 a 2015. Foi gerente de Empreendimentos, gerente-geral de Engenharia e assistente de diretor. No Governo Federal, de 1991 a 2005, ocupou cargos de direção nos ministérios de Minas e Energia e do Planejamento.

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