O futuro do trabalho na era da transição energética

Por Edoardo Pacelli.

Se considerarmos o impacto das energias renováveis do ponto de vista da geração de trabalho, podemos examinar o que aconteceu no mundo. Até o momento, só nos Estados Unidos, por exemplo, já são 2,7 milhões de empregos criados no setor da energia limpa, ou seja, um verdadeiro motor de geração de empregos: para cada milhão de dólares investido em transição energética, nos EUA, na verdade, em média 16,7 empregos verdes são gerados, o que significa, mais de três vezes os 5,3 empregos, por milhão de dólares, criados pelas indústrias tradicionais de combustíveis fósseis.

Na literatura anglo-saxônica, há vários anos, fala-se de green jobs, literalmente “empregos verdes”. Uma definição que, a princípio, pode parecer forçada, mas que entrou no jargão jornalístico e empresarial para definir a macrocategoria das profissões destinadas a serem criadas ou reestruturadas pelos processos de transição energética, incluindo, portanto, também, os dos novos mercados que a sustentabilidade vai oferecer.

A posição de gerente de mobilidade de uma empresa de transporte pode ser definida como um green job, mas também a de um engenheiro que projeta materiais de construção eco sustentáveis. O mecânico que opta por se tornar um “mecatrônico”, assim como o técnico especialista na gestão e instalação de redes sustentáveis, pode sê-lo. Haverá posições ligadas à agricultura local, culinária sustentável e agroalimentar “circular”.

Mas muitos empregos estarão ligados à digitalização e à alta tecnologia: desde as profissões no setor do design, da concepção e da produção de veículos eficientes, ao desenvolvimento de novos sistemas de transporte, baseados na digitalização, como o sharing (partilha) de automóveis e bicicletas, até a definição de economia circular. A sociedade de transição energética será uma sociedade altamente qualificada. A economia compartilhada já está ganhando impulso, que agora acabou alcançando destaque, graças a empresas inovadoras como Uber, Airbnb ou BlaBlaCar.

Este tipo de economia é aplicável a vários setores econômicos. A sharing economy, isso é, economia da partilha, é um conceito que se tem afirmado nas últimas décadas, declinado, de várias formas, e aplicado a diversos setores econômicos e sociais. Sobretudo, no início, o próprio termo economia partilhada foi motivo de debate a nível internacional, precisamente porque o fenômeno é recente e a área conceitual a que se refere é vasta e variada.

Assim, uma série de definições contíguas, análogas ou paralelas foram desenvolvidas: da economia ponto a ponto à economia colaborativa, da economia gigantesca à economia sob demanda, até ao consumo colaborativo. Termos usados, às vezes, indistintamente, mas que, de acordo com especialistas, indicam atividades ligeiramente (ou, às vezes, substancialmente) diferentes.

Nos últimos tempos, o fenômeno da sharing mobility, mobilidade compartilhada, tem se firmado, o que podemos considerar um subconjunto da economia compartilhada: a possibilidade de se deslocar de um lugar para outro por meio de veículos compartilhados, como compartilhamento de carros, de bicicletas, de scooters, mas também car pooling – carona solidária – e métodos semelhantes de compartilhamento.

Hoje, o usuário que pega uma bicicleta, encontrada na rua, na qual pode andar após receber a autorização telemática, não sabe que está simplesmente fazendo bike sharing, o sharing mobility, que nada é senão compartilhando bicicletas, ou compartilhando mobilidade!

Citando a Itália como exemplo, escreve a Wise Society, revista online dedicada a melhorar a qualidade de vida, em uma chave ética e sustentável, de fato, que “empregos verdes, na Itália, são caracterizados por um nível mais alto de qualificações exigidas: em um caso entre três (35,2%), exige-se um nível de ensino superior; uma grande diferença em relação a outras figuras profissionais (9,8%)”.

Dos “profissionais verdes” as empresas esperam não só uma formação superior, mas também experiência específica na profissão e estão prontas para garantir maior estabilidade contratual: “As contratações permanentes, de fato, ultrapassam os 49,2%, no caso dos empregos verdes, quando nas restantes das demais profissionalidades essa participação cai para 25,7%”.

A partir de 2018, de acordo com o relatório sobre a economia verde da Symbola Foundation – a fundação que promove e agrega a Qualidade Italiana – os setores ligados à sustentabilidade ocupavam aproximadamente 13% da força de trabalho, empregando cerca de 3 milhões e 100 mil pessoas.

Mas as perspectivas de crescimento são amplas no mundo todo. Em contrapartida, haverá um segundo problema: evitar a perda de empregos tradicionais, de setores em vias de demissão ou de funcionários afetados pela passagem das empresas, rumo a novos paradigmas energéticos e à digitalização.

Os empregos verdes só criarão verdadeiramente o desenvolvimento do emprego se as empresas, instituições e escolas investirem recursos e energia na promoção e desenvolvimento de competências, na requalificação e no fortalecimento geral do sistema, sem deixar ninguém para trás, fortalecendo a capacidade de atualizar competências e habilidades.

Isto é o reskilling, a capacidade de adaptar o que o funcionário já tem, às novas necessidades da era de trabalho digital. Independentemente da idade ou da experiência, é preciso entender que a transformação digital não tem volta e vem fazendo com que tudo se transforme em ritmo cada vez mais acelerado. Isso, igualmente, significa alcançar um verdadeiro desenvolvimento sustentável.

 

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália) e editor da revista Italiamiga.

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