O Islã teria um projeto político?

Por Edoardo Pacelli.

A história do professor de francês Samuel Paty, decapitado, não abalou as consciências ocidentais. Não parecia escandaloso que um professor foi decapitado após uma aula, julgada, pelo Islã, como uma matéria blasfema, e o motivo é bem simples: a cultura europeia já foi comprometida e transfigurada pelo próprio medo de discordar das imposições dos maometanos. O fato de a sharia estar na Europa não perturba mais ninguém.

Neste contexto, a Turquia não pode aceitar que a França, coração da Europa Ocidental, continue a lhe resistir em todas as frentes: na Líbia, onde Macron está ao lado de Haftar, o rebelde líbio; há o cenário de crise em que Paris apoia a Grécia contra a Turquia, no Mediterrâneo Oriental; e há o apoio francês à Armênia, contra os azeris, apoiados por Ancara, no confronto de Nagorno Karabakh.

Mas isso não é tudo. Na base e no pano de fundo há um jihad, uma guerra santa, em que o Islã está lutando contra a Europa. Um jihad geopolítica, econômica, dialética e religiosa, e nenhum desses elementos pode ser desconectado um do outro. Em suma, Erdoğan quer fechar o parêntese do século XX e retornar ao passado glorioso de seu país. Ele quer a tocha do Islã sunita.

O fato de o presidente turco chamar o homônimo francês de “perturbado mental”, por tentar impedir a islamização na França, com todos os limites do caso, não provocou reações unânimes no mundo político, e não apenas no Velho Continente. Erdoğan afirma que está defendendo a hostilidade antimuçulmana generalizada, mas o sentimento europeu está longe de ser islamofóbico.

O que o aspirante a sultão turco empreendeu, agora, não se trata de uma guerra de palavras, nem de proclamações que de nada servem. A Europa está ameaçada; a Europa é convidada a mudar seu vocabulário; a Europa está em guerra. Facas, bombas, aviões terroristas, catedrais são engolidas pelas chamas, crucifixos escondidos, a liberdade de expressão foi decapitada, a declaração de guerra foi assinada, e há um exército à frente do outro.

O Estado turco sempre teve interesse em exercer sua influência na moral pública. Foi nesta frente que se estabeleceu, na década de 1970, o principal campo de batalha simbólico entre leigos e islâmicos. As coisas estão crescendo hoje. Até porque a Europa acredita que está lutando o bom combate com a técnica do ensino fundamental: a maldade. O Charlie Hebdo já decidiu que a próxima capa será dedicada a Erdoğan com uma de suas provocações mesquinhas e sem sentido, intensificando a tensão sobre a questionável liberdade de expressão.

Enquanto isso, a Europa suaviza os termos porque tem medo do Islã, depois de mimá-lo em casa. E a sutil solidariedade de alguns políticos é apenas uma fachada: uma vez que todos os princípios europeus estão indo água abaixo, o boicote econômico aos produtos franceses só pode beneficiar os outros Estados-membros. Esta é a enésima prova do vazio de se falar da unidade europeia e, acima de tudo, torna ainda mais evidente o ventre mole do Ocidente, incapaz de se defender, estando a um passo da “conversão” ao Islã.

Macron defendeu seu professor. E isso foi o suficiente para o Islã escalar sua guerra santa. Macron, no entanto, nunca fez um ataque real ao Islã; recentemente, ele até falou de separatismo – para ele o problema não é apenas o islamismo. A única coisa que fez foi defender o direito de blasfemar – observação que deixa o tempo que encontra, aliás – e está pensando em como impedir os ataques, mas ainda não há lei.

E o que está acontecendo, na França, depois de tudo isso? Cerca de 15 dias, após a decapitação do professor, a promotoria de Paris está investigando 80 casos de apologia pelo assassinato de Samuel Paty, o professor decapitado, e novas ameaças de morte para aqueles que ofendem Alá.

Edoardo Pacelli é jornalista, ex-diretor de pesquisa do CNR (Itália), editor da revista Italiamiga.

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