"O ideal deve, como a árvore, ter suas raízes na terra"

Empresa Cidadã / 14:09 - 10 de abr de 2001

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(Arthur Graf von Platen) As motivações da empresa-cidadã são variadas. A intenção de uma empresa empreender projetos sociais é apurada ao longo de vários estágios internos e decorre de muitas avaliações dos possíveis benefícios, de forma mais ou menos assumida. Onde estão as raízes do ideal da responsabilidade social ? Os projetos internos, direcionados para a população de trabalhadores ou colaboradores, que muitas vezes se confundem com os benefícios, podem escalar vários patamares internos. As empresas podem se limitar aos níveis das exigências expressas nas conquista sociais. Conclui-se de imediato que, se este é o nível mais elementar da cidadania empresarial, as empresas que sonegam impostos ou que descontam mas não recolhem encargos sociais sequer alcançaram o nível mais baixo de desempenho ético. Este é um dos indicadores da importância do combate à sonegação e às suas irmãs xifópagas, a corrupção e a indiferença. Satisfeito o nível do atendimento às exigências legais, as empresas candidatas à cidadania podem escalar o patamar seguinte da disputa pelo fator de produção indispensável, o trabalho. Setores mais competitivos, onde o trabalho é indisponível na quantidade e qualidade requeridas, as organizações podem exceder o estímulo da remuneração através de benefícios oferecidos aos seus colaboradores. O patamar seguinte a ser alcançado é o da identidade com a empresa-cidadã e da motivação, o que representa um plano mais sofisticado de formulação dos benefícios a serem oferecidos aos colaboradores. Por último, a empresa poderá chegar ao patamar do desempenho da sua missão ética e cidadã, associando os benefícios oferecidos a outra concepção mais elevada de sociedade. Aí já poderá ser considerada uma empresa-cidadã. Escala parecida existe nos investimentos que são feitos na comunidade externa. Geralmente, as empresas começam a sua trajetória de cidadania pelo nível da filantropia. É a fase das doações assistemáticas e dissociadas de conseqüências que possam ser medidas ou mesmo avaliadas, senão por um conforto momentâneo. No plano seguinte, está a restauração de danos sociais ou ambientais provocados pelas atividades da própria empresa, muitas vezes situadas em setores visados pela opinião pública. Outro plano é o da associação da marca à uma causa nobre, contribuindo para atrair investidores, convencer credores e fidelizar clientes. Neste patamar, o investimento social pode ser visto também como uma defesa preventiva da marca e valorização deste patrimônio síntese da empresa. No degrau mais elevado do exercício da responsabilidade social, está a associação entre a identidade e missão da empresa ao desempenho social. Relaciona-se neste caso o projeto vinculado ao core business, como o estímulo ao voluntariado ligado ao aperfeiçoamento do padrão gerencial. As raízes da empresa-cidadã não são abstratas, estão fixadas em solo caracterizado pela atividade mercantil, com seus jogos de perde e ganha, de defesa de sigilo sobre técnicas, de admissões e demissões e de interesses terrenos, como conquista de mercado, financiamentos e produção de bens e serviços nem sempre associados à essência da nobreza humana. Poucas empresas produzem hóstias ou terços e o máximo de consciência possível em uma empresa pode ser um mundo verdadeiramente melhor mas nunca o céu. QUALIDADE DE EMPRESA-CIDADÃ Em 1989, a DPaschoal, 4 mil trabalhadores e faturamento de R$ 590 milhões em 2000, criou a Fundação Educar Dpaschoal, para orientar as contribuições para a sociedade que realiza desde 1941. Quinze projetos distribuem-se por cinco áreas temáticas - infantil, universitária, empresarial, editorial e comunitária. Um bom exemplo é o PDPC (Programa de Desenvolvimento do Protagonismo e Cidadania), empenhado na formação de conceitos éticos e de cidadania para alunos das redes pública e privada. A fundação utiliza para tanto uma escola própria na cidade de Campinas (SP), através de cursos com duração de 18 meses. Neles, é incentivada a criação de projetos sociais, empreendidos pelos próprios estudantes. Neste ano, está prevista a formação de mais 65 "agentes empreendedores de ações sociais" que se juntarão aos 1,5 mil formados até hoje.

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