O gasoduto da distensão

Por Edoardo Pacelli.

Hoje, algo se move no eixo Europa–Rússia, e, mais uma vez, a relação especial por excelência, que move a dinâmica política do Velho Continente, é aquela entre russos e alemães. Povos destinados a se procurarem e a se encontrarem, como tantas vezes aconteceu no passado, mesmo com repercussões trágicas, e a moldar, em conjunto, os rumos políticos da Europa.

De fato, o novo evento: o encontro entre os presidentes Joe Biden e Vladimir Putin abriu o caminho para uma fase de reconciliação ou, melhor, de esclarecimento: a Rússia pretende estabelecer relações sinceras com o Ocidente, com base na concorrência aberta, mas com limites bem definidos. E, neste contexto, a definição de novas relações da Rússia com a UE pode ser um teste interessante.

Essa história tem apenas um grande vencedor: Ângela Merkel. A chanceler é a figura mais indicada para cumprir o papel de “ponte” entre a Europa, a Rússia e os Estados Unidos e fazer passar a distensão, através da aceitação substancial, por todos os atores, do símbolo da distensão e do pragmatismo, que caracteriza as relações russo-alemães: o gasoduto Nord Stream 2.

Com habilidade diplomática, Putin anunciou, pouco antes da reunião de Genebra com seu homólogo norte-americano, a conclusão iminente das obras de duplicação do gasoduto, criando o fato consumado para enfraquecer, substancialmente, todas as tentativas extremas de Washington para atacar o Nord Stream 2.

Os Estados Unidos, envolvidos em um grande jogo de xadrez com Moscou quanto à energia, há muito perseguem o objetivo de boicotar o gasoduto, atingindo as empresas envolvidas no consórcio com sanções, tentando influenciar os parceiros do Leste Europeu para enfraquecer o eixo entre Berlim e Moscou, citando as razões para a segurança ocidental comum.

Agora, cinco meses após a posse de Biden, houve uma mudança de postura: o Nord Stream 2 está “perdoado”, no contexto do clima de relativa calma que se criou recentemente. Os EUA deram luz verde, graças ao secretário de Estado, Tony Blinken, que esteve em Berlim.

A União Europeia, pote de barro entre os vasos de ferro das relações internacionais, não pode deixar de seguir as orientações dos EUA e os impulsos da política alemã, em sua abordagem com a Rússia, frente à geopolítica das infraestruturas energéticas. Mesmo no contexto de uma transição energética, a UE tem promovido, nos últimos anos, um impulso ao crescimento das ligações de gás, já estrategicamente planejadas, sem se focalizar no simples “dualismo” tradicional, ligado à dependência do Kremlin, para o abastecimento de energia.

A palavra-chave é “resiliência”, isto é, a busca de novas formas de acesso aos suprimentos não europeus para o Velho Continente. E, se por um lado a diversificação, especialmente na frente dos Bálcãs, é essencial, por outro lado, países como a Alemanha compreenderam que a continuidade do abastecimento de Moscou não pode ser excluída, neste momento, no quadro do sistema energético da UE.

O resfriamento dos ânimos entre Moscou e Bruxelas, portanto, passa pelo gasoduto da distensão. Merkel propôs a Blinken e a Biden uma cláusula de garantia, vinculada à possibilidade de interrupção do abastecimento do novo trecho de Nord Stream se as tensões entre Rússia e Ucrânia se reacenderem, mas, junto com o presidente francês, Emmanuel Macron, relançou esta cláusula na mesa da institucionalização de novas relações, capazes de quebrar o impasse entre a UE e a Rússia, que dura desde 2014.

Conforme relatado pela revista italiana Formiche, de fato, “os embaixadores da França e da Alemanha em Bruxelas, Philippe Léglise-Costa e Michael Clauss, apresentaram uma nota para o próximo Conselho Europeu em que se pede que se sejam revistas as formas existentes de diálogo com a Rússia, incluindo reuniões em nível de dirigentes”, para impulsionar a distensão e, ainda, citando uma vasta gama de temas, como base fundamental para o diálogo: “O clima, o ambiente, o Ártico, a cooperação transfronteiriça, a saúde, o espaço, a luta contra o terrorismo e as áreas da política externa, incluindo a Síria e o Irã.”

 

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália) e editor da revista Italiamiga.

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