O genial ator Othon Bastos

Othon Bastos, 91 anos, brilha em "Não me entrego, não", um monólogo que celebra seus 70 anos de carreira no teatro, cinema e TV. Por Paulo Alonso.

141
Othon Bastos
OTHON BASTOS (FOTO: MARÍLIA CABRAL/TV GLOBO)

O que se pode dizer ou escrever sobre um ator como Othon Bastos? O que esse artista transmite em cena é impactante, indescritível e simplesmente sensacional. Pois é, esse ator, de 91 anos, completo e genial, está no palco do Teatro Vanucci, na Gávea, em cena, apresentando o monólogo Não me entrego, não, escrito e dirigido pelo não menos espetacular e talentoso Flávio Marinho, que resgata, com criatividade, os principais momentos da longa trajetória de Othon, que comemora 70 anos de carreira ininterrupta, seja no teatro, no cinema ou na televisão.

Contrariando o que o menino Othon ouviu de uma professora, quando tinha apenas 12 anos, de que seria um fracasso se entrasse para o teatro, ele é um dos grandes atores do nosso tempo, encarnando seus personagens de forma visceral e emocionante. Sua performance é de extraordinária qualidade cênica e ele vem, por essa atuação recebendo os maiores e melhores elogios da crítica especializada e da legião de colegas de profissão que tem ido vê-lo no palco, nessa peça que fica em cartaz até o final de julho, e de entusiasmados fãs.

Foi o próprio Othon que teve a ideia de criar esse monólogo, depois de assistir à montagem de Judy: o Arco-íris É Aqui, na qual Luciana Braga interpretava a lendária atriz e cantora Judy Garland (1922-1969). Ele comenta que viu a atriz em cena, falando dela própria e da atriz Judy Garland, ao mesmo tempo, de forma criativa e inteligente. Ele, entusiasmado, percebeu que esse ‘duo’ poderia ser uma coisa bem-feita e sublime. Resolveu, então, procurar o amigo Flávio Marinho e lhe propor algo do gênero.

Trata-se do primeiro monólogo do ator, e ele pensa ser uma loucura falar dele próprio, pois o teatro é a arte de contracenar.

Espaço Publicitáriocnseg

Flávio confessa que, no final, a peça ficou mais rica do que ele mesmo imaginava. “É um pouco a biografia dele, mas é uma peça sobre a vida em geral, sobre todos esses assuntos que todo mundo tem, que é o trabalho, o amor, a relação com a fé, política, tudo que faz parte da vida de todo mundo.”

A atriz Juliana Medella acompanha o artista como um apoio para trazer observações às suas falas para que não precise sair do personagem. “É uma personagem simbólica, pois não tem um perfil psicológico. Eles discutem, discordam. Enfim, é igual à própria memória. Isso deu um colorido e um charme à peça”, esclarece Flávio Marinho. Já Othon, sempre bem-humorado e de bem com a vida, diz que a presença da atriz é interessante e importante. “Achei que seria legal ter uma espécie de Alexa em cena”.

O fato é que, com casa cheia todas as noites, Othon mais uma vez mostra o gigante que é em cena. A atriz Jalusa Barcellos, e que também escreveu as biografias de Procópio Ferreira e Bibi Ferreira, saiu mais do que impressionada com o que testemunhou no teatro. Ela saiu em êxtase e agradecida com o espetáculo assistido e postou nas redes um belo texto, sintetizando suas impressões:

“Saí de casa, lembrando de todos os momentos em que estivemos juntos nessa vida. E como sempre amei a singeleza e a simplicidade desse doce e divertido baiano, dotado de um gigantesco talento, fui para o teatro pensando: ainda não assisti, mas já gostei! O que acontece no palco do Teatro Vannucci, durante uma hora e meia de atuação, está muito além de uma impecável realização teatral, onde tudo funciona magistralmente bem: das intervenções sonoras, o desenho da luz até a belíssima concepção cenográfica, sem falar na atuação sob medida de uma bela partner cênica, interpretada pela doublé de diretora assistente e atriz Juliana Medella. O que está lá e não deve deixar de ser visto por ninguém é um Ato Supremo de Amor!!! Um Ato de grandeza, que só os grandes, ou só os fortes, como prefere o próprio Othon, são capazes de nos ofertar.”

Jalusa Barcellos

De fato, o espetáculo é imperdível e são muitos os seus ensinamentos. E nesse período, onde se evidencia o etarismo vigente no ramo do entretenimento, Othon Bastos semeia e colhe esse momento de vitalidade artística e não se entrega, não.

