O inferno brasileiro e as vacinas

Ante a guerra da vacina que vive (ou mata) o Brasil atualmente, recordo-me de uma crônica do anedotário antigo (autor não sabido e incerto) sobre o inferno brasileiro, mais atual do que nunca.

O inferno brasileiro funciona assim. Cidadão morreu e, na conta de perdas e ganhos, terminou devendo. Foi para o inferno. Lá chegando, Capetão, o capeta-chefe, fez com que ele assinasse o termo de responsabilidade pela escolha que faria entre o inferno chinês, inferno americano ou inferno brasileiro. Qual seria a diferença entre os três?, perguntou. Em resposta, o coisa ruim respondeu:

Inferno chinês é bem moderno. Tem 5G, Internet das Coisas, tudo eletrônico, e a temperatura é mantida eletronicamente em 40ºC. Inferno americano não é tão moderno; a temperatura permanente é a mesma do inferno chinês, só que tudo é movido por energia elétrica. Tem muitos ratos no metrô e em um local que chamam de Disney tem um só, mas grandão. Tinha também um chefe de cor laranja, um chato, que repete toda hora que roubaram os votos dele.

Inferno brasileiro é mais antiquado, aquecido a lenha mesmo, toda ela tirada ilegalmente da Amazônia. O controle de temperatura, mantida a 100ºC, é mecânico, um operador terceirizado joga a lenha na fornalha.

O recém-chegado hesitou, olhou para o diabinho que o acompanhava, e o diabinho sussurrou: escolhe o brasileiro… Mas são 100ºC?, retrucou o novato. Ao que o diabinho retrucou: é verdade, mas um dia falta lenha. Quando tem lenha, falta o operador, quando chove, também não funciona, e se funciona, tem que esperar pelo menos três semanas para consertar o que estragou com a chuva (embora não fique no Amapá)…

 

O fato

Enquanto UE, China, Inglaterra, e até os EUA do Trump, já vacinam contra a Covid-19, aqui ainda impera o inferno do Capetão. São capazes até de comprar o imunizante daquele fornecedor que requer resfriamento a -70ºC, para utilizar no semiárido. E mais, seringas, agulhas, controle da periodicidade das doses de vacina aplicadas, atestados, etc., etc. Neste inferno tropical, em que o general-saúde já provou que logística não é o seu forte…VDM.

 

Barrados no baile

“Tratados como maus elementos”. Como na canção de 1983, de divertida interpretação por Duardo Dusek, o presidente do Brasil foi barrado no baile da Cúpula Online do Clima, realizada no sábado, 12 de dezembro (preliminar da Cop26, prevista para 2021, no Reino Unido), com mais um desempenho ridículo, para a vergonha de todos os brasileiros. Bem que o Itamaraty tentou penetrar, mas não fez o dever de casa e ainda tentou enganar a portaria.

Em dezembro de 2019, foi realizada a Cúpula do Clima que resultou no Acordo de Paris, assinado na ocasião por 196 países. Houve quem roesse a corda mais tarde, mas é solução já equacionada. Desta vez, a Cúpula foi realizada por meio virtual, para conferir as NDCs (sigla em inglês para National Determined Contributions), documento que registra políticas, objetivos, metas e meios dos países signatários para alcançar os compromissos do Acordo – basicamente voltados para a contenção do aquecimento dentro de parâmetros de até 2ºC, até 2030.

As NDCs representam assim os compromissos de cada país, por exemplo, com a redução das emissões de gases causadores do efeito-estufa, índices calculados sobre os números de 2005. A Cúpula cobrou compromissos ousados.

 

Malandragem brasileira ‘deu ruim’

A ousadia requerida pela Cúpula não só foi ignorada pelo governo brasileiro, mantendo a mesma meta de 43% de redução de CO2, calculada sobre 2005, como os dados da base de cálculo (de 2005) foram revistos para baixo, o que permitiria acrescentar às emissões de CO2 até 400 milhões de toneladas (Ministério da Porteira Aberta?) Não colou, e o Brasil, apesar do bom retrospecto perante o mundo desde a Rio92, não foi convidado. Que papelão…

 

‘Homework’

Cientistas do clima, reunidos na Climate Action Tracker, organização que acompanha as propostas nas NDCs, rebaixaram a classificação das metas do Brasil de “insuficientes” para “altamente insuficientes”, não só pelo expediente adotado nas mudanças da base de cálculo, mas também por ter omitido referências a metas de redução do desflorestamento ilegal.

 

Incertezas e insegurança jurídica

“A revisão das metas climáticas brasileiras dentro do Acordo de Paris traz incertezas, insegurança jurídica e dificulta a atração de investidores”, assim falou a Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura, integrada por mais de 260 representantes do agronegócio, sociedade civil, setor financeiro e academia.

Em nota, a Coalizão afirmou que, com a revisão da NDC “o Brasil mudou parâmetros relevantes que levantam dúvidas sobre o seu nível de ambição e capacidade de planejamento”, e que “a falta de clareza pode dificultar o país na atração de investidores”. De acordo com a nota, ao fazer uma revisão “que não agrega ambição e retirar parâmetros para redução de desmatamento ilegal”, o governo brasileiro renuncia à importância que já teve um dia.

“A ausência de diálogo no processo de revisão da NDC também preocupa a Coalizão Brasil. A sociedade brasileira foi fundamental para que o país apresentasse uma meta ambiciosa na Conferência do Clima (COP 21), em 2015, que teve como resultado a assinatura do Acordo de Paris. Na revisão, a tradição de diálogo e escuta com a sociedade não foi respeitada”, acrescenta a nota da Coalizão, que inclui gente grande, como Bradesco, Cargill, Natura, Klabin, Natura e Itaú, entre outras.

Depois, não vá dizer que a cartomante te enganou…

Leia mais:

‘Quando se vê…’

Rio, de quê?

Paulo Márcio de Mello
Servidor público professor aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

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