O governo Lula e a auto-estima

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Estamos no terceiro mês da posse de Lula como presidente do Brasil. Ainda temos que aprofundar bastante a análise sobre o verdadeiro significado dessa vitória. Neste artigo gostaria de destacar um aspecto fundamental deste grande avanço democrático que estamos vivendo: o papel da subjetividade na postulação de um novo bloco de poder e no seu curto reconhecimento como capaz de gerir uma nação independente.
Foi a auto-estima do povo brasileiro que se atreveu a colocar Lula no governo confiando em uma virada histórica. Darcy Ribeiro e outros antropólogos brasileiros insistem na especificidade da civilização brasileira. Talvez exagerem. Quem sabe possamos falar de uma civilização afro-americana que se extende do Brasil ao sul dos Estados Unidos, passando sobretudo pelo Caribe.
Mas não devemos deixar de considerar a unidade histórico-cultural desta vertente afro com a força da herança indígena que se levanta no Mundo Andino, na América Central e no México. De qualquer forma o povo brasileiro reivindica sua identidade e através dela pretende comandar uma virada histórica a partir do governo Lula.
Tudo indica que esta auto-estima influenciou bastante a formação do primeiro gabinete de Lula. Sob forte pressão do chamado “mercado”, quer dizer, um grupo de especuladores que domina a cobertura jornalística das operações financeiras, Lula partiu para uma operação arriscada. Convidou e conseguiu atrair para a presidência do Banco Central nada menos que o ex-presidente internacional do Banco de Boston.
O mercado, através de alguns de seus principais representantes, ex-ministros da economia que levaram o país ao desastre, mas que mantêm um protagonismo inexplicável junto à imprensa, acusaram a seu mais bem sucedido colega de “demasiado político”. E tinham razão: o novo presidente do Banco Central está tão por cima de todos eles que não tem que escutar suas bobagens nem deixar-se intimidar por elas.
Sua carreira bancária já está feita, não pode chegar mais alto e não tem que garantir um emprego quando sair do Banco Central. A ele somente pode interessar agora uma consagração política. Pelo menos é assim que uma visão otimista deve encarar a questão, apesar das medidas de elevação da taxa de juros na primeira e na segunda reunião do Copom causarem uma grave decepção.
Por outro lado, atendendo ao clima de otimismo geral que circundou sua eleição, Lula buscou formar um ministério de alto nível com poucas concessões ao espírito de clã dos partidos e dos lobbies. Isto é essencial: um ministério deste tipo afirmará a auto-estima do povo brasileiro.
Se o futebol brasileiro volta, com a vitória do Santos, à época de Pelé e Garrincha, valorizando o espetáculo e a eficiente ofensiva, a política deve também voltar aos grandes protagonistas regidos por um homem do povo, sem pretensões de brilhar sozinho, senão a de reger uma orquestra, que esteve sem tocar por um longo período devido às consequencias da ditadura militar, que elegeu a mediocridade como princípio administrativo.
Entre 1950 e 1964, a política brasileira foi marcada por personagens de ponta, como os que cercaram a Vargas, a Kubistcheck e a Goulart. A arquitetura de Niemeyer e Lúcio Costa fez Brasília (contra os mediocres economistas oficiais, como Roberto Campos, que odiavam esta “aventura” econômica que entretanto colocou o povo brasileiro de pé), a música fez a Bossa Nova, as artes cênicas fizeram o Teatro do Oprimido, a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freyre redefiniu a educação básica e se articulou com a nova fase da Escola Nova de Anisio Teixeira e de Darcy Ribeiro, que teve na Lei de Diretrizes e Bases da Educação e na Universidade de Brasília suas mais altas expressões,  a poesia e as artes plásticas criaram o Concretismo, movimento de modernização extremamente ousado, as Ciências Sociais abriram o caminho da Teoria da Dependência depois do avanço representado pelo Iseb. E assim por diante…
Pode-se inter-relacionar estas e muitas outras demonstrações da auto-estima nacional que se expressaram popularmente no futebol arte e no desenvolvimento espetacular das escolas de samba e no Carnaval brasileiro, com seus muitos acompanhantes nas várias formas da música popular brasileira, no ballet de Klaus Viana e seu encontro com o ritmo e a dança brasileira.