Othon fixou residência no Rio de Janeiro ainda jovem, após a morte de seus pais, para estudar em um colégio interno. Ingressou no grupo teatral mantido pelo lendário Paschoal Carlos Magno, atuando, primeiramente como assistente de cenografia, de iluminação e de sonoplastia e, a partir de 1951, já como ator. Em 1956 partiu para Londres, indo estudar teatro. De volta ao Brasil, foi trabalhar na TV Tupi. Em 1962 participou de três filmes, o premiado O pagador de promessas, de Anselmo Duarte, Tocaia no asfalto, de Roberto Pires, e Sol sobre a lama, de Alex Viany. Foi dirigido por grandes profissionais, como Glauber Rocha, em Deus e o diabo na terra do sol e O dragão da maldade contra o santo guerreiro.

A partir da década de 70, Othon passou a acumular vários prêmios em sua longa carreira. Em 1970 conquistou o de melhor ator no Festival de Brasília, por sua atuação em Os deuses e os mortos, de Ruy Guerra, e, em 1973, levou o prêmio de melhor ator no Festival de Gramado, por seu papel em S. Bernardo, de Leon Hirszman. Dezenas de outros se seguiram.

Sobre o clássico Deus e o diabo na terra do sol, segundo Othon Bastos, no roteiro havia um flashback do cangaceiro Corisco, seu personagem. Então Othon fez sua sugestão brechtiana: “Por que não fazer Corisco narrando a própria história e não um flashback?”. Glauber aceitou, o que merece elogios do intérprete ainda hoje: “Glauber, que na época tinha seus 22 anos, e fazia seu primeiro grande filme, teve a coragem e a generosidade de aceitar essa experiência”.

No teatro, atuou em clássicos como As três irmãs, de Tchecov; Um bonde chamado desejo, de Tenessee Williams, e o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna. Encenou Castro Alves pede passagem, de Gianfresco Guarnieri; Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal; Calabar – O Elogio da Traição, de Chico Buarque, que está comemorando 80 anos, e Ruy Guerra. Chegou a ter sua própria companhia de teatro, em sociedade com sua mulher, a atriz Martha Overbeck.

Othon Bastos é um ator recordista em participações na TV, já tendo participado de mais de 80 produções entre novelas, séries, minisséries e casos especiais nas emissoras pelas quais passou.

O cineasta Sérgio Resende, diretor do filme Mauá: o imperador e o rei, afirmou que Othon Bastos é o maior ator brasileiro de todos os tempos. No filme, Othon dá vida ao personagem Visconde de Feitosa, atuação que lhe rendeu a indicação ao prêmio de melhor ator no Grande Prêmio Cinema Brasil. No cinema, Othon Bastos acumula cerca de 80 filmes. Na década de 90, dois filmes nacionais que tiveram sua participação concorreram ao Oscar de melhor filme estrangeiro: O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto; e Central do Brasil, de Walter Salles.

As décadas de 2000/2010 e a de 2020 em que vivemos foram e está sendo repletas de atuações em seriados e em novelas, além dos palcos nos quais jamais deixou de pisar. Foi escalado para diversas produções do cinema nacional, entre elas: Ponto final, de Marcelo Taranto; O Gerente, de Paulo César Sarraceni; Vazio Coração, de Alberto Araujo; e o filme de estreia, como diretor, do ator José Wilker, Giovanni Improtta.

O ator também foi um dos homenageados no 4º Anápolis Festival de Cinema, que aconteceu em 2014, por sua significativa colaboração para a consolidação da sétima arte no Brasil. Dois anos depois, o ator foi dos homenageados do Programa Persona em Foco da TV Cultura, sendo protagonista do filme Bodas, de Alexia Maltner, escolhido para ser exibido na mostra paralela do Festival de Cannes, na França.

Em 2019, Othon Bastos, que foi o protagonista da versão de Éramos Seis, ao lado de Irene Ravache, em 1994, foi escalado para integrar o elenco do remake da novela, dessa vez na Rede Globo, para interpretar o icônico Padre Venâncio. Além de seu trabalho como ator, Othon Bastos também atuou como locutor em muitos documentários e programas de televisão.

E com essa trajetória brilhante na telinha, na telona e nos palcos Brasil afora e até em outros países, Othon Bastos é uma referência como ator e sua atuação, ao longo de sete décadas, merece ser, e sempre, vivamente, aplaudida. Nessa peça Não me entrego, não, o ator exibe todo o seu domínio cênico, deixando, em alguns momentos, a plateia emocionada, com sua belíssima interpretação, domínio pleno de palco e impostação de voz e ainda pelos gestuais utilizados.

Salve, Othon Bastos.

O teatro agradece a esse ator, exemplo da verdadeira arte de bem representar.

Vida longa.

Paulo Alonso, jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui