O imbróglio que virou o Brasil

Por Paulo Alonso.

Opinião / 17:29 - 6 de ago de 2020

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Depressão, insônia, angústia, medo, expectativas, incertezas. Essas e outras expressões estão no pensamento de todos nós, desde que a pandemia se instalou nos cinco cantos do mundo, atingindo o Brasil em cheio. Além delas, preocupações evidentemente com a saúde, com o contágio, com a morte; preocupações com a economia, com o desemprego, com os compromissos que precisam ser honrados; preocupações com a vida.

E, assim, desde março, temos vivido tempos estranhos, bem estranhos. E, ainda que o Governo Federal não tenha criado ou baixado, como deveria, normatização na área da saúde pública, para prevenir e conter o novo coronavírus, Covid-19, as rotinas da população brasileira mudaram, em razão dos decretos estaduais e municipais. Mudaram em face desse vírus invisível e que nos tomou a todos de sobressalto.

O uso das máscaras, o distanciamento, a necessidade de se lavar com mais frequências as mãos e a utilização do álcool gel foram algumas das mudanças introduzidas em nossos hábitos e costumes. Famílias ficaram distantes, uma vez que sair de casa foi uma alternativa proibida logo nos primeiros tempos da pandemia e que se arrasta em algumas cidades.

Ir à praia e tomar um banho de mar, sentar-se nas areias e apreciar a paisagem exuberante do Rio de Janeiro ficou restrita. Praticar um esporte em um clube, nem pensar. Até mesmo caminhar pela orla das Avenidas Atlântica, Vieira Souto e Delfim Moreira, pedalar por essas vias ou na Lagoa Rodrigo de Freitas foram práticas condenadas. Afinal, a luta é pela preservação da vida.

Com toda essa mudança comportamental, hotéis, bares, restaurantes e shoppings centers ficaram fechados meses. Com a abertura gradual, a situação veio à tona, pois a quantidade de estabelecimentos comerciais que tiveram de baixar as suas portas é gigantesca. Empregadores e empregados ficaram sem saída, em uma verdadeira encruzilhada. E os empréstimos dos bancos públicos e privados, com taxas módicas, não chegaram aos que precisavam.

Benefícios foram concedidos pelo Governo Federal, depois de muita discussão no Congresso Nacional em relação ao valor que seria, finalmente, concedido aos mais carentes. Contratos de trabalho foram suspensos, jornadas de trabalho diminuídas. E, pasmem, muitos receberam sem qualquer necessidade, receberam aplicando golpes, cometendo fraudes.

Escolas, colégios e universidades precisaram se reinventar da noite para o dia, e o ensino remoto foi a saída para que os calendários acadêmicos pudessem ser cumpridos. Portarias, resoluções, decretos pipocavam a todo o momento. Incertezas e mais incertezas. Estabelecimentos educacionais, com a falta de pagamento das mensalidades de uma enorme quantidade de discentes, tiveram e estão tendo prejuízos alarmantes, a receita caiu, e de forma estrondosa. E vários desses complexos escolares fecharam unidades, campi e até mesmo e de forma integral os próprios estabelecimentos.

Nunca o mundo e o Brasil passaram por uma situação tão trágica, tão dramática. E enquanto tudo isso acontece, escutamos, estarrecidos, que “vamos aproveitar o período da pandemia, e passar a boiada nos marcos legais do meio ambiente”, ou “isso é uma gripezinha, um resfriadinho”, ou “todo mundo vai morrer mesmo um dia”.

A dança das cadeiras ministeriais não para. Entra um, sai outro. Na educação, quatro ministros; na Saúde, três, sendo este último interino, quase vitalício! Outras pastas, como a da Justiça e Segurança Pública, Advocacia-Geral da União, Casa Civil também tiveram trocas. Os militares saíram da caserna e começaram a se intrometer na política, sem qualquer habilidade. O discurso na economia muda de tom a cada dia, e ninguém sabe, ao certo, que rumo o Brasil está tomando. O presidente do Banco do Brasil se demite, não suportava mais participar de um grupo econômico que não se entende. Muitos consideram que o país embarcou em um porto, não sabe aonde quer chegar, as cartas náuticas foram rasgadas, e a nau se encontra à deriva, sem comandante.

A Operação Lava Jato se encontra no estaleiro, sendo torpedeada pelo poderoso procurador-geral da República que, visivelmente comprometido com o Governo Federal, adere aos seus atos e ditames, contrariando a corporação do Ministério Pública, que grita por mudanças e por justiça. As “rachadinhas” na Alerj viraram piada de salão, e o seu protagonista, hoje na Câmara Alta, se defende de forma cínica e verdadeiramente desconcertante. Uma vergonha.

O STJ, de forma inédita, permite que uma mulher foragida fique em prisão domiciliar, e aí a criatura aparece para cuidar do marido, que se escondia na casa do advogado do presidente da República. Decisões do STF, várias delas sobretudo nesse recesso, foram cômicas. Inacreditáveis!

E haja imbróglio.

Diante desse cenário para lá de sombrio, amargo, estamos, céticos, às vésperas de uma eleição municipal, já adiada para o dia 15 de novembro, primeiro turno. E quando começamos a verificar quem são esses caras, esses candidatos, observamos figuras bizarras e circenses até, sem comprometimento com a causa pública e na defesa de interesses próprios. Para que, afinal, defender os anseios da população? Um deputado emprega um séquito de “auxiliares”; um senador, séquito ainda maior; e os vereadores reúnem 20 elementos em seus gabinetes. Trabalham muito. Precisam de muitos asseclas para os ajudarem a fazer menos pelo povo. Vergonha nacional.

Paulo Alonso

Jornalista, é reitor da Universidade Santa Úrsula.

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