Tudo isto refletia um arranque cultural que teve no Movimento Modernista, iniciado em 1922, sua pré-história e que alcançou seu auge nos anos 50, para finalmente ser bloqueado pelo golpe de Estado de 1964. Somente agora podemos retomar em sua plenitude a força deste movimento cultural afirmativo de todo um processo civilizatório.
Ousadia, decisão, compromisso com a realidade e com as aspirações do povo vão acumulando atos transformadores que apontam para mudanças substanciais. As formas culturais são absolutamente necessárias. O tom europeu, anti-utópico, elitista, racionalista que Fernando Henrique Cardoso deu ao seu governo refletia uma ideologia tecnocrática que procurava consagrar o papel de uma lógica formal, pretensamente científica, e uma frieza emocional, pretensamente moderna, como método de governo e administração. Este estilo entrava em contradição com a realidade de um povo que luta com espontaneidade e vontade contra a miséria e o analfabetismo que lhe impôs a classe dominante.
A ascensão de Lula ao governo reintegra a emoção na vida política, valoriza a simplicidade e substitui os tecnocratas por figuras de ponta, por protagonistas e criadores que não precisam dos rituais burocráticos para consagrar sua liderança.
O povo brasileiro participou de todas estas mudanças políticas e sobretudo culturais antes mesmo da chegada de Lula ao poder. Os cidadãos latino-americanos e de todo o mundo também tiveram a oportunidade de entrar em contato com esta nova realidade na medida em que o governo Lula intervém ativamente na defesa da democracia na Venezuela e promete mudanças mais profundas que repercutem em todo o planeta.
Este clima de expectativa se apresentou no Fórum Social Mundial, no qual Lula foi recebido com extremo carinho. Ao mesmo tempo, as forças do estabelecimento internacional o recepcionaram no Fórum Econômico de Davos com expectativas favoráveis e a imprensa européia e internacional apresentou como altamente positiva sua visita à Alemanha e à França.
Ai se elogia a “serenidade e responsabilidade” das medidas econômicas e se comparte a necessidade de uma postura mais decidida pela paz mundial. Sua posição ativa pela paz levou ao convite de Chirac para participar da próxima reunião do Grupo dos 7 mais 1.
Os brasileiros se sentem enormemente reconhecidos nesta situação nova. Desenvolve-se um clima de auto-confiança na população e um redimensionamento de nosso papel no Mundo. São forças extraordinárias que estão despontando do seio da nação. Elas deverão romper em pedaços a crosta autoritária e elitista  neoliberal que oprime nosso povo e conduz o mundo à insanidade da guerra, ao desequilíbrio social e ao atraso.
Por tudo isto torna-se enorme a decepção do povo brasileiro com o lado negativo dos primeiros três meses de governo. A concessão à política econômica ortodoxa, mesmo quando assume a versão confusa de uma “política de transição” gera dúvidas fundadas sobre a duração desta transição e a possibilidade de superá-la.
A aceitação dos argumentos ortodoxos para conduzir a reforma fiscal e a reforma da previdência parecem mais uma capitulação do que qualquer ajuste “necessário” para retomar o crescimento. Os juros altos transferem colossais recursos para o capital financeiro já locupletado das poupanças forçadas do contribuinte brasileiro. Anuncia-se no horizonte político a perspectiva de um desastre econômico similar ao promovido por De La Rúa  na Argentina, ao prosseguir nos erros das políticas neoliberais que levaram à crise atual.
A perspectiva de um recuo ideológico e político tão profundo seria uma horrível frustação para o povo brasileiro que já se expressa nos estudos de opinião, na luta interna do PT e nas manifestações dos demais partidos da frente do governo, inclusive  nas críticas dos industriais que apoiaram a perspectiva de uma nova coligação  de forças sociais  um novo bloco histórico capaz de conduzir a retomada do desenvolvimento econômico com justiça social.
É enorme a responsabilidade que se coloca aos políticos, aos intelectuais e aos técnicos para estar à altura desta nova fase da vida brasileira. É hora do debate franco, da ousadia  do pensamento, do rigor da análise e das propostas decididas.

Theotonio dos Santos
Professor titular da Universidade Federal Fluminense e Coordenador da Cátedra e Rede Unesco – Universidade das Nações Unidas sobre Economia Global e Desenvolvimento Sustentável. Seu último livro é A Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas (Editora Civilização Brasileira).

